Para D.T.
Passava de duas horas da madrugada quando Dr. Saulo me recebeu no apartamento dele. Abriu a porta com a cara amassada. Contrariado, permitiu que eu entrasse. Um sujeito bruto e sem tato, mas um bom sujeito. Cruzei a porta e um jorro de sangue escorreu pela minha boca, fez “pluft” na vasilha de inox que eu segurava abaixo do queixo. Sempre que a torrente de gosto metálico latejava e enchia minha boca de sangue e saliva, eu cuspia lá dentro. A vasilha me acompanhava desde casa.
Ele fechou a porta atrás de mim e me indicou o caminho da cozinha. As luzes estavam acesas e sobre a mesa de jantar havia o que parecia ser um kit de primeiros socorros odontológicos. O mais cruel de tudo foi constatar que uma cafeteira ligada preenchia o cômodo com forte aroma de café. Ao lado dela, a caneca azul-marinha com letras douradas e já desgastadas estampava ODONTOLOGIA POR AMOR (Conselho Regional de Odontologia - Boas Festas - 2019). Eu não tomava café quente há quase três dias e exceto que eu aderisse à insana hallyu ou aos gostos de jovens alternativos modernos de apreciarem café gelado, aquilo vinha me enlouquecendo.
Dr. Saulo lavou as mãos na pia e colocou um par de luvas cirúrgicas. Ligou a lanterna do celular e me disse para abrir a boca. Meus sentidos tentavam, em vão, ignorar o cheiro da cafeína e a presença da caneca.
— Me fala. O que tu fizeste pra me tirar do sono a uma hora dessas?
Antes que eu respondesse, Dr. Saulo colocou o espelho bucal na minha boca e procurou os pontos abertos no terceiro molar superior esquerdo, já que os pontos abertos do terceiro molar inferior esquerdo eram mais fáceis de serem vistos.
— Ê á-í, ou-ô… e-ent-e… aon-ê-eu.
— De repente nada. O que tu fizeste? Puta que pariu, meu patrão.
— Ô-i ga-ve?
Ele não respondeu. Senti uma agulhada nas duas gengivas. Anestesia. Ele respirou impaciente e pouco tempo depois, utilizou uma tesoura. Então uma pinça. Ou um gancho. Qualquer instrumento de tortuosa tortura carniceira para arrancar a linha. E então outra agulha na ponta de uma pinça. Ou o contrário.
— Usa esse vasilha aí pra cuspir. Mas não cospe com força, senão vai arrebentar toda a tua gengiva. Só deixa o sangue escorrer.
— Im, en-ôr.
A cada movimento de pinças e de pontos, ele me ordenava a cuspir. Eu virava a cabeça para o lado e sentia sangue e saliva escorrerem por entre os lábios, vez ou outra acompanhados de pequenas bolotas de nódulos que mergulhavam na piscina vermelha.
— Porra, amanhã de manhã eu tenho um milhão de broncas pra resolver desde cedo e tô aqui tendo que te costurar de novo porque fizeste merda. E não foi pouca merda — essa última parte foi acompanhada de uma espetada que não me causou dor, somente a sórdida agonia de sentir o vai e vem da linha passando por entre a carne da gengiva. Na cozinha da própria casa, e sem uma das assistentes para auxiliá-lo, Dr. Saulo só contava com três lâmpadas no teto para substituírem o refletor de led da poltrona e os anos de prática para ter a mínima noção de onde costurar, já que não possuía uma terceira mão para segurar o espelho bucal. — Caraaalho. Que porra foi essa? — E arrancou um pedaço curto de linha, mas, pelo tempo que custou, pareceu uma eternidade.
Depois do doutor, foi a minha vez de suspirar.
Dentistas e assistentes de dentistas possuem, talvez, um estranho fascínio (escondido e nebulado pelos anos de prática) de arrancarem conversas de pacientes que mantêm as bocas abertas e violadas pelos procedimentos cirúrgicos. Enquanto os pontos de articulação fonética mais essenciais para a comunicação básica estão obstruídos, paralisados ou anestesiados, dentistas e assistentes de dentistas perguntam onde será o carnaval, quais os planos para a próxima semana santa ou se você é um grande apreciador de comidas regionais, a maioria remosa e proibidas de serem consumidas no pós-cirúrgico. De quebra, tais quais insensíveis entrevistadores de jornais locais sensacionalistas perguntando aos parentes de vítimas fatais de trágicos crimes “como você está se sentindo?”, ainda o incentivam a longos diálogos. E como esses abutres das notícias, dentistas e assistentes de dentistas vão mais fundo: vá, me diga, fale um pouco mais e, se sentir qualquer coisa, discorra sobre. Seu monólogo nos é de extrema importância.
