Nesta
cidade pequena de minúsculos fatos e pequeníssimas causas, qualquer notícia
oficial é bomba a correr por teclados e vozes. Um sussurro dado a oeste é
ouvido com retumbância a leste, já os agentes do norte são os protagonistas de
antigas historietas do sul, enquanto os do sul ganham ao norte a alcunha de persona
non grata. Nesta pequena cidade de atos minúsculos e banais fatos históricos,
esquecida há muito tempo pelos grandes centros urbanos e cuspida dez vezes mais
por eles, qualquer novidade há de ser proclamada com enérgico estardalhaço.
Pensando
nisso, os mais velhos poetas regionais desta cidade (que nunca seriam chamados
de nacionais, pois o cânone brasileiro jamais os consideraria merecedores de
tamanha honra) criaram o Saiu no Diário Oficial. A princípio, um
periódico dedicado a críticas políticas à oligarquia dos Carvalho ou ao poder
avassalador do jornalismo dos Romana. Entretanto, o sucesso foi tamanho que com
as décadas passou-se a divulgar vagas de emprego, anúncios de emplastos e até
mesmo uma republicação do que de fato havia saído no verdadeiro Diário Oficial,
acordo feito com as autoridades jurídicas estaduais que há época muito
incomodadas ficaram com a anedota no título. De repente, o Saiu no Diário
Oficial tornou-se o quarto mais popular jornal impresso da cidade, perdendo
apenas para os veículos de seus concorrentes: um dos Carvalho e dois dos
Romana. Afinal, como os grandes centros urbanos, esta pequena cidade de
minúsculos acontecimentos não largou a mão de suas tradições coronelistas que
tanto apeteciam ao povo e aos senhores que neles seguravam as correntes.
Pela
primeira vez em minhas três décadas corridas de vida, eu estava ansioso pela
publicação daquele dia. E não porque naquela data em específico, na página da
republicação, os nomes de 1/16 da cidade sairiam impressos na lista do Diário
Oficial (o oficial-oficial, não o oficial-chacota). Os nomes dos selecionados
em dois concursos públicos, que já haviam sido divulgados no Oficial,
então seriam republicados no Saiu, o que por si só significava uma dupla
comemoração. Três pessoas de meu convívio próximo, mais duas de convívio
longínquo foram nomeadas para cargos de funcionalismo público do Estado e isso,
para quem luta & tem sorte & detém disciplina & finalmente é
recompensado, era uma vitória a ser comemorada. As ruas estavam em polvorosa,
quase como em dia de vestibular, faltando apenas a canção de Pinduca a alegrar
os festejos populares.
No
entanto, não era por tal nomeação que eu estava ansioso. Que tais vitórias
ficassem para os mentalmente abastados, aqueles que tinham capacidade para
vitórias de tal nível. As minhas vitórias, por outro lado, eram de outra ordem:
sorrateiras e pejorativas, autoinfratoras, indulgentes, açoites orquestrados e
coordenados. Não era na republicação do Diário Oficial, dentro do Saiu no
Diário Oficial, que meu nome seria exposto, mas em uma coluna em poucas dezenas
de linhas, num canto afastado da 7ª página, uma crônica confessória de meus
erros e assinada com meu nome. Em casa, todos estavam ansiosos com a notícia de
que, finalmente, eu teria um trabalho reconhecido no jornal. A colegas, amigos
e desavenças, fiz questão de ampliar o alarde: uma grande divulgação seria
feita, maior até mesmo que uma nomeação em cargo público. O intuito era que
todos soubessem. O objetivo era que de ninguém minhas palavras passassem
desapercebidas.
Ao
jornaleiro de esquina, dirigi-me contente. Empolgado, perguntei:
–
Tens aí o Saiu?
–
Claro, meu patrão – ele buscou no fundo da pilha de papel, que no topo tinha
apenas os jornais dos Carvalho e dos Romana. A julgar pelo meu sorriso, o bom homem
desconfiou: – Teu nome saiu no Diário Oficial?
