18 de janeiro de 2026

Não tranca o dente



Para D.T.


Passava de duas horas da madrugada quando Dr. Saulo me recebeu no apartamento dele. Abriu a porta com a cara amassada. Contrariado, permitiu que eu entrasse. Um sujeito bruto e sem tato, mas um bom sujeito. Cruzei a porta e um jorro de sangue escorreu pela minha boca, fez “pluft” na vasilha de inox que eu segurava abaixo do queixo. Sempre que a torrente de gosto metálico latejava e enchia minha boca de sangue e saliva, eu cuspia lá dentro. A vasilha me acompanhava desde casa.

Ele fechou a porta atrás de mim e me indicou o caminho da cozinha. As luzes estavam acesas e sobre a mesa de jantar havia o que parecia ser um kit de primeiros socorros odontológicos. O mais cruel de tudo foi constatar que uma cafeteira ligada preenchia o cômodo com forte aroma de café. Ao lado dela, a caneca azul-marinha com letras douradas e já desgastadas estampava ODONTOLOGIA POR AMOR (Conselho Regional de Odontologia - Boas Festas - 2019). Eu não tomava café quente há quase três dias e exceto que eu aderisse à  insana hallyu ou aos gostos de jovens alternativos modernos de apreciarem café gelado, aquilo vinha me enlouquecendo.

Dr. Saulo lavou as mãos na pia e colocou um par de luvas cirúrgicas. Ligou a lanterna do celular e me disse para abrir a boca. Meus sentidos tentavam, em vão, ignorar o cheiro da cafeína e a presença da caneca.

— Me fala. O que tu fizeste pra me tirar do sono a uma hora dessas?

Antes que eu respondesse, Dr. Saulo colocou o espelho bucal na minha boca e procurou os pontos abertos no terceiro molar superior esquerdo, já que os pontos abertos do terceiro molar inferior esquerdo eram mais fáceis de serem vistos.

— Ê á-í, ou-ô… e-ent-e… aon-ê-eu.

— De repente nada. O que tu fizeste? Puta que pariu, meu patrão.

— Ô-i ga-ve?

Ele não respondeu. Senti uma agulhada nas duas gengivas. Anestesia. Ele respirou impaciente e pouco tempo depois, utilizou uma tesoura. Então uma pinça. Ou um gancho. Qualquer instrumento de tortuosa tortura carniceira para arrancar a linha. E então outra agulha na ponta de uma pinça. Ou o contrário.

— Usa esse vasilha aí pra cuspir. Mas não cospe com força, senão vai arrebentar toda a tua gengiva. Só deixa o sangue escorrer.

— Im, en-ôr.

A cada movimento de pinças e de pontos, ele me ordenava a cuspir. Eu virava a cabeça para o lado e sentia sangue e saliva escorrerem por entre os lábios, vez ou outra acompanhados de pequenas bolotas de nódulos que mergulhavam na piscina vermelha.

— Porra, amanhã de manhã eu tenho um milhão de broncas pra resolver desde cedo e tô aqui tendo que te costurar de novo porque fizeste merda. E não foi pouca merda — essa última parte foi acompanhada de uma espetada que não me causou dor, somente a sórdida agonia de sentir o vai e vem da linha passando por entre a carne da gengiva. Na cozinha da própria casa, e sem uma das assistentes para auxiliá-lo, Dr. Saulo só contava com três lâmpadas no teto para substituírem o refletor de led da poltrona e os anos de prática para ter a mínima noção de onde costurar, já que não possuía uma terceira mão para segurar o espelho bucal. — Caraaalho. Que porra foi essa? — E arrancou um pedaço curto de linha, mas, pelo tempo que custou, pareceu uma eternidade.

Depois do doutor, foi a minha vez de suspirar.

Dentistas e assistentes de dentistas possuem, talvez, um estranho fascínio (escondido e nebulado pelos anos de prática) de arrancarem conversas de pacientes que mantêm as bocas abertas e violadas pelos procedimentos cirúrgicos. Enquanto os pontos de articulação fonética mais essenciais para a comunicação básica estão obstruídos, paralisados ou anestesiados, dentistas e assistentes de dentistas perguntam onde será o carnaval, quais os planos para a próxima semana santa ou se você é um grande apreciador de comidas regionais, a maioria remosa e proibidas de serem consumidas no pós-cirúrgico. De quebra, tais quais insensíveis entrevistadores de jornais locais sensacionalistas perguntando aos parentes de vítimas fatais de trágicos crimes “como você está se sentindo?”, ainda o incentivam a longos diálogos. E como esses abutres das notícias, dentistas e assistentes de dentistas vão mais fundo: vá, me diga, fale um pouco mais e, se sentir qualquer coisa, discorra sobre. Seu monólogo nos é de extrema importância.