Mas a causa de tantos pontos arrebentados era nobre. Enquanto Dr. Saulo continuava seu ato de tecer a carne, enquanto minha mandíbula escancarada ignorava o cansaço da posição e enquanto o aroma de café preto e recém-passado ondulava minhas narinas adentro como o cheiro do álcool para um frequentador do AA, recordei-me do incidente necessário que me levou até o apartamento do dentista em plena madrugada:
Há menos de dois dias sem os dois-terceiros-molares-esquerdos, eu subia pelas paredes. Imaginava toda a sorte de comidas e de combinações culinárias e assistia a todos os vídeos na internet que me apresentavam receitas que, em qualquer outra ocasião, jamais me saltariam aos olhos. Alimentando-me apenas de comida batida no liquidificador a temperaturas gélidas e sentindo todas as vigorações de meu ânimo se esvaírem com analgésicos, antibióticos e anti-inflamatórios, delirei sobre os tempos passados, quando a dor de uma inflamação de sisos era mais agradável que a recuperação da extração de dois deles. Uma futura vida de dores hipotéticas que poderiam certamente ser compensadas com 7 dias de remédio não parecia tão aterradora quanto a abstinência de alimentação digna e de qualidade. Os hambúrgueres e os bifes acebolados, as pizzas e as doses de café quente (principalmente essas!) diziam-me, com assertiva convicção, que tal situação deplorável, sangrando e dolorido, não valia a pena.
Com a abstinência alimentícia, veio a depressão. O fastio. A repulsa pela dieta infantil. Nem a imagem de sorvetes me apetecia. Seriam, pois, puras distrações para ocultar um estágio mais severo de sofrimento. E foi justo nesse momento de vulnerabilidade que o motivo para os pontos arrebentados chegou: com um alento carinhoso, um abraço calmo e terno, um carinho na cabeça de quem acalma uma criança em birra, ante a perdição da privação. Um abraço acolhedor que encaixou meu rosto (o lado bom dele, o direito) em macio par de volúpias. Um aroma de perfume já em simbiose com a pele, com o suor e com o ardor do espaço entre as gigantescas e côncavas linhas de calmaria. Entre elas, uma tatuagem ainda em tinta forte e significativa, entregando-me uma galáctica mensagem de esperança – e que a força esteja com você. Passado o alento na cabeça, a vontade. O aninhar em espaço seguro, a rede de apoio que um homem devastado por dois buracos na boca precisa para, em paz, descansar e abstrair-se da dor. O deslizar de um par de mãos. Braços, mãos, ancas. Abdome, umbigo, os leves pelos que demoram a crescer, que descem para os entremeios do desejo e umedecem os caminhos das águas. Depois os beijos, os leves beijos sobre os quais ela me alerta:
— Cuidado com a tua boca.
Mas eu ignoro. Meus lábios ignoram. Insistem nos beijos. Insistem no trabalho conjunto com os dedos que, longe dali, desprendem ganchos e derrubam barreiras de cor preta rendada. Com os beijos, o deslizar da língua, o gosto conhecido e acolhedor do lar, que bombeia o fluxo para áreas que instantaneamente ganham vida e enrijecem-se na alegria distrativa do pós-cirúrgico.
— Não, cuidado — ela diz, alerta, mas hesitosa. — Não podes fazer movimento de sucç...
A frase não é dita por inteira. Termina aí, porque o desejo é mais forte que a dor e a ignora. Embora com a boca dolorida e a mandíbula inchada, lentamente beijo-lhe as aréolas e sem notar começo a chupá-las, sorvendo o gosto conhecido e calmo da pele e entre meus incisivos centrais sentindo o mamilo se enrijecer. As mãos que antes derrubaram barreiras invadem outros territórios. Na ponta dos dedos, o roçar da pele aquecida e guardada que agora se abre para dar aos dedos um alento leve, na dobradura que a cada tocar se desvela mais mole, sem resistências, sem atritos, acompanhados de respirações & gemidos & revirar de olhos entrecortados, igualmente sedentos como um decrépito paciente para sanar a própria fome de mastigação. A mastigação da calma. O sabor do desejo, tornando caminhos mais livres e visitas mais rígidas. Dali em diante, são dedos mergulhando. Livres e macios, dobradiços na ponta quando em profundo adentram o local familiar. E então mais carinhos e então mais carícias. E então roupas não mais nos vestem e a lembrança de qualquer cirurgia também não. E então, muito embora falar seja complicado e o inchaço na bochecha prejudique até o movimentar da língua, algumas palavras são ditas:
— É disso que tu gostas, né?
— Sim — ela responde.
E depois:
— Mas, ei. Me diz, tá tudo bem?
— Hum? O quê? Por quê? — Pergunta ela, confusa.
— Por que ficaste assim?
— Assim como?
— Assim, tão
molhadinha não é mais a gengiva inflamada e dolorida, mas a dobradura e a sala interna de acolhimento, que pulsa e estremece a cada falar prejudicado que não se priva de sair ao pé do ouvido como incentivo ou provocação, na ânsia de cobrar o que há de melhor.