–
Não, não – sorri de volta, convicto das minhas incompetências e preguiças para
prestar quaisquer concursos públicos. – Meu nome saiu no Saiu.
–
Hum – o homem fez, sem entender.
Ele
me entregou o jornal e em suas mãos depositei os tostões necessários. Abri na
sétima página e apontei para que me notasse:
–
Aqui. Nesta coluna. Eu publiquei uma crônica. Olha, olha.
O
homem meneou a cabeça e tentou disfarçar toda sua frustração. Os olhos disseram
“que legal, grande coisa”, mas a boca assim disse:
–
Égua, firme. Meus parabéns, meu patrão!
Estive
prestes a responder qualquer coisa quando uma moça se aproximou. O sorriso e a
felicidade estampavam seu rosto pequeno de traços nortistas. As mãos, trêmulas.
Afoita, ela pediu:
– Oi,
bom dia! O senhor tem o Saiu?
–
Mas é claro que tenho, minha querida – respondeu o homem, respeitoso. As
palavras não soaram invasivas. Eram típicas de um cavalheiro nato, sem segundas
intenções, sem maldades aparentes. Ele a entregou o jornal. – A senhorita quer
uma água? Parece nervosa.
–
Não, não precisa. Obrigada – e sorriu. – É que eu recebi uma mensagem que...
ai, meu Deus... me disseram que meu nome saiu no Diário Oficial.
–
Ô, glória! – Ele bateu palmas, animado. – Meus parabéns!
–
Parabéns, moça! – Eu disse.
–
Você passou em qual concurso, minha querida?
–
Pra professora.
–
Que maravilha! Deus seja louvado! – Ele ergueu as mãos ao alto.
–
Érr... de língua portuguesa – completou ela, ainda incrédula.
Ela
agradeceu com um aceno de cabeça e tratou logo de abrir o jornal. Usou o dedo
indicador para buscar o próprio nome e quase teve um troço quando se viu ali estampada
na edição.
–
Passei! Passei!
O
homem & eu aplaudimos.
Tamanha
foi a alegria da moça que ela se despediu sem pagar, o que verdadeiramente não
pareceu incomodar o jornaleiro de esquina.
–
Deve ser tão, tão bom ler o próprio nome no Diário Oficial, não é? – Refletiu
ele, aéreo pela alegria da nova concursada.
–
É, acho que sim – sinalizei com as mãos e me afastei.
Quando
cheguei em casa, por sorte sozinho e sem ninguém em volta, respirei aliviado e
abri na 7ª página. Vi ali meu texto e nome publicados. O texto e o nome que todos,
nesta cidade pequena de minúsculos fatos e pequeníssimas causas, estariam
também prestes a ler:
Crônica
do dia
“Sobre
homens & homens”
Por
Felipe Santiago
De todos estes homens, sou
só mais um. Cometi os mesmos erros. Saí nas mesmas ocasiões sob as mesmíssimas pretensões.
Alguns o fizeram há muito tempo. Muitos o fazem com recorrência. Fiz só
recentemente, mas contra minha imagem de bom-moço, é preciso divulgar
derradeira verdade: um evento único – pois a constatação de uma hipocrisia
precisa ser exposta. Eis-me aqui! Como Simão Bacamarte recorrendo à matraca
para inflar a notícia pelas praças da cidade, embora, graças aos deuses, já
tenhamos a imprensa para divulgar ao povoado a novidade. A reunião de tais
conclusões, ou pelo menos a concretização da epístola destas, abateu-me nos
dias que se sucederam àquela noite: quando ela me disse, enquanto caminhávamos pela
rua, após minha confissão de preferir jogar videogames a ser escritor (porque
escrever não me traz a nada, enquanto os jogos, bem, eles me distraem deste
mundo), assim ela disse: você está se tornando um homem comum. Nas
entrelinhas, o que ela também confessou, em frustração, foi: quando te
conheci, não eras um homem comum. Eras desses que escreviam & liam & possuíam
um coração bom & tinham algum potencial artístico que aos meus olhos eram
belos, que significavam alguma coisa mínima, uma pequena ponta de salvação, de
exceção. Mas não é culpa dela. Esta crônica existe, aliás, para ressaltar
que a culpa não é dela. Nem antes nem depois de minha sucessão de falhas de
homem comum, não após a sucessão de conselhos das sábias mulheres que a rodeiam
e que também perdem seus tempos com homens comuns, todos eles sentados no sofá
debatendo as políticas do mundo & os direitos das mulheres & opinando
sobre suas roupas & se afogando em pornografia & desfrutando dos
hobbies de suas esposas apenas quando lhes são apresentados por colegas de
trabalho mais atraentes e mais promissoras, todas elas afundadas nos dilemas
causados pelos mesmos homens-comuns que abarrotam lares e esquinas, embora
aleguem superar tais dilemas com infrutíferas terapias. Aliás, a culpa também
não é delas. A única culpa que a ela atribuo é a culpa de enxergar em mim algo
que valha a pena, algo que seja qualquer coisa além daquilo que tantas vozes já
a alertaram o contrário, até as cartas, algo que não está presente em
homens comuns, como o comum-homem que sou. Vejam: isto é uma autorrevelação,
tais palavras não têm o intuito da ironia ou da falsa modéstia como estiveram
expostas quando este veneno escrevi. Agora, é constatação do ordinário e
de sua adjetivação mais vil. Por isso esta crônica existe, assim como todas
aquelas que fui capaz de escrever, em um parágrafo apenas, desde 16 anos atrás.
O dinheiro que gastei com prazeres passageiros e o dinheiro que torrei em
noites de raiva em eletrônicos desprezíveis, o dinheiro que fui incapaz de
investir na materialização da união. As selfies que tirei quando o sabido
crachá temporário pendia em meu peito e os erros após promessas recentes e a
impaciência com a intromissão de plateias como se estas fizessem parte do
assunto só por terem ouvido fragmentos dele. O porco escroto que fui ontem,
hoje e serei amanhã, em menor ou em igual grau. As ameaças que fiz uma década
atrás a outras mulheres e as traições de outas almas que julguei ser vítima,
muito embora iguais já houvesse cometido antes. A traição da indiferença. A
traição da covardia. A traição da apatia – “o que tenho em mim é um estado
chamado de ATARAXIA”, ousei dizê-lo a uma antiga namorada, pois conheci o
conceito em um filme com Bruce Willis e julguei cool, julguei que isso
fazia parte de mim, quando só não possuía coragem nem decência de confessar
imaturidade, irresponsabilidade, machismo e escrotidão. A traição do ser, a
traição do não-ser, do não-fazer, do não-estar e do não-notar, muito maiores que
a traição do adultério. O porco escroto e minúsculo covarde-hipócrita que
anseio que todos saibam que fui e berro para que todos saibam que ainda sou, ao
invés de ouvir estas mesmas verdades de bocas que desprezo, que sempre
antipatizei, muito embora houvesse fingido em todos esses anos, dissimulado e
sonso por nascimento astrológico, ter cultivado qualquer simpatia. Que a
verdade saia de minha boca ou de meus dedos, mas jamais, em hipótese
alguma, das bocas ou dos dedos daqueles que detém minha antipatia, pois se a
eles pertencem minhas histórias, então a mim igualmente pertencerão algumas que
sobre eles tenho em mãos. Que a verdade, a verdade a meu respeito e o
desvelo desta máscara sejam proferidos e escritos por mim. Que saiam de
meus dedos e de minha boca. Que o escroto seja aqui admitido e revelado: eu,
eu, em um único parágrafo, apenas eu.



