2 de agosto de 2026

Saiu no Diário Oficial

 

 

Nesta cidade pequena de minúsculos fatos e pequeníssimas causas, qualquer notícia oficial é bomba a correr por teclados e vozes. Um sussurro dado a oeste é ouvido com retumbância a leste, já os agentes do norte são os protagonistas de antigas historietas do sul, enquanto os do sul ganham ao norte a alcunha de persona non grata. Nesta pequena cidade de atos minúsculos e banais fatos históricos, esquecida há muito tempo pelos grandes centros urbanos e cuspida dez vezes mais por eles, qualquer novidade há de ser proclamada com enérgico estardalhaço.

Pensando nisso, os mais velhos poetas regionais desta cidade (que nunca seriam chamados de nacionais, pois o cânone brasileiro jamais os consideraria merecedores de tamanha honra) criaram o Saiu no Diário Oficial. A princípio, um periódico dedicado a críticas políticas à oligarquia dos Carvalho ou ao poder avassalador do jornalismo dos Romana. Entretanto, o sucesso foi tamanho que com as décadas passou-se a divulgar vagas de emprego, anúncios de emplastos e até mesmo uma republicação do que de fato havia saído no verdadeiro Diário Oficial, acordo feito com as autoridades jurídicas estaduais que há época muito incomodadas ficaram com a anedota no título. De repente, o Saiu no Diário Oficial tornou-se o quarto mais popular jornal impresso da cidade, perdendo apenas para os veículos de seus concorrentes: um dos Carvalho e dois dos Romana. Afinal, como os grandes centros urbanos, esta pequena cidade de minúsculos acontecimentos não largou a mão de suas tradições coronelistas que tanto apeteciam ao povo e aos senhores que neles seguravam as correntes.

Pela primeira vez em minhas três décadas corridas de vida, eu estava ansioso pela publicação daquele dia. E não porque naquela data em específico, na página da republicação, os nomes de 1/16 da cidade sairiam impressos na lista do Diário Oficial (o oficial-oficial, não o oficial-chacota). Os nomes dos selecionados em dois concursos públicos, que já haviam sido divulgados no Oficial, então seriam republicados no Saiu, o que por si só significava uma dupla comemoração. Três pessoas de meu convívio próximo, mais duas de convívio longínquo foram nomeadas para cargos de funcionalismo público do Estado e isso, para quem luta & tem sorte & detém disciplina & finalmente é recompensado, era uma vitória a ser comemorada. As ruas estavam em polvorosa, quase como em dia de vestibular, faltando apenas a canção de Pinduca a alegrar os festejos populares.

No entanto, não era por tal nomeação que eu estava ansioso. Que tais vitórias ficassem para os mentalmente abastados, aqueles que tinham capacidade para vitórias de tal nível. As minhas vitórias, por outro lado, eram de outra ordem: sorrateiras e pejorativas, autoinfratoras, indulgentes, açoites orquestrados e coordenados. Não era na republicação do Diário Oficial, dentro do Saiu no Diário Oficial, que meu nome seria exposto, mas em uma coluna em poucas dezenas de linhas, num canto afastado da 7ª página, uma crônica confessória de meus erros e assinada com meu nome. Em casa, todos estavam ansiosos com a notícia de que, finalmente, eu teria um trabalho reconhecido no jornal. A colegas, amigos e desavenças, fiz questão de ampliar o alarde: uma grande divulgação seria feita, maior até mesmo que uma nomeação em cargo público. O intuito era que todos soubessem. O objetivo era que de ninguém minhas palavras passassem desapercebidas.

Ao jornaleiro de esquina, dirigi-me contente. Empolgado, perguntei:

– Tens aí o Saiu?

– Claro, meu patrão – ele buscou no fundo da pilha de papel, que no topo tinha apenas os jornais dos Carvalho e dos Romana. A julgar pelo meu sorriso, o bom homem desconfiou: – Teu nome saiu no Diário Oficial?

– Não, não – sorri de volta, convicto das minhas incompetências e preguiças para prestar quaisquer concursos públicos. – Meu nome saiu no Saiu.

– Hum – o homem fez, sem entender.

Ele me entregou o jornal e em suas mãos depositei os tostões necessários. Abri na sétima página e apontei para que me notasse:

– Aqui. Nesta coluna. Eu publiquei uma crônica. Olha, olha.

O homem meneou a cabeça e tentou disfarçar toda sua frustração. Os olhos disseram “que legal, grande coisa”, mas a boca assim disse:

– Égua, firme. Meus parabéns, meu patrão!

Estive prestes a responder qualquer coisa quando uma moça se aproximou. O sorriso e a felicidade estampavam seu rosto pequeno de traços nortistas. As mãos, trêmulas. Afoita, ela pediu:

  – Oi, bom dia! O senhor tem o Saiu?

– Mas é claro que tenho, minha querida – respondeu o homem, respeitoso. As palavras não soaram invasivas. Eram típicas de um cavalheiro nato, sem segundas intenções, sem maldades aparentes. Ele a entregou o jornal. – A senhorita quer uma água? Parece nervosa.

– Não, não precisa. Obrigada – e sorriu. – É que eu recebi uma mensagem que... ai, meu Deus... me disseram que meu nome saiu no Diário Oficial.