Em seguida, mudam-se posições, pois, é importante lembrar, que alguém ainda possui pontos na boca e as recomendações médicas restringiam com MÁXIMA ATENÇÃO quaisquer atividades que demandassem esforço físico, levantar pesos ou movimentos bruscos. Mas diante da situação, diante do momento, não são as recomendações médicas que impediriam o movimentar de corpos quando estes ultrapassaram a linha da lógica ou do raciocínio. Diriam os naturalistas na beirada do século XX, em seus romances e em seus folhetins semanais, que o ser humano descende dos animais e que, apesar da era magnânima do Iluminismo, certos instintos e ações irracionais ainda vinham dessa natureza primitiva que não pensa, que não pondera, que não age de maneira adulta e responsável, mas que se entrega à máxima lei da natureza, que sussurra entre suspiros me fode, me fode assim, já à altura do segundo espasmos ou no terceiro tremer de pernas, consecutivos, aqueles que, desta vez e ao contrário dos três anteriores, agachados e com mãos em apoio em ombros, libera a tensão dos músculos internos e se deixa entregar a uma reação que pressiona, dilata e relaxa em um caldo quente e incessante, molhando virilhas e lençóis e deixando uma mancha invisível num colchão que já conhece tantas outras manchas invisíveis ali igualmente despejadas de outras formas que não essa, banhados pela mesma fonte.
E enquanto ela assim reage, sem entender que reação foi aquela do próprio corpo, como se nunca houvesse passado pelo mesmo, um traço de racionalidade lhe toma a mente. Um assalto instantâneo, momentâneo, passageiro:
— Não faz força, porra.
Mas é tarde.
Ela agacha e levanta. Eu inclino o quadril para cima, no ângulo específico em que consigo penetrar e, ao mesmo tempo, oscular as dobraduras mágicas, excitando tanto o lado de dentro quanto o de fora.
Ela geme.
Me aperta os ombros.
Me aperta as laterais dos braços.
Afunda as unhas e com raiva racional, conhecedora de meus detalhes, diz:
— Não tranca o dente.
— Agora fodeu.
— Sim, eu sei — Ela sorri, vendo na tragédia do estrago cirúrgico um motivo para piada oportuna. — E já tem um tempo.
— Tem sim.
Inclino, novamente, o quadril. Prolongo o movimento que aos dois pontos toca e, em seguida, pelos dois minutos próximos ou pela próxima meia-hora (o tempo era, então, uma abstração irrelevante) ela escorre de novo por entre minhas pernas, aquecida e delirante, ofegante acima de tudo e com pernas bambas, mas insistentes na conquista da exaustão, entregando-me bebida muito mais prazerosa e estimulante que os melhores grãos colhidos do gênero das Coffea.
À essa altura, eu não sinto, eu não ligo, eu pouco me fodo, mas o que penso ser a saliva descendo pela minha garganta já é um amontoado de sangue e de dor aguda, que irradia pelo maxilar e não desiste até que quem escorra seja eu, por outro ponto e em um lugar mais quente e pulsante.
— Pronto — Disse o Dr. Saulo, arrancando-me de boas lembranças. Ele já lavava as mãos na pia. Tão puto parecia estar que sequer me direcionava o olhar.
Cuspi outro amontoado de sangue na vasilha.
— Áh u-do ér-to?
— Certo? — Ele riu, incrédulo. Pareceu escutar a maior estupidez da face da Terra. — Troquei os pontos que tu arrebentaste e vou te passar outra receita.
Ele sentou na mesa e puxou uma caderneta de receituário.
— Tu vais manter o antibiótico e o analgésico. Aliás, deverias tomar a dipirona de 6h em 6h só se caso tivesses dor, mas agora — e ele sorriu, sádico —, agora com toda a certeza vais precisar tomar de 6h em 6h. Suspende a nimesulida. Vais tomar agora a Dexametasona. Não seria o ideal tomares por tanto tempo, mas como fizeste um favor de foder com a tua cirurgia, então vais tomar esse. Em uma semana volta no meu consultório pra gente ver o que faz — ele me entregou a receita. — Cospe o que tiveres pra cuspir na tua vasilha. Deixei uma gase na tua boca, tira quando chegares em casa e tenta ver se não se mata mais, porra.
— Ô-i-ga-ú, ou-ôr.
Com mais dificuldade moral do que corporal, tirei duas notas de cem reais da carteira e entreguei ao médico. Ele não agradeceu.
— Outra coisa — exigiu ele, inclinando-se, curioso.
— Im?
— O que tu fizeste?
— Uh-ê?
— O que tu fizeste pra arrebentar a merda desses pontos?
Respirei fundo. Meus maxilares doíam e a anestesia tornava a lateral esquerda do meu rosto em um balão de água cuja superfície eu sabia pertencer ao meu corpo, mas ausente de tato ou de pertencimento.
- Á-da de-ais – respondi, dando de ombros.
Dr. Saulo me olhou por algum tempo, cínico e puto.
— Se tu arrebentares essa porra de novo, nem volta mais aqui ou no meu consultório. Tá ouvindo?
— Im, ên-