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Valham-me,
deuses. Sobre esta matéria conheço bem: o ego do artista. Por tempos e quase
sempre, parte de minhas acusações foi, em primeira instância, clara tentativa
de mirar o espelho, de apontar o dedo em riste a mim mesmo. Embora, claro, em
segunda instância, meus alvos tenham recebido em maestria tudo aquilo que
detectei de horrendo em mim, pois foram eles a triplicar as apostas e pôr em
prática aquilo que nem eu conjecturava fazer. Meu foco sempre foi destinado aos
colegas de pena que usam de palavras para mergulharem entre esbeltas pernas – o
poço da glória. Portanto, minha guerra sempre foi aos ventos, raramente com
alvos claros, dificilmente a nomes que seriam atingidos, pois a propagação de
minhas palavras nunca cobiçou o estrelato ou a fama; almejou, senão, apenas o
alarido da confissão, o exorcismo da alma. Que a minhas palavras venham os
interessados. Se vierem os alvos, magnífico! Seria o brinde, mas fracassado
como sou, nunca fui dado a esperanças. Só o que entendo é do ego dos
escritores, não dos pintores, não dos artistas plásticos – embora, hoje, eu
venha aqui me debruçar sobre ele.
Pois,
vejam: dos piores que conheci e dos melhores em serem vis e a quem dedico
minhas linhas, tudo o que noto é a sublime arte de mergulhar no melaço de
poços. Mesmo aqueles que não dedicam suas artes à escrita, mas ao intelecto da
apreciação de arte, até neles é notório encontrar artimanha escrachada. Em um
conto de autoria minha nunca publicado, contido em meu livro há muito esquecido
por editora que me aceitou, porém jamais me endereçou contrato, chamado “Manual
básico de como conquistar uma escritora (rsrsrs)”, Noemí Navarro é uma
autora paraense em ascensão que dedica uma manhã, ao lado do marido, para ler
comentários a respeito de seu livro num site que, talvez, até seja o da Amazon.
O teor das resenhas curtas foi inteiramente retirado de um caso real, uma
pesquisa de campo em que coletei as opiniões de homens a respeito de uma
antologia de uma escritora brasileira cujos textos falavam sobre muito sexo, muita
putaria e alguns “paus babando de tesão”. Percebam: esperar isso de um
Rubem Fonseca, de um Bukowski ou de qualquer lixo paraense com blog
referenciando a segunda geração romântica brasileira é até compreensível.
Mas
de uma mulher?
De
uma Pilar Quintana?
Hilda
Hilst?
Natalia
Nodari?
Escritoras
fazerem do corpo uma via crucis?
Absurdo!
Em
meu conto, todos os comentários lidos por Noemí têm a plateia e o apoio de seu
marido, fazendo-o, ambos, com deboche, pois todas aquelas opiniões muito
ponderadas e sagazes são tecidas por homens que julgam que Noemí escreveu um
livro comunicando, ao mundo, que vive e age da mesma forma que seus
personagens: com depravação e ninfomania. Para os leitores homens de sua obra,
cada texto de Noemí não passa de uma autobiografia escrachada ou de um claro
convite ao primeiro que amaciá-la com palavras bem rebuscadas e gramaticalmente
arquitetadas. O marido da personagem, por outro lado, conquistou-a por ser o
oposto disso: não faz arranjo de sentenças nem estampa intelectualidade em
redes sociais; não assiste a filmes por construção de mundo ou por vaidade de
moda, ele o faz porque gosta – princípio banalmente simples e primeiro da arte:
ela precisa atingir o abismo desconhecido, local onde a técnica não alcança, o
centro poético de Lisnianskaya, o não-lugar que os vampiros de Anne Rice jamais
seriam capazes de atingir, pois criaturas perfeitas como o são, dominam somente
a técnica, mas jamais a substância singular do talento.
Noemi
Navarro ama o marido pela razão que há muito foi esquecida por aqueles que se
perdem nas torres de marfim da arte. Ela não o trocaria pelo mais rebuscado dos
doutores em literatura, porque não há performance no amor que vem dele, muito
menos na exaustão de conquistá-la com elogios enfadonhos, resenhas profundas ou
cinismos superficiais. Conquistou-a sem ego. E do ego dos escritores e dos
leitores que performam intelectualismo – com o devido sufixo patológico
–, disso eu sei. Mas do ego dos artistas plásticos? Bom, aventuro-me aqui pela
primeira vez. Pois rinhas entre artistas, ah, isso conhecemos bem. Machado de
Assis travou inimizades de Eça de Queiroz até Lima Barreto, mas todas elas
foram travadas na arte, como o faço agora:
evoque
seus demônios por meio de suas linhas,
por
meio de seus traços,
grite-os
desta
maneira, da melhor que você sabe, mas não o faça a nível pessoal ou
profissional, acusando seus inimigos (ou quem você julga inimigos) de crimes
horrendos, inverossímeis acusações como
(neste
momento, o texto se torna um diálogo talvez ocorrido pessoalmente, talvez
ocorrido por mensagens de texto, em suma verídicos, mas em discurso direto para
o bem da dramatização destas linhas):
— “De novo essa sapatão aqui?” – relatou a interlocutora.
— O quê? É sério isso??
— Muito sério.
— Ela disse isso?
— Sim. Ela chegou com o Alisson e relatou que tu olhaste pra ela e disseste “de
novo essa sapatão aqui?”. Ele trouxe a menina até mim e ela repetiu a acusação.
Disse que era a segunda vez que visitava o espaço e que tu fizeste esse
comentário perto dela. E fez questão de dizer que olhou pro nome no teu crachá:
“FELIPE SANTIAGO”.
— Puta merda!
— [risadas incrédulas] Tô te falando. Nem eu nem o Alisson acreditamos nisso. A
história correu e ninguém acreditou. Achei melhor te contar só agora depois do
fim do nosso contrato.
(mais
exatamente) Três dias atrás, descobri quem fez tal acusação que me perseguiu o
fundo da mente por quatro meses. Quatro meses em que me descabelei em
paranoias, julgando que, por um momento sequer, eu houvesse comentado qualquer
coisa que fonologicamente pudesse ser confundida com tamanha atrocidade
criminosa: de-novo-essa-sapatão-aqui? de-novo-com-o-sapatão-na-mão-aqui?
de-novo-aceita-cartão-aqui? de-novo-com-carão-por-aqui?; quatro meses
sentindo-me um lixo porque alguém por aí, com meu nome na ponta da língua,
julga que eu disse tal obscenidade. Quatro meses imaginando quem, em sã
consciência em Belém do Pará, poderia me odiar tanto a ponto de inventar insano
absurdo.
E
por quê?
A
resposta veio em uma mesa de bar, num comentário despretensioso de alguém que detinha
a informação, mas não sabia que ela faria qualquer sentido para mim. E tal
situação me traz aqui: ao ego dos artistas, ao ego da perda de batalhas que
foram travadas bem antes de minha chegada, batalhas que foram perdidas pela
própria acusadora para (que ironia) a própria acusadora. Quando, ao perder a
mulher que julgava ser a mulher de sua vida, no terror da impossibilidade, cercou-a
de todas as formas e ameaçou até suicídio. O que é engraçado, não o ato em si,
é claro, pois como emo convicto e amante do ultrarromantismo brasileiro, seria hipocrisia
afirmar que nunca flertei ou que nunca tentei pôr a ideia em prática. Mas o que
há de cômico nesta história é que, há mais ou menos 7 ou 8 anos, publiquei
neste blog a primeira versão do conto “Quando setembro acabar”, cuja
narrativa aborda a reunião de três amigos que comemoram o fim (leia-se vitória)
das reuniões terapêuticas em grupo. Dois deles, ex-suicidas – um por romantismo
autodestrutivo, outro por não ter a sexualidade aceita pela família e dela sofrer abusos físicos. O personagem principal, chamado
“Sem-Nome”, reflete sobre o quanto não existe honra em usar o suicídio como
mera ameaça afetiva após um término ou negativa de relacionamento, de modo que
sua tentativa não ocorreu como forma de ameaça, mas como autopunição silenciosa
e covardia de lidar com as consequências dos horrores que infringiu à
ex-namorada. Não há honra em fazê-lo, pois o assunto não deveria ser tratado
como moeda de troca ou de ameaça, afinal só aqueles que tentaram e estiveram na
margem do ato sabem a agonia pela qual passaram. O conto, em si, foi escrito
para que tal diálogo existisse: se a dor é genuína, então o ato é impetuoso; se
a dor é usada como manipulação, então ato não acontece, é coação.
Não
há honra em tentar,
não
há honra em fazer disso ameaça sentimental,
não
há orgulho em valer-se de pautas importantes
esvaziando-as
a um bel prazer vilanesco,
tampouco
há honra em cultivar sentimentos de vingança contra aqueles cujo único erro ou
afronta foi chegar depois de sua partida ao coração que tanto, até hoje,
claramente, pela acusadora é estimado e cobiçado. Não há honra em cercá-la, de
longe, aproximando-se de entes queridos e tentando sempre se manter à espreita,
deixando até mesmo, na primeira foto da rede social, um desenho em homenagem
àquela que até hoje ama, mesmo aos olhos do mundo fazer ou ter feito morada em outros
corações. Não há honra em demonstrações que não sejam pelo amor, não há honra
em lembranças estampadas não pela saudade, mas pela obsessão, pelo claro sinal de
que ainda estou aqui, obsidente, birrenta como um homem maluco à espreita da
amada que não aceitou perder.
Assim
como estes tantos porcos escritores que usam a escrita para comerem mulheres,
não há muita honra em fazer arte para sinalizar presença obsessora. Faça arte
para atacar com rigor, não para cercar com mentiras. E se for atacar, não o
faça com falsas acusações de crimes.
E
se ainda quiser atacar,
faça
arte para o expurgo de suas dores,
faça
arte para o exorcismo de suas derrotas.
Grite
com talento.
Faça.
Sem
mentiras.
Sem
artimanhas.
Sem
atos sujos e ardilosos.
Faça.
Ou
nem tente.