Mas a causa de tantos pontos arrebentados era nobre. Enquanto Dr. Saulo continuava seu ato de tecer a carne, enquanto minha mandíbula escancarada ignorava o cansaço da posição e enquanto o aroma de café preto e recém-passado ondulava minhas narinas adentro como o cheiro do álcool para um frequentador do AA, recordei-me do incidente necessário que me levou até o apartamento do dentista em plena madrugada:

Há menos de dois dias sem os dois-terceiros-molares-esquerdos, eu subia pelas paredes. Imaginava toda a sorte de comidas e de combinações culinárias e assistia a todos os vídeos na internet que me apresentavam receitas que, em qualquer outra ocasião, jamais me saltariam aos olhos. Alimentando-me apenas de comida batida no liquidificador a temperaturas gélidas e sentindo todas as vigorações de meu ânimo se esvaírem com analgésicos, antibióticos e anti-inflamatórios, delirei sobre os tempos passados, quando a dor de uma inflamação de sisos era mais agradável que a recuperação da extração de dois deles. Uma futura vida de dores hipotéticas que poderiam certamente ser compensadas com 7 dias de remédio não parecia tão aterradora quanto a abstinência de alimentação digna e de qualidade. Os hambúrgueres e os bifes acebolados, as pizzas e as doses de café quente (principalmente essas!) diziam-me, com assertiva convicção, que tal situação deplorável, sangrando e dolorido, não valia a pena.

Com a abstinência alimentícia, veio a depressão. O fastio. A repulsa pela dieta infantil. Nem a imagem de sorvetes me apetecia. Seriam, pois, puras distrações para ocultar um estágio mais severo de sofrimento. E foi justo nesse momento de vulnerabilidade que o motivo para os pontos arrebentados chegou: com um alento carinhoso, um abraço calmo e terno, um carinho na cabeça de quem acalma uma criança em birra, ante a perdição da privação. Um abraço acolhedor que encaixou meu rosto (o lado bom dele, o direito) em macio par de volúpias. Um aroma de perfume já em simbiose com a pele, com o suor e com o ardor do espaço entre as gigantescas e côncavas linhas de calmaria. Entre elas, uma tatuagem ainda em tinta forte e significativa, entregando-me uma galáctica mensagem de esperança – e que a força esteja com você. Passado o alento na cabeça, a vontade. O aninhar em espaço seguro, a rede de apoio que um homem devastado por dois buracos na boca precisa para, em paz, descansar e abstrair-se da dor. O deslizar de um par de mãos. Braços, mãos, ancas. Abdome, umbigo, os leves pelos que demoram a crescer, que descem para os entremeios do desejo e umedecem os caminhos das águas. Depois os beijos, os leves beijos sobre os quais ela me alerta:

— Cuidado com a tua boca.

Mas eu ignoro. Meus lábios ignoram. Insistem nos beijos. Insistem no trabalho conjunto com os dedos que, longe dali, desprendem ganchos e derrubam barreiras de cor preta rendada. Com os beijos, o deslizar da língua, o gosto conhecido e acolhedor do lar, que bombeia o fluxo para áreas que instantaneamente ganham vida e enrijecem-se na alegria distrativa do pós-cirúrgico.

— Não, cuidado — ela diz, alerta, mas hesitosa. — Não podes fazer movimento de sucç...

A frase não é dita por inteira. Termina aí, porque o desejo é mais forte que a dor e a ignora. Embora com a boca dolorida e a mandíbula inchada, lentamente beijo-lhe as aréolas e sem notar começo a chupá-las, sorvendo o gosto conhecido e calmo da pele e entre meus incisivos centrais sentindo o mamilo se enrijecer. As mãos que antes derrubaram barreiras invadem outros territórios. Na ponta dos dedos, o roçar da pele aquecida e guardada que agora se abre para dar aos dedos um alento leve, na dobradura que a cada tocar se desvela mais mole, sem resistências, sem atritos, acompanhados de respirações & gemidos & revirar de olhos entrecortados, igualmente sedentos como um decrépito paciente para sanar a própria fome de mastigação. A mastigação da calma. O sabor do desejo, tornando caminhos mais livres e visitas mais rígidas. Dali em diante, são dedos mergulhando. Livres e macios, dobradiços na ponta quando em profundo adentram o local familiar. E então mais carinhos e então mais carícias. E então roupas não mais nos vestem e a lembrança de qualquer cirurgia também não. E então, muito embora falar seja complicado e o inchaço na bochecha prejudique até o movimentar da língua, algumas palavras são ditas:

— É disso que tu gostas, né?

Sim ela responde.

E depois:

— Mas, ei. Me diz, tá tudo bem?

Hum? O quê? Por quê? — Pergunta ela, confusa.

— Por que ficaste assim?

Assim como?

— Assim, tão

molhadinha não é mais a gengiva inflamada e dolorida, mas a dobradura e a sala interna de acolhimento, que pulsa e estremece a cada falar prejudicado que não se priva de sair ao pé do ouvido como incentivo ou provocação, na ânsia de cobrar o que há de melhor.

Em seguida, mudam-se posições, pois, é importante lembrar, que alguém ainda possui pontos na boca e as recomendações médicas restringiam com MÁXIMA ATENÇÃO quaisquer atividades que demandassem esforço físico, levantar pesos ou movimentos bruscos. Mas diante da situação, diante do momento, não são as recomendações médicas que impediriam o movimentar de corpos quando estes ultrapassaram a linha da lógica ou do raciocínio. Diriam os naturalistas na beirada do século XX, em seus romances e em seus folhetins semanais, que o ser humano descende dos animais e que, apesar da era magnânima do Iluminismo, certos instintos e ações irracionais ainda vinham dessa natureza primitiva que não pensa, que não pondera, que não age de maneira adulta e responsável, mas que se entrega à máxima lei da natureza, que sussurra entre suspiros me fode, me fode assim, já à altura do segundo espasmos ou no terceiro tremer de pernas, consecutivos, aqueles que, desta vez e ao contrário dos três anteriores, agachados e com mãos em apoio em ombros, libera a tensão dos músculos internos e se deixa entregar a uma reação que pressiona, dilata e relaxa em um caldo quente e incessante, molhando virilhas e lençóis e deixando uma mancha invisível  num colchão que já conhece tantas outras manchas invisíveis ali igualmente despejadas de outras formas que não essa, banhados pela mesma fonte.

E enquanto ela assim reage, sem entender que reação foi aquela do próprio corpo, como se nunca houvesse passado pelo mesmo, um traço de racionalidade lhe toma a mente. Um assalto instantâneo, momentâneo, passageiro:

— Não faz força, porra.

Mas é tarde.

Ela agacha e levanta. Eu inclino o quadril para cima, no ângulo específico em que consigo penetrar e, ao mesmo tempo, oscular as dobraduras mágicas, excitando tanto o lado de dentro quanto o de fora.

Ela geme.

Me aperta os ombros.

Me aperta as laterais dos braços.

Afunda as unhas e com raiva racional, conhecedora de meus detalhes, diz:

Não tranca o dente.

— Agora fodeu.

Sim, eu sei — Ela sorri, vendo na tragédia do estrago cirúrgico um motivo para piada oportuna. — E já tem um tempo.

— Tem sim.

Inclino, novamente, o quadril. Prolongo o movimento que aos dois pontos toca e, em seguida, pelos dois minutos próximos ou pela próxima meia-hora (o tempo era, então, uma abstração irrelevante) ela escorre de novo por entre minhas pernas, aquecida e delirante, ofegante acima de tudo e com pernas bambas, mas insistentes na conquista da exaustão, entregando-me bebida muito mais prazerosa e estimulante que os melhores grãos colhidos do gênero das Coffea.

À essa altura, eu não sinto, eu não ligo, eu pouco me fodo, mas o que penso ser a saliva descendo pela minha garganta já é um amontoado de sangue e de dor aguda, que irradia pelo maxilar e não desiste até que quem escorra seja eu, por outro ponto e em um lugar mais quente e pulsante.

— Pronto — Disse o Dr. Saulo, arrancando-me de boas lembranças. Ele já lavava as mãos na pia. Tão puto parecia estar que sequer me direcionava o olhar.

Cuspi outro amontoado de sangue na vasilha.

— Áh u-do ér-to?

— Certo? — Ele riu, incrédulo. Pareceu escutar a maior estupidez da face da Terra. — Troquei os pontos que tu arrebentaste e vou te passar outra receita.

Ele sentou na mesa e puxou uma caderneta de receituário.

— Tu vais manter o antibiótico e o analgésico. Aliás, deverias tomar a dipirona de 6h em 6h só se caso tivesses dor, mas agora — e ele sorriu, sádico —, agora com toda a certeza vais precisar tomar de 6h em 6h. Suspende a nimesulida. Vais tomar agora a Dexametasona. Não seria o ideal tomares por tanto tempo, mas como fizeste um favor de foder com a tua cirurgia, então vais tomar esse. Em uma semana volta no meu consultório pra gente ver o que faz — ele me entregou a receita. — Cospe o que tiveres pra cuspir na tua vasilha. Deixei uma gase na tua boca, tira quando chegares em casa e tenta ver se não se mata mais, porra.

— Ô-i-ga-ú, ou-ôr.

Com mais dificuldade moral do que corporal, tirei duas notas de cem reais da carteira e entreguei ao médico. Ele não agradeceu.

— Outra coisa — exigiu ele, inclinando-se, curioso.