– Ô, glória! – Ele bateu palmas, animado. – Meus parabéns!

– Parabéns, moça! – Eu disse.

– Você passou em qual concurso, minha querida?

– Pra professora.

– Que maravilha! Deus seja louvado! – Ele ergueu as mãos ao alto.

– Érr... de língua portuguesa – completou ela, ainda incrédula.

Ela agradeceu com um aceno de cabeça e tratou logo de abrir o jornal. Usou o dedo indicador para buscar o próprio nome e quase teve um troço quando se viu ali estampada na edição.

– Passei! Passei!

O homem & eu aplaudimos.

Tamanha foi a alegria da moça que ela se despediu sem pagar, o que verdadeiramente não pareceu incomodar o jornaleiro de esquina.

– Deve ser tão, tão bom ler o próprio nome no Diário Oficial, não é? – Refletiu ele, aéreo pela alegria da nova concursada.

– É, acho que sim – sinalizei com as mãos e me afastei.

Quando cheguei em casa, por sorte sozinho e sem ninguém em volta, respirei aliviado e abri na 7ª página. Vi ali meu texto e nome publicados. O texto e o nome que todos, nesta cidade pequena de minúsculos fatos e pequeníssimas causas, estariam também prestes a ler:

 

 

Crônica do dia

“Sobre homens & homens”

Por Felipe Santiago

 

De todos estes homens, sou só mais um. Cometi os mesmos erros. Saí nas mesmas ocasiões sob as mesmíssimas pretensões. Alguns o fizeram há muito tempo. Muitos o fazem com recorrência. Fiz só recentemente, mas contra minha imagem de bom-moço, é preciso divulgar derradeira verdade: um evento único – pois a constatação de uma hipocrisia precisa ser exposta. Eis-me aqui! Como Simão Bacamarte recorrendo à matraca para inflar a notícia pelas praças da cidade, embora, graças aos deuses, já tenhamos a imprensa para divulgar ao povoado a novidade. A reunião de tais conclusões, ou pelo menos a concretização da epístola destas, abateu-me nos dias que se sucederam àquela noite: quando ela me disse, enquanto caminhávamos pela rua, após minha confissão de preferir jogar videogames a ser escritor (porque escrever não me traz a nada, enquanto os jogos, bem, eles me distraem deste mundo), assim ela disse: você está se tornando um homem comum. Nas entrelinhas, o que ela também confessou, em frustração, foi: quando te conheci, não eras um homem comum. Eras desses que escreviam & liam & possuíam um coração bom & tinham algum potencial artístico que aos meus olhos eram belos, que significavam alguma coisa mínima, uma pequena ponta de salvação, de exceção. Mas não é culpa dela. Esta crônica existe, aliás, para ressaltar que a culpa não é dela. Nem antes nem depois de minha sucessão de falhas de homem comum, não após a sucessão de conselhos das sábias mulheres que a rodeiam e que também perdem seus tempos com homens comuns, todos eles sentados no sofá debatendo as políticas do mundo & os direitos das mulheres & opinando sobre suas roupas & se afogando em pornografia & desfrutando dos hobbies de suas esposas apenas quando lhes são apresentados por colegas de trabalho mais atraentes e mais promissoras, todas elas afundadas nos dilemas causados pelos mesmos homens-comuns que abarrotam lares e esquinas, embora aleguem superar tais dilemas com infrutíferas terapias. Aliás, a culpa também não é delas. A única culpa que a ela atribuo é a culpa de enxergar em mim algo que valha a pena, algo que seja qualquer coisa além daquilo que tantas vozes já a alertaram o contrário, até as cartas, algo que não está presente em homens comuns, como o comum-homem que sou. Vejam: isto é uma autorrevelação, tais palavras não têm o intuito da ironia ou da falsa modéstia como estiveram expostas quando este veneno escrevi. Agora, é constatação do ordinário e de sua adjetivação mais vil. Por isso esta crônica existe, assim como todas aquelas que fui capaz de escrever, em um parágrafo apenas, desde 16 anos atrás. O dinheiro que gastei com prazeres passageiros e o dinheiro que torrei em noites de raiva em eletrônicos desprezíveis, o dinheiro que fui incapaz de investir na materialização da união. As selfies que tirei quando o sabido crachá temporário pendia em meu peito e os erros após promessas recentes e a impaciência com a intromissão de plateias como se estas fizessem parte do assunto só por terem ouvido fragmentos dele. O porco escroto que fui ontem, hoje e serei amanhã, em menor ou em igual grau. As ameaças que fiz uma década atrás a outras mulheres e as traições de outas almas que julguei ser vítima, muito embora iguais já houvesse cometido antes. A traição da indiferença. A traição da covardia. A traição da apatia – “o que tenho em mim é um estado chamado de ATARAXIA”, ousei dizê-lo a uma antiga namorada, pois conheci o conceito em um filme com Bruce Willis e julguei cool, julguei que isso fazia parte de mim, quando só não possuía coragem nem decência de confessar imaturidade, irresponsabilidade, machismo e escrotidão. A traição do ser, a traição do não-ser, do não-fazer, do não-estar e do não-notar, muito maiores que a traição do adultério. O porco escroto e minúsculo covarde-hipócrita que anseio que todos saibam que fui e berro para que todos saibam que ainda sou, ao invés de ouvir estas mesmas verdades de bocas que desprezo, que sempre antipatizei, muito embora houvesse fingido em todos esses anos, dissimulado e sonso por nascimento astrológico, ter cultivado qualquer simpatia. Que a verdade saia de minha boca ou de meus dedos, mas jamais, em hipótese alguma, das bocas ou dos dedos daqueles que detém minha antipatia, pois se a eles pertencem minhas histórias, então a mim igualmente pertencerão algumas que sobre eles tenho em mãos. Que a verdade, a verdade a meu respeito e o desvelo desta máscara sejam proferidos e escritos por mim. Que saiam de meus dedos e de minha boca. Que o escroto seja aqui admitido e revelado: eu, eu, em um único parágrafo, apenas eu.

6 de junho de 2026

De novo essa sapatão aqui?




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Valham-me, deuses. Sobre esta matéria conheço bem: o ego do artista. Por tempos e quase sempre, parte de minhas acusações foi, em primeira instância, clara tentativa de mirar o espelho, de apontar o dedo em riste a mim mesmo. Embora, claro, em segunda instância, meus alvos tenham recebido em maestria tudo aquilo que detectei de horrendo em mim, pois foram eles a triplicar as apostas e pôr em prática aquilo que nem eu conjecturava fazer. Meu foco sempre foi destinado aos colegas de pena que usam de palavras para mergulharem entre esbeltas pernas – o poço da glória. Portanto, minha guerra sempre foi aos ventos, raramente com alvos claros, dificilmente a nomes que seriam atingidos, pois a propagação de minhas palavras nunca cobiçou o estrelato ou a fama; almejou, senão, apenas o alarido da confissão, o exorcismo da alma. Que a minhas palavras venham os interessados. Se vierem os alvos, magnífico! Seria o brinde, mas fracassado como sou, nunca fui dado a esperanças. Só o que entendo é do ego dos escritores, não dos pintores, não dos artistas visuais – embora, hoje, eu venha aqui me debruçar sobre ele. 

Pois, vejam: dos piores que conheci e dos melhores em serem vis e a quem dedico minhas linhas, tudo o que noto é a sublime arte de mergulhar no melaço de poços. Mesmo aqueles que não dedicam suas artes à escrita, mas ao intelecto da apreciação de arte, até neles é notório encontrar artimanha escrachada. Em um conto de autoria minha nunca publicado, contido em meu livro há muito esquecido por editora que me aceitou, porém jamais me endereçou contrato, chamado “Manual básico de como conquistar uma escritora (rsrsrs)”, Noemí Navarro é uma autora paraense em ascensão que dedica uma manhã, ao lado do marido, para ler comentários a respeito de seu livro num site que, talvez, até seja o da Amazon. O teor das resenhas curtas foi inteiramente retirado de um caso real, uma pesquisa de campo em que coletei as opiniões de homens a respeito de uma antologia de uma escritora brasileira cujos textos falavam sobre muito sexo, muita putaria e alguns “paus babando de tesão”. Percebam: esperar isso de um Rubem Fonseca, de um Bukowski ou de qualquer lixo paraense com blog referenciando a segunda geração romântica brasileira é até compreensível.

Mas de uma mulher?

De uma Pilar Quintana?

Hilda Hilst?

Natalia Nodari?

Escritoras fazerem do corpo uma via crucis?

Absurdo!

Em meu conto, todos os comentários lidos por Noemí têm a plateia e o apoio de seu marido, fazendo-o, ambos, com deboche, pois todas aquelas opiniões muito ponderadas e sagazes são tecidas por homens que julgam que Noemí escreveu um livro comunicando, ao mundo, que vive e age da mesma forma que seus personagens: com depravação e ninfomania. Para os leitores homens de sua obra, cada texto de Noemí não passa de uma autobiografia escrachada ou de um claro convite ao primeiro que amaciá-la com palavras bem rebuscadas e gramaticalmente arquitetadas. O marido da personagem, por outro lado, conquistou-a por ser o oposto disso: não faz arranjo de sentenças nem estampa intelectualidade em redes sociais; não assiste a filmes por construção de mundo ou por vaidade de moda, ele o faz porque gosta – princípio banalmente simples e primeiro da arte: ela precisa atingir o abismo desconhecido, local onde a técnica não alcança, o centro poético, o não-lugar que os vampiros de Anne Rice jamais seriam capazes de atingir, pois criaturas perfeitas como o são, dominam somente a técnica, mas jamais a substância singular do talento.

Noemi Navarro ama o marido pela razão que há muito foi esquecida por aqueles que se perdem nas torres de marfim da arte. Ela não o trocaria pelo mais rebuscado dos doutores em literatura, porque não há performance no amor que vem dele, muito menos na exaustão de conquistá-la com elogios enfadonhos, resenhas profundas ou cinismos superficiais. Conquistou-a sem ego. E do ego dos escritores e dos leitores que performam intelectualismo – com o devido sufixo patológico –, disso eu sei. Mas do ego dos artistas visuais? Bom, aventuro-me aqui pela primeira vez. Pois rinhas entre artistas, ah, isso conhecemos bem. Machado de Assis travou inimizades de Eça de Queiroz até Lima Barreto, mas todas elas foram travadas na arte, como o faço agora:

evoque seus demônios por meio de suas linhas,

por meio de seus traços,

grite-os

desta maneira, da melhor que você sabe, mas não o faça a nível pessoal ou profissional, acusando seus inimigos (ou quem você julga inimigos) de crimes horrendos, inverossímeis acusações como

 

(neste momento, o texto se torna um diálogo talvez ocorrido pessoalmente, talvez ocorrido por mensagens de texto, em suma verídico, mas em discurso direto para o bem da dramatização destas linhas):

 

 “De novo essa sapatão aqui?” – relatou a interlocutora.