 — Im?

— O que tu fizeste?

— Uh-ê?

— O que tu fizeste pra arrebentar a merda desses pontos?

Respirei fundo. Meus maxilares doíam e a anestesia tornava a lateral esquerda do meu rosto em um balão de água cuja superfície eu sabia pertencer ao meu corpo, mas ausente de tato ou de pertencimento.

- Á-da de-ais – respondi, dando de ombros.   

Dr. Saulo me olhou por algum tempo, cínico e puto.

— Se tu arrebentares essa porra de novo, nem volta mais aqui ou no meu consultório. Tá ouvindo?

— Im, ên-ôr.

Ele olhou para o relógio no celular e apontou a direção da saída.

— Ótimo. Dá o fora daqui. 


2 de janeiro de 2026

Obrigada pelo veneno

 



 

Sister, I'm not much a poet, but a criminal

And you never had a chance

 

Tenho pensado sobre o que meus ídolos caídos, tortos e decadentes um dia escreveram ou por aí insistem em cantar. Do jovem fúnebre Álvares de Azevedo, por exemplo, relembro os célebres versos:

 

Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

 

Não de hoje assalta-me um pensamento constante, vez ou outra retorna, dá um passeio zombeteiro, e não da maneira triste ou crônica de outrora, mas de forma lógica e inevitável: penso sobre o meu funeral, nos ritos católicos que, embora eu desaprove, minha família fará questão de praticar: os cantos, as rezas, as palavras de carinho, como se eu houvesse sequer sido merecedor de tais benevolências ou nelas enxergasse alguma espiritual utilidade.

 

Não fui poeta.

Não sonhei.

E quando na vida amei,

amei e amo de todo errado, como uma rosa mais tomada por espinhos do que por pétalas: com abraços de espetos, perfurando e colhendo antipatias, desafetos e mágoas.

Lera Lynn cantou waking up is harder than it seems ao passo que Warren Zevon, décadas antes, também proferiu algo parecido: You wake up every day and you start to cry.

Vidas atrás, uma fiel amiga a quem perdi por pura consequência de minhas destruições, talvez (muito talvez) encantada pela ilusão que em mim enxergava, comparou-me à canção de Cássia Eller: “eu sou poeta e não aprendi a amar”.

Ora, mas que infernos, eu não sou poeta.  No máximo, e nem dos melhores, um prosista. Considero-me mais isso do que prosador. Prosador é respeitoso. Já o prosista tende ao escárnio do ofício, mira a piada do tema. O prosista beija o pejorativo, porque o é em essência, bem como, em essência, não sou belo nem admirável nem encantador nem fofo nem todas essas falácias das quais as pessoas insistem em acreditar, mesmo eu não querendo sê-las na mais vil intenção desmedida.

Só quem sabe disso – as detentoras da verdade –, são as pessoas a quem esmigalhei: amizades perdidas em separações de bens, amizades vilipendiadas na imaturidade das escolhas, sujeitos hipócritas que cruzaram meu caminho em funerais, senhorinhas de sangue que a estranhos messias escolheram seguir, fiéis ouvintes das amantes em quem pisei e, acima de tudo, estas últimas, as próprias amantes. São essas as pessoas detentoras da minha verdade, aquelas que, também, em torno delas, séculos atrás me alcunharam de homem horrendo & macho escroto ou que atualmente, e bem apropriadamente, enxergam em mim um Jurandir – embora, em outras instâncias, doar afeto a aspiradores de pó e conservar carícias e favores secretos a viciados fardados não seja digno de concedê-los tais honrarias... Pois, ora, vejam, de novo, constatem: nocivo acima de tudo. Guiado pela raiva, pela inveja e pelos preconceitos. Todas as pessoas que realmente me conheceram o sabem bem. Aquelas que ousam ainda me admirar possuem apenas a sorte da ilusão ou do não confronto direto, caso contrário encontrariam o homem-médio-nada-além-do-comum que aqui habita. 

 

You're evil as the demons that haunt you

forgetting what it was that they taught you

and now there's no one left to stop you

or to catch you when you drop.

 

E neste vislumbre passageiro, o de imaginar minha morte e as poucas pessoas que a meu corpo decrépito em vida (e finalmente em morte) talvez velarão, desconfio que não sejam as boas lembranças que ficarão, mas as péssimas: a do sujeito descontrolado, instável e péssimo com palavras faladas ou sentimentos ditos; as de mais um Jurandir de única faceta, não de camadas, não de outros vieses, mas um fácil, um único, a moeda de um impostor cujas faces possuem uma só, e que aos montes cai das mangueiras desta cidade e que perambula pelas esquinas, desprovido de bons atributos ou incapaz de salientá-los, pois

as péssimas coisas,

as coisas deploráveis,

as sucessivas & repetitivas escolhas,

as mesmas ações de novo & de novo,

são essas as verdadeiras “nuances” que compõem um homem-médio, um Jurandir. Bem recentemente soprou-me uma pessoa próxima que ainda, com unhas e dentes de desespero materno, luta pelo seu próprio homem-menos-pior: “não existem homens melhores, existem apenas homens menos piores”. E para fundir todas estas citações, quase como se esta fosse uma constatação acadêmica da análise psicológica da perdição dos Jurandis, muito sabiamente disse o vil Xaro Xhoan Daxos: “Um homem é aquilo o que dizem dele”. E sobre este homem, eu mesmo vos digo: cuidado e tomem distância. A única versão dele é a versão verdadeira, e a versão verdadeira ecoa em poucas bocas e é negada a iludidos ouvidos: ele não passa de uns bons punhados de covardia e de vastas ofertas de ironias (é só o que tem).

E se alguma camada nele habita, então é esta:

Não é por mal.

Nunca foi.

Estas palavras só existem porque, ora, há incômodo, há discordância, porém pouca força para discordar e muita impaciência para provar qualquer ponto contrário, sobretudo aqueles sussurrados por bocas que sempre o suportaram com elegante e terna dissimulação. E porque, acima de tudo, passei a acreditar nas histórias que sobre mim são contadas, sobretudo aquelas narradas por lábios queridos que já se encontram calejados e desgastados pela bile na minha saliva e pela peçonha de minh’alma.

Não, irmã. Eu não sou um poeta.

Eu sou somente aquilo que dizem sobre mim.

 

 

 

1 de dezembro de 2025

Um conto belenense


 


Paulo Victor Gomes Feitosa nasceu a 27 de abril de 1989. Taurino, com ascendente em Libra e Lua em Aquário, era pardo, tinha 1,79m de altura e, à altura desta narrativa, 83 kg. Torcia para o Paysandu Sport Club (o que, de certa maneira, afirmarão alguns, justificará suas futuras ações e o teor de sua viril índole) e nunca saiu do Estado do Pará – a propósito, e por curiosidade, o mais longe que pôs os pés da cidade natal foi em Marabá, durante tenra infância, para o velório do avô paterno. PV, como era conhecido pelo círculo mais próximo de amigos, de colegas de trabalho, de ex-companheiros de escola e pelas 5 ex-namoradas, era detentor de muitos detalhes e de quase infinitas particularidades, assim como qualquer pessoa neste mundo. Aliás, quando refletia sobre o assunto (do quanto as pessoas são uma miríade infinita de particularidades), um verso específico de Raul Seixas vinha-lhe em mente: cada um de nós é um universo. 

Por questão de coincidentes curiosidades que nada contribuirão à narrativa, o universo-Paulo-Victor quase foi registrado como Ernesto Gomes Feitosa, porém foi o pai quem decidiu pelo nome do filho no instante de registro no cartório Condurú da Avenida Almirante Barroso, a contragosto da mãe, que estava em casa julgando que o marido obedeceria aos desejos e planejamentos dela; em homenagem ao homônimo goleiro “Paulo Victor” Barbosa de Carvalho, que jogou no Fluminense entre as décadas de 1980 e 1990, tricampeão pelo tricolor nos anos de 83, 84 e 85, e que também nasceu em Belém do Pará, assim o quase-universo-Ernesto foi batizado de Paulo Victor. Ser amante de futebol, da mesma forma que o pai, faz de PV um sujeito ímpar, igualmente ímpar como a maioria dos 98,5 milhões de cidadãos ímpares do gênero masculino a atualmente habitarem o Brasil.

Todos esses são detalhes que poucos conhecem. Deles, os mais importantes são de conhecimento de instituições governamentais. Outros, apenas de familiares. A parte mais pessoal deles, compartilhados entre o círculo mais próximo de amigos, de colegas de trabalho, de ex-companheiros de escola e de 5 ex-namoradas. A atual namorada, Maria Clara, era, atualmente, a que mais deveria conhecer PV em detalhes. Deveria. Porque na prática, bem, na prática esta narrativa sequer é sobre Paulo Victor ou sobre Maria Clara, mas sobre a garota que mais empenhadamente conhece Paulo Victor nesta cidade: Mia Gurjão, melhor amiga de Maria Clara. 

O interessante em círculos de amizades na cidade das mangueiras é que nenhum detalhe passa despercebido de ouvidos e de bocas alheias. As intimidades, as brigas, os desentendimentos e as rotinas de um casal, quando não expostas publicamente em redes sociais, são amplamente difundidas entre amigos. Mia Gurjão, por exemplo, conhecia todos os defeitos de PV, pois era ela a quem Maria Clara desabafava quando estava irada, frustrada ou puta. Não são as mães, as irmãs, as amantes, as terapeutas ou as entidades protetoras de um homem a melhor conhecê-lo. São as melhores amigas de suas companheiras. 

Aos ouvidos de Mia Gurjão chegavam os desafogos, as denúncias, as desavenças e toda a sorte de coisas que irritavam Maria Clara, ímpar moça de frequentes vestidos floridos, sandalinhas rasteiras e pele de alvo porcelanato, profusa amante de pagodes em fins de semana e que se deparara com a sorte de namorar sujeitos ímpares como PV. O mais curioso, entretanto, é que, por conta das inúmeras confissões, a melhor amiga conhecia apenas uma versão de Paulo Victor, versão essa que era compartilhada com as demais amigas em comum das moças, geralmente no grupo particular de Whatsapp (PLLP, sigla interna para “Pretty Little Liars Paraenses”), e que sempre retorciam os bicos, digitavam indiretas secretas pelo Bluebird.com ou fingiam simpatia com majestosa teatralidade quando estavam perto do rapaz. 

Mia Gurjão, aliás, era o último tipo.

Um dia, no entanto, as coisas mudaram. Foi em uma mesa de bar enquanto confraternizavam a progressão de carreira de Maria Clara na empresa de advocacia do tio. Ela e PV não andavam brigando por aqueles tempos, pelo contrário. Após 4 doses de caipirinha, a moça narrou o último final de semana do casal em Marudá. Contou-lhes todas as peripécias sexuais com a mais sórdida profundeza de detalhes. Porém, mais que isso, tocou num assunto que nunca havia antes tocado, a respeito dos 16cm perfeitamente retos e idealmente espessos de Paulo Victor, e sobre como ele era um homem mais do que higiênico, veiúdo, cheiroso e entalhado como se por um Bernini no mais artístico dos mármores, sobretudo quando rijo, só que não branco, mas moreno, a quase cor do pecado que brilhava, lustrosa, quando babado pela saliva dela.

Revelou a todas as meninas que ele era detentor do segredo que parecia intocável e pouco sabido pela maioria dos homens: sobre como o vai e vem, o entra e sai e o tira e põe não é o truque-principal, não o carro-chefe, tampouco o único movimento a ser feito, mas sim o gingado lateral, o mover horizontal de quadril quando os 16cm já estavam dentro dela, a leve reboladinha que PV sempre fora expert em dar. Muito além disso, revelou, sem perceber, o formato da língua do parceiro, a forma como a ponta era anatomicamente projetada para proporcioná-la prazer e como possuía um movimento específico capaz de alcançar o ponto no corpo feminino que a maioria dos homens só parecia descobrir a existência depois dos 25 anos de idade ou da 101ª transa, quando descobria. Narrou-lhes também a forma como Paulo Victor introduzia nela os dedos médio e anelar da mão direita, enquanto acariciava-lhe o ponto desconhecido pela cultura masculina, ou quando, extremamente molhada e já dilatada, ele conseguia também introduzir o dedo indicador como complemento. Não só isso, como ele também movimentava os dedos em forma de gancho, tocando-lhe a parede interior do órgão e pouco custando fazê-la explodir e esguichar e todos os demais verbos sensoriais começados com a letra E de extrema eclosão de enérgica euforia. 

Naquela noite, as garotas beberam um pouco mais e se divertiram mais ainda. Reclamaram sobre a vida e praguejaram os ex-namorados que agora estavam casados levando vidas melhores, com empregos melhores e em casas melhores, porém com mulheres “feias” e “gordas” que sequer eram merecedoras de comparações como “mais feias que a gente”. Apesar da fama já recorrente entre as amigas, e como todas as garotas já conheciam PV, algo substancialmente diferente ocorreu naquela mesa de bar. Entre todas elas, sim, mas principalmente com Mia Gurjão que, sem se dar conta – levada pela sutil semente que é plantada nos confins das intenções, na sombria área da psique a quem os especialistas chamam de desejo latente –, lançou mais duas ou três perguntas a respeito do desempenho de PV. O restante das meninas também teria notado, e muito teriam reclamado ou a criticado, caso não estivessem igualmente interessadas nas respostas. 

Incomodada, mas sem saber o porquê, Maria Clara respondeu às perguntas. Só se deu conta do problema causado naquela noite meses depois, quando a paranoia já havia alimentado desconfianças e as mesmas desconfianças trouxeram evidências:

os comentários de Mia Gurjão nas fotos de PV no Instagram, 

o número de curtidas que ela começou a dar nos stories dele;

a frequência com que Mia exigia mais encontros entre amigos,

churrascos,

rolês num Açaí Biruta,

BalacoolBar,

Vitrine Lounge, 

Manga Jambú,

resenhas em bares durante qualquer RExPA

ou a maneira como, ante quaisquer reclamações sobre PV feitas por Maria Clara, Mia fazia questão de soltar um “meu casal favorito” em tom falsamente irônico, sugerindo o término como saída viável.

Curiosamente, Mia Gurjão criou mais afeto pelo Paysandu Sport Club e até sobre a história do time começou a perguntar para PV, na frente da amiga, com um tom levemente inocente de quem está genuinamente em busca de aprendizado profundo. Certa vez, até pediu a ajuda de Maria Clara num assunto jurídico e, mesmo sabendo que ela estava assistindo a uma pelada de Paulo Victor com os amigos, fez questão de ir, pagar a entrada e tratar, meramente, de um assunto banal sobre uma dívida banal de um banco digital banal. Naquela tarde, PV fez um golaço ao cobrar uma “falta da entrada da grande área”, termos esses que Mia havia aprendido com ele.

Hoje, graças a Maria Clara, Mia Gurjão conhece muitos detalhes sobre Paulo Victor. Depois de prolífica conversa no Instagram com a amiga da namorada (sem que esta soubesse), o sujeito perguntou à mãe o horário exato do próprio nascimento e foi assim que Mia conheceu algo que ainda não sabia a respeito dele: PV também tinha Vênus em Escorpião. Não que tais configurações estelares importassem tanto para Mia, não eram os atributos astrológicos que ela desejava vislumbrar. Implorou, entretanto, que o rapaz ocultasse tal conversa da namorada, por razões meramente de horóscopo, já que Maria Clara, ora, era canceriana e não lidava muito bem com ciúmes. PV não compreendeu porra alguma daquela conversa, apenas o que lhe interessava: as progressivas interações por parte de Mia e o que isso realmente significava e onde isso de fato os levaria. PV, claro, como um sujeito ímpar e que tinha por honra atender aos instintos mais primitivos de sua criação e de sua natureza, muito ansiava por descobrir a textura, o calor e o acolhimento de tão pretendido lugar.

Das particularidades infinitas que orbitavam o  universo-Paulo-Victor, a inteligência em campo era a mais admirável. Sabido da inicial desconfiança da namorada, ao ser questionado sobre as investidas da amiga, PV fez-se de bobo. Estupefato, até. Mia Gurjão?! Mia teria, decerto, mais motivos para detestá-lo do que para minimamente notá-lo. Paulo Victor, como um hábil centroavante, utilizou a jogada a seu favor e listou todos os erros que até então cometera naquele relacionamento, enumerando-os e chutando os prováveis vacilos que certamente chegaram aos ouvidos de Mia. 

— Por exemplo — começou ele, já antevendo, desde o meio campo, a brecha para a jogada. — O que ela disse sobre o mês de Julho em Mosqueiro? 

— Quando tu deste carona pra tua ex?! Que merda isso tem a ver, Paulo Victor?

— Tem tudo a ver, meu amor. Contaste essa história pra Mia? O que ela disse sobre isso?

— Ela ficou puta. Ela me apoiou, pelo amor de Deus, né? Que merda. Por que me lembraste disso?

— Depois disso, ela nunca mais olhou na minha cara com qualquer sinceridade. A mina só me suporta. Achas mesmo que ela sentiria qualquer coisa por mim?

Maria Clara ficou calada. Nunca chegou a mencionar sobre a mesa de bar ao namorado, não daria qualquer pingo de autoestima nem a noção da própria fama que ele agora possuía na imaginação das pretty little liars paraenses. 

— Tu bem sabes que a Mia não gosta de mim — reafirmou ele. — A gente se suporta por tua causa.

— E todas essas mensagens? — Apontou ela para a caixa de entrada no Instagram.

— Eu não faço ideia — ele deu de ombros, mas suspirou ao final e preparou-se para finalmente se aproximar da grande área. — Mas bem que achei estranho. Tu achas que ela pode estar, realmente, interessada em mim?

— Acho — bufou, tola, a namorada.

— Em mim?!

— Sim!

O jogador então avistou o espaço aberto entre os zagueiros. Como Kaká contra o Manchester United na Liga dos Campões de 2006/2007, costurou-os com maestria:

— Eu não acredito nessa possibilidade, mas… — vencidos os zagueiros, havia apenas as duas imensas traves, a rede e um goleiro incapaz de bloquear o espaço descoberto no canto direito. 

A abertura infalível, o espaço desejado.

O centroavante respirou fundo.

— Já que você tá dizendo, eu vou acreditar em ti, amor — prometeu PV.

Ele impulsionou os músculos da perna direita para trás.

— Vais fazer isso por mim? — Perguntou Maria Clara, desarmada e esperançosa, alegre por o namorado acreditar nela e não tomá-la por maluca.

— Não vou dar bola alguma pra ela — o centroavante deu uma última checada no espaço desprotegido. 

— Por favor.

— Vou dar uma afastada, tá? — Com técnica e maestria, ele chutou a bola.

— Jura?

— Juro.

— Obrigada.

E fez o gol. 

Maria Clara relaxou a vigília sobre o centroavante. Nele, confiava com unhas e dentes e teve certeza de que as conversas pelo Instagram cessaram, embora, infelizmente, não houvesse se atentado aos demais estratagemas disponíveis nas lojas de aplicativo ou no empenho de um exímio jogador pessoalmente ensinar uma torcedora curiosa a respeito de regras ou de prolíficas jogadas. 

Outro dia, Maria Clara compartilhou com uma das Pretty Little Liars as desconfianças que vinha alimentando sobre Mia Gurjão, mas de maneira muito educada a ouvinte fez questão de apaziguar a paranoia que vinha corroendo a amiga há meses. 

— Olha, mana, tens certeza disso? — Perguntou, com leve desdém, a equivalente Emily Fields paraense.

— Certeza? Claro que não. Mas faz sentido?

— Por que tu achas que faria?

— Depois daquela conversa que a gente teve.

— Sobre o tamanho do pau do Paulo Victor e como ele te faz ou fez gozar cinco vezes seguidas?

Se Maria Clara fosse um tiquinho mais esperta, ou intuitiva, teria notado o tom imaginativo na voz da amiga. 

— É… achas que ela… sabe… Ficou…?

— Interessada, mana? A Mia? 

— Sim. 

A amiga riu da mesma forma com que Mia Gurjão vinha estranhamente rindo nos últimos meses.

— Amiga, eu sei que tu estavas muito empolgada naquele dia, mas a Mia, tu e eu já tivemos coisas bem melhores que o Paulo Victor. Me desculpa, eu sei que é o teu namorado, mas assim, mana, não viaja. Sinceramente, e a gente já te disse: o PV nem é tudo isso.

E se Maria Clara fosse um tiquinho mais esperta, ou intuitiva, teria notado o tom de inveja na voz da Pretty Little Liar paraense.

Inveja não dela, é claro.

Não de Maria Clara.

Mas de Mia Gurjão,

que estava a uma sentada de conhecer os detalhes mais proeminentes de Paulo Victor Gomes Feitosa.



 

22 de outubro de 2025

noxius





A característica de ser nocivo, nestes termos e nestas específicas circunstâncias, parece-me quase, quase congênita. É como o semear de uma semente ou a iminência do passado, que bate à porta todas as noites de sábado, ultimamente sempre aos sábados. Porém não é característica hematológica, não está correndo nestas veias como uma sina latente ou como um determinismo grego, é construção, tijolo sobre tijolo, ato sobre ato, vilipendiados todos através dos anos, cravados nesta demora de crescer, nesta demora de enxergar, a mesma demora com que o carboidrato corrói as córneas, retinas e todos os demais órgãos que te fazem não enxergar, que te fazem não ver, que te fazem abrir apenas o par de primeiras pálpebras, jamais o segundo.

É a permanência desse ar nocivo, desse ar atrasado, dessa demora de ver o tempo passar por estares preso ao presente, por não sonhares ou por não planejares. Por que o presente é confortável? Por que não percebeste a areia na ampulheta escorrer? Ou por que não notas quando esse teor nocivo te enche a boca, desliza pela língua e doma as ações? Ou as desações. O quê, diga-me, o que exatamente te faz assim? A criação? A memória de nunca ter pertencido ou estado em uma época boa da vida, por que em todas as épocas ou te arrependes ou tens vergonha do que foste? A criança mimada, tola, mal-criada por criação que não te cabia julgar ou perceber? A adolescência rebelde, igualmente tola e mal-criada, egoísta-sempre-egoísta e habitante de uma dor que nem deveria ser chamada de dor, tudo porque era uma dor patética e desprezível? Ou o início da fase adulta, uma soma cumulativa-destrutiva das duas primeiras, nociva sobretudo nas palavras e nos atos e na capacidade de expirar veneno & brasa & fuligem & hipocrisia? Ou foram os falsos privilégios sobre os quais a semente germinou, cresceu e agora precisa ser podada ao menos para não se enraizar em paredes e em estruturas de casas alheias? Em qual destes momentos a tua nocividade não proposital, mas igualmente demolidora, vai se apaziguar, desaparecer e dar origem a uma nova pessoa, àquela que precisam que sejas, àquela que anseiam que exista, àquela que parece ser a única, a única a não causar sempre&sempre tanto estrago, lágrimas e corrosão de sonhares?

 

Inclusive, ora, este próprio questionamento é fruto e será o semear de mais uma dessas tragédias.

 

Em que momento estas veias corrosivas,

arenosas &

venenosas deixarão de te assolar, correr por ti &

finalmente

te abandonar?

Até quando?