 O quê? É sério isso??

 Muito sério.

 Ela disse isso?

 Sim. Ela chegou com o Alisson e relatou que tu olhaste pra ela e disseste “de novo essa sapatão aqui?”. Ele trouxe a menina até mim e ela repetiu a acusação. Disse que era a segunda vez que visitava o espaço e que tu fizeste esse comentário perto dela. E fez questão de dizer que olhou pro nome no teu crachá: “FELIPE SANTIAGO”.

 Puta merda!

 [risadas incrédulas] Tô te falando. Nem eu nem o Alisson acreditamos nisso. A história correu e ninguém acreditou. Achei melhor te contar só agora depois do fim do nosso contrato.  

 

(mais exatamente) Três dias atrás, descobri quem fez tal acusação que me perseguiu o fundo da mente por quatro meses. Quatro meses em que me descabelei em paranoias, julgando que, por um momento sequer, eu houvesse comentado qualquer coisa que fonologicamente pudesse ser confundida com tamanha atrocidade criminosa: de-novo-essa-sapatão-aqui? de-novo-com-o-sapatão-na-mão-aqui? de-novo-aceita-cartão-aqui? de-novo-com-carão-por-aqui?; quatro meses sentindo-me um lixo porque alguém por aí, com meu nome na ponta da língua, julga que eu disse tal obscenidade. Quatro meses imaginando quem, em sã consciência em Belém do Pará, poderia me odiar tanto a ponto de inventar insano absurdo.

E por quê?

A resposta veio em uma mesa de bar, num comentário despretensioso de alguém que detinha a informação, mas não sabia que ela faria qualquer sentido para mim. E tal situação me traz aqui: ao ego dos artistas, ao ego da perda de batalhas que foram travadas bem antes de minha chegada, batalhas que foram perdidas pela própria acusadora para (que ironia) a própria acusadora. Quando, ao perder a mulher que julgava ser a mulher de sua vida, no terror da impossibilidade, cercou-a de todas as formas e ameaçou até suicídio. O que é engraçado, não o ato em si, é claro, pois como emo convicto e amante do ultrarromantismo brasileiro, seria hipocrisia afirmar que nunca flertei ou que nunca tentei pôr a ideia em prática. Mas o que há de cômico nesta história é que, há mais ou menos 7 ou 8 anos, publiquei neste blog a primeira versão do conto “Quando setembro acabar”, cuja narrativa aborda a reunião de três amigos que comemoram o fim (leia-se vitória) das reuniões terapêuticas em grupo. Dois deles, ex-suicidas – um por romantismo autodestrutivo, outro por não ter a sexualidade aceita pela família e dela sofrer abusos físicos. O personagem principal, chamado “Sem-Nome”, reflete sobre o quanto não existe honra em usar o suicídio como mera ameaça afetiva após um término ou negativa de relacionamento, de modo que sua tentativa não ocorreu como forma de ameaça, mas como autopunição silenciosa e covardia de lidar com as consequências dos horrores que infringiu à ex-namorada. Não há honra em fazê-lo, pois o assunto não deveria ser tratado como moeda de troca ou de ameaça, afinal só aqueles que tentaram e estiveram na margem do ato sabem a agonia pela qual passaram. O conto, em si, foi escrito para que tal diálogo existisse: se a dor é genuína, então o ato é impetuoso; se a dor é usada como manipulação, então o ato não acontece, é coação.

Não há honra em tentar,

não há honra em fazer disso ameaça sentimental,

não há orgulho em valer-se de pautas importantes

esvaziando-as a um bel prazer vilanesco,  

tampouco há honra em cultivar sentimentos de vingança contra aqueles cujo único erro ou afronta foi chegar depois de sua partida ao coração que tanto, até hoje, claramente, pela acusadora é estimado e cobiçado. Não há honra em cercá-la, de longe, aproximando-se de entes queridos e tentando sempre se manter à espreita, deixando até mesmo, na primeira foto da rede social, um desenho em homenagem àquela que até hoje ama, mesmo aos olhos do mundo fazer ou ter feito morada em outros corações. Não há honra em demonstrações que não sejam pelo amor, não há honra em lembranças estampadas não pela saudade, mas pela obsessão, pelo claro sinal de que ainda estou aqui, obsidente, birrenta como um homem maluco à espreita da amada que não aceitou perder.

Assim como estes tantos porcos escritores que usam a escrita para comerem mulheres, não há muita honra em fazer arte para sinalizar presença obsessora. Faça arte para atacar com rigor, não para cercar com mentiras. E se for atacar, não o faça com falsas acusações de crimes.

E se ainda quiser atacar,

faça arte para o expurgo de suas dores,

faça arte para o exorcismo de suas derrotas.

Grite com talento.

Faça.

Sem mentiras.

Sem artimanhas.

Sem atos sujos e ardilosos.

Faça.

Ou nem tente.

 

 

 

18 de janeiro de 2026

Não tranca o dente



Para Diva


Passava de duas horas da madrugada quando Dr. Saulo me recebeu no apartamento dele. Abriu a porta com a cara amassada. Contrariado, permitiu que eu entrasse. Um sujeito bruto e sem tato, mas um bom sujeito. Cruzei a porta e um jorro de sangue escorreu pela minha boca, fez “pluft” na vasilha de inox que eu segurava abaixo do queixo. Sempre que a torrente de gosto metálico latejava e enchia minha boca de sangue e saliva, eu cuspia lá dentro. A vasilha me acompanhava desde casa.

Ele fechou a porta atrás de mim e me indicou o caminho da cozinha. As luzes estavam acesas e sobre a mesa de jantar havia o que parecia ser um kit de primeiros socorros odontológicos. O mais cruel de tudo foi constatar que uma cafeteira ligada preenchia o cômodo com forte aroma de café. Ao lado dela, a caneca azul-marinha com letras douradas e já desgastadas estampava ODONTOLOGIA POR AMOR (Conselho Regional de Odontologia - Boas Festas - 2019). Eu não tomava café quente há quase três dias e exceto que eu aderisse à  insana hallyu ou aos gostos de jovens alternativos modernos de apreciarem café gelado, aquilo vinha me enlouquecendo.

Dr. Saulo lavou as mãos na pia e colocou um par de luvas cirúrgicas. Ligou a lanterna do celular e me disse para abrir a boca. Meus sentidos tentavam, em vão, ignorar o cheiro da cafeína e a presença da caneca.

— Me fala. O que tu fizeste pra me tirar do sono a uma hora dessas?

Antes que eu respondesse, Dr. Saulo colocou o espelho bucal na minha boca e procurou os pontos abertos no terceiro molar superior esquerdo, já que os pontos abertos do terceiro molar inferior esquerdo eram mais fáceis de serem vistos.

— Ê á-í, ou-ô… e-ent-e… aon-ê-eu.

— De repente nada. O que tu fizeste? Puta que pariu, meu patrão.

— Ô-i ga-ve?

Ele não respondeu. Senti uma agulhada nas duas gengivas. Anestesia. Ele respirou impaciente e pouco tempo depois, utilizou uma tesoura. Então uma pinça. Ou um gancho. Qualquer instrumento de tortuosa tortura carniceira para arrancar a linha. E então outra agulha na ponta de uma pinça. Ou o contrário.

— Usa esse vasilha aí pra cuspir. Mas não cospe com força, senão vai arrebentar toda a tua gengiva. Só deixa o sangue escorrer.

— Im, en-ôr.

A cada movimento de pinças e de pontos, ele me ordenava a cuspir. Eu virava a cabeça para o lado e sentia sangue e saliva escorrerem por entre os lábios, vez ou outra acompanhados de pequenas bolotas de nódulos que mergulhavam na piscina vermelha.

— Porra, amanhã de manhã eu tenho um milhão de broncas pra resolver desde cedo e tô aqui tendo que te costurar de novo porque fizeste merda. E não foi pouca merda — essa última parte foi acompanhada de uma espetada que não me causou dor, somente a sórdida agonia de sentir o vai e vem da linha passando por entre a carne da gengiva. Na cozinha da própria casa, e sem uma das assistentes para auxiliá-lo, Dr. Saulo só contava com três lâmpadas no teto para substituírem o refletor de led da poltrona e os anos de prática para ter a mínima noção de onde costurar, já que não possuía uma terceira mão para segurar o espelho bucal. — Caraaalho. Que porra foi essa? — E arrancou um pedaço curto de linha, mas, pelo tempo que custou, pareceu uma eternidade.

Depois do doutor, foi a minha vez de suspirar.

Dentistas e assistentes de dentistas possuem, talvez, um estranho fascínio (escondido e nebulado pelos anos de prática) de arrancarem conversas de pacientes que mantêm as bocas abertas e violadas pelos procedimentos cirúrgicos. Enquanto os pontos de articulação fonética mais essenciais para a comunicação básica estão obstruídos, paralisados ou anestesiados, dentistas e assistentes de dentistas perguntam onde será o carnaval, quais os planos para a próxima semana santa ou se você é um grande apreciador de comidas regionais, a maioria remosa e proibidas de serem consumidas no pós-cirúrgico. De quebra, tais quais insensíveis entrevistadores de jornais locais sensacionalistas perguntando aos parentes de vítimas fatais de trágicos crimes “como você está se sentindo?”, ainda o incentivam a longos diálogos. E como esses abutres das notícias, dentistas e assistentes de dentistas vão mais fundo: vá, me diga, fale um pouco mais e, se sentir qualquer coisa, discorra sobre. Seu monólogo nos é de extrema importância.

Mas a causa de tantos pontos arrebentados era nobre. Enquanto Dr. Saulo continuava seu ato de tecer a carne, enquanto minha mandíbula escancarada ignorava o cansaço da posição e enquanto o aroma de café preto e recém-passado ondulava minhas narinas adentro como o cheiro do álcool para um frequentador do AA, recordei-me do incidente necessário que me levou até o apartamento do dentista em plena madrugada:

Há menos de dois dias sem os dois-terceiros-molares-esquerdos, eu subia pelas paredes. Imaginava toda a sorte de comidas e de combinações culinárias e assistia a todos os vídeos na internet que me apresentavam receitas que, em qualquer outra ocasião, jamais me saltariam aos olhos. Alimentando-me apenas de comida batida no liquidificador a temperaturas gélidas e sentindo todas as vigorações de meu ânimo se esvaírem com analgésicos, antibióticos e anti-inflamatórios, delirei sobre os tempos passados, quando a dor de uma inflamação de sisos era mais agradável que a recuperação da extração de dois deles. Uma futura vida de dores hipotéticas que poderiam certamente ser compensadas com 7 dias de remédio não parecia tão aterradora quanto a abstinência de alimentação digna e de qualidade. Os hambúrgueres e os bifes acebolados, as pizzas e as doses de café quente (principalmente essas!) diziam-me, com assertiva convicção, que tal situação deplorável, sangrando e dolorido, não valia a pena.

Com a abstinência alimentícia, veio a depressão. O fastio. A repulsa pela dieta infantil. Nem a imagem de sorvetes me apetecia. Seriam, pois, puras distrações para ocultar um estágio mais severo de sofrimento. E foi justo nesse momento de vulnerabilidade que o motivo para os pontos arrebentados chegou: com um alento carinhoso, um abraço calmo e terno, um carinho na cabeça de quem acalma uma criança em birra, ante a perdição da privação. Um abraço acolhedor que encaixou meu rosto (o lado bom dele, o direito) em macio par de volúpias. Um aroma de perfume já em simbiose com a pele, com o suor e com o ardor do espaço entre as gigantescas e côncavas linhas de calmaria. Entre elas, uma tatuagem ainda em tinta forte e significativa, entregando-me uma galáctica mensagem de esperança – e que a força esteja com você. Passado o alento na cabeça, a vontade. O aninhar em espaço seguro, a rede de apoio que um homem devastado por dois buracos na boca precisa para, em paz, descansar e abstrair-se da dor. O deslizar de um par de mãos. Braços, mãos, ancas. Abdome, umbigo, os leves pelos que demoram a crescer, que descem para os entremeios do desejo e umedecem os caminhos das águas. Depois os beijos, os leves beijos sobre os quais ela me alerta:

— Cuidado com a tua boca.

Mas eu ignoro. Meus lábios ignoram. Insistem nos beijos. Insistem no trabalho conjunto com os dedos que, longe dali, desprendem ganchos e derrubam barreiras de cor preta rendada. Com os beijos, o deslizar da língua, o gosto conhecido e acolhedor do lar, que bombeia o fluxo para áreas que instantaneamente ganham vida e enrijecem-se na alegria distrativa do pós-cirúrgico.

— Não, cuidado — ela diz, alerta, mas hesitosa. — Não podes fazer movimento de sucç...

A frase não é dita por inteira. Termina aí, porque o desejo é mais forte que a dor e a ignora. Embora com a boca dolorida e a mandíbula inchada, lentamente beijo-lhe as aréolas e sem notar começo a chupá-las, sorvendo o gosto conhecido e calmo da pele e entre meus incisivos centrais sentindo o mamilo se enrijecer. As mãos que antes derrubaram barreiras invadem outros territórios. Na ponta dos dedos, o roçar da pele aquecida e guardada que agora se abre para dar aos dedos um alento leve, na dobradura que a cada tocar se desvela mais mole, sem resistências, sem atritos, acompanhados de respirações & gemidos & revirar de olhos entrecortados, igualmente sedentos como um decrépito paciente para sanar a própria fome de mastigação. A mastigação da calma. O sabor do desejo, tornando caminhos mais livres e visitas mais rígidas. Dali em diante, são dedos mergulhando. Livres e macios, dobradiços na ponta quando em profundo adentram o local familiar. E então mais carinhos e então mais carícias. E então roupas não mais nos vestem e a lembrança de qualquer cirurgia também não. E então, muito embora falar seja complicado e o inchaço na bochecha prejudique até o movimentar da língua, algumas palavras são ditas:

— É disso que tu gostas, né?

Sim ela responde.

E depois:

— Mas, ei. Me diz, tá tudo bem?

Hum? O quê? Por quê? — Pergunta ela, confusa.

— Por que ficaste assim?

Assim como?

— Assim, tão

molhadinha não é mais a gengiva inflamada e dolorida, mas a dobradura e a sala interna de acolhimento, que pulsa e estremece a cada falar prejudicado que não se priva de sair ao pé do ouvido como incentivo ou provocação, na ânsia de cobrar o que há de melhor.

Em seguida, mudam-se posições, pois, é importante lembrar, que alguém ainda possui pontos na boca e as recomendações médicas restringiam com MÁXIMA ATENÇÃO quaisquer atividades que demandassem esforço físico, levantar pesos ou movimentos bruscos. Mas diante da situação, diante do momento, não são as recomendações médicas que impediriam o movimentar de corpos quando estes ultrapassaram a linha da lógica ou do raciocínio. Diriam os naturalistas na beirada do século XX, em seus romances e em seus folhetins semanais, que o ser humano descende dos animais e que, apesar da era magnânima do Iluminismo, certos instintos e ações irracionais ainda vinham dessa natureza primitiva que não pensa, que não pondera, que não age de maneira adulta e responsável, mas que se entrega à máxima lei da natureza, que sussurra entre suspiros me fode, me fode assim, já à altura do segundo espasmos ou no terceiro tremer de pernas, consecutivos, aqueles que, desta vez e ao contrário dos três anteriores, agachados e com mãos em apoio em ombros, libera a tensão dos músculos internos e se deixa entregar a uma reação que pressiona, dilata e relaxa em um caldo quente e incessante, molhando virilhas e lençóis e deixando uma mancha invisível  num colchão que já conhece tantas outras manchas invisíveis ali igualmente despejadas de outras formas que não essa, banhados pela mesma fonte.

E enquanto ela assim reage, sem entender que reação foi aquela do próprio corpo, como se nunca houvesse passado pelo mesmo, um traço de racionalidade lhe toma a mente. Um assalto instantâneo, momentâneo, passageiro:

— Não faz força, porra.

Mas é tarde.

Ela agacha e levanta. Eu inclino o quadril para cima, no ângulo específico em que consigo penetrar e, ao mesmo tempo, oscular as dobraduras mágicas, excitando tanto o lado de dentro quanto o de fora.

Ela geme.

Me aperta os ombros.

Me aperta as laterais dos braços.

Afunda as unhas e com raiva racional, conhecedora de meus detalhes, diz:

Não tranca o dente.

— Agora fodeu.

Sim, eu sei — Ela sorri, vendo na tragédia do estrago cirúrgico um motivo para piada oportuna. — E já tem um tempo.

— Tem sim.

Inclino, novamente, o quadril. Prolongo o movimento que aos dois pontos toca e, em seguida, pelos dois minutos próximos ou pela próxima meia-hora (o tempo era, então, uma abstração irrelevante) ela escorre de novo por entre minhas pernas, aquecida e delirante, ofegante acima de tudo e com pernas bambas, mas insistentes na conquista da exaustão, entregando-me bebida muito mais prazerosa e estimulante que os melhores grãos colhidos do gênero das Coffea.

À essa altura, eu não sinto, eu não ligo, eu pouco me fodo, mas o que penso ser a saliva descendo pela minha garganta já é um amontoado de sangue e de dor aguda, que irradia pelo maxilar e não desiste até que quem escorra seja eu, por outro ponto e em um lugar mais quente e pulsante.

— Pronto — Disse o Dr. Saulo, arrancando-me de boas lembranças. Ele já lavava as mãos na pia. Tão puto parecia estar que sequer me direcionava o olhar.

Cuspi outro amontoado de sangue na vasilha.

— Áh u-do ér-to?

— Certo? — Ele riu, incrédulo. Pareceu escutar a maior estupidez da face da Terra. — Troquei os pontos que tu arrebentaste e vou te passar outra receita.

Ele sentou na mesa e puxou uma caderneta de receituário.

— Tu vais manter o antibiótico e o analgésico. Aliás, deverias tomar a dipirona de 6h em 6h só se caso tivesses dor, mas agora — e ele sorriu, sádico —, agora com toda a certeza vais precisar tomar de 6h em 6h. Suspende a nimesulida. Vais tomar agora a Dexametasona. Não seria o ideal tomares por tanto tempo, mas como fizeste um favor de foder com a tua cirurgia, então vais tomar esse. Em uma semana volta no meu consultório pra gente ver o que faz — ele me entregou a receita. — Cospe o que tiveres pra cuspir na tua vasilha. Deixei uma gase na tua boca, tira quando chegares em casa e tenta ver se não se mata mais, porra.

— Ô-i-ga-ú, ou-ôr.

Com mais dificuldade moral do que corporal, tirei duas notas de cem reais da carteira e entreguei ao médico. Ele não agradeceu.

— Outra coisa — exigiu ele, inclinando-se, curioso.

 — Im?

— O que tu fizeste?

— Uh-ê?

— O que tu fizeste pra arrebentar a merda desses pontos?

Respirei fundo. Meus maxilares doíam e a anestesia tornava a lateral esquerda do meu rosto em um balão de água cuja superfície eu sabia pertencer ao meu corpo, mas ausente de tato ou de pertencimento.

- Á-da de-ais – respondi, dando de ombros.   

Dr. Saulo me olhou por algum tempo, cínico e puto.

— Se tu arrebentares essa porra de novo, nem volta mais aqui ou no meu consultório. Tá ouvindo?

— Im, ên-ôr.

Ele olhou para o relógio no celular e apontou a direção da saída.

— Ótimo. Dá o fora daqui. 


2 de janeiro de 2026

Obrigada pelo veneno

 



 

Sister, I'm not much a poet, but a criminal

And you never had a chance

 

Tenho pensado sobre o que meus ídolos caídos, tortos e decadentes um dia escreveram ou por aí insistem em cantar. Do jovem fúnebre Álvares de Azevedo, por exemplo, relembro os célebres versos:

 

Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

 

Não de hoje assalta-me um pensamento constante, vez ou outra retorna, dá um passeio zombeteiro, e não da maneira triste ou crônica de outrora, mas de forma lógica e inevitável: penso sobre o meu funeral, nos ritos católicos que, embora eu desaprove, minha família fará questão de praticar: os cantos, as rezas, as palavras de carinho, como se eu houvesse sequer sido merecedor de tais benevolências ou nelas enxergasse alguma espiritual utilidade.

 

Não fui poeta.

Não sonhei.

E quando na vida amei,

amei e amo de todo errado, como uma rosa mais tomada por espinhos do que por pétalas: com abraços de espetos, perfurando e colhendo antipatias, desafetos e mágoas.

Lera Lynn cantou waking up is harder than it seems ao passo que Warren Zevon, décadas antes, também proferiu algo parecido: You wake up every day and you start to cry.

Vidas atrás, uma fiel amiga a quem perdi por pura consequência de minhas destruições, talvez (muito talvez) encantada pela ilusão que em mim enxergava, comparou-me à canção de Cássia Eller: “eu sou poeta e não aprendi a amar”.

Ora, mas que infernos, eu não sou poeta.  No máximo, e nem dos melhores, um prosista. Considero-me mais isso do que prosador. Prosador é respeitoso. Já o prosista tende ao escárnio do ofício, mira a piada do tema. O prosista beija o pejorativo, porque o é em essência, bem como, em essência, não sou belo nem admirável nem encantador nem fofo nem todas essas falácias das quais as pessoas insistem em acreditar, mesmo eu não querendo sê-las na mais vil intenção desmedida.

Só quem sabe disso – as detentoras da verdade –, são as pessoas a quem esmigalhei: amizades perdidas em separações de bens, amizades vilipendiadas na imaturidade das escolhas, sujeitos hipócritas que cruzaram meu caminho em funerais, senhorinhas de sangue que a estranhos messias escolheram seguir, fiéis ouvintes das amantes em quem pisei e, acima de tudo, estas últimas, as próprias amantes. São essas as pessoas detentoras da minha verdade, aquelas que, também, em torno delas, séculos atrás me alcunharam de homem horrendo & macho escroto ou que atualmente, e bem apropriadamente, enxergam em mim um Jurandir – embora, em outras instâncias, doar afeto a aspiradores de pó e conservar carícias e favores secretos a viciados fardados não seja digno de concedê-los tais honrarias... Pois, ora, vejam, de novo, constatem: nocivo acima de tudo. Guiado pela raiva, pela inveja e pelos preconceitos. Todas as pessoas que realmente me conheceram o sabem bem. Aquelas que ousam ainda me admirar possuem apenas a sorte da ilusão ou do não confronto direto, caso contrário encontrariam o homem-médio-nada-além-do-comum que aqui habita. 

 

You're evil as the demons that haunt you

forgetting what it was that they taught you

and now there's no one left to stop you

or to catch you when you drop.

 

E neste vislumbre passageiro, o de imaginar minha morte e as poucas pessoas que a meu corpo decrépito em vida (e finalmente em morte) talvez velarão, desconfio que não sejam as boas lembranças que ficarão, mas as péssimas: a do sujeito descontrolado, instável e péssimo com palavras faladas ou sentimentos ditos; as de mais um Jurandir de única faceta, não de camadas, não de outros vieses, mas um fácil, um único, a moeda de um impostor cujas faces possuem uma só, e que aos montes cai das mangueiras desta cidade e que perambula pelas esquinas, desprovido de bons atributos ou incapaz de salientá-los, pois

as péssimas coisas,

as coisas deploráveis,

as sucessivas & repetitivas escolhas,

as mesmas ações de novo & de novo,

são essas as verdadeiras “nuances” que compõem um homem-médio, um Jurandir. Bem recentemente soprou-me uma pessoa próxima que ainda, com unhas e dentes de desespero materno, luta pelo seu próprio homem-menos-pior: “não existem homens melhores, existem apenas homens menos piores”. E para fundir todas estas citações, quase como se esta fosse uma constatação acadêmica da análise psicológica da perdição dos Jurandis, muito sabiamente disse o vil Xaro Xhoan Daxos: “Um homem é aquilo o que dizem dele”. E sobre este homem, eu mesmo vos digo: cuidado e tomem distância. A única versão dele é a versão verdadeira, e a versão verdadeira ecoa em poucas bocas e é negada a iludidos ouvidos: ele não passa de uns bons punhados de covardia e de vastas ofertas de ironias (é só o que tem).

E se alguma camada nele habita, então é esta:

Não é por mal.

Nunca foi.

Estas palavras só existem porque, ora, há incômodo, há discordância, porém pouca força para discordar e muita impaciência para provar qualquer ponto contrário, sobretudo aqueles sussurrados por bocas que sempre o suportaram com elegante e terna dissimulação. E porque, acima de tudo, passei a acreditar nas histórias que sobre mim são contadas, sobretudo aquelas narradas por lábios queridos que já se encontram calejados e desgastados pela bile na minha saliva e pela peçonha de minh’alma.

Não, irmã. Eu não sou um poeta.

Eu sou somente aquilo que dizem sobre mim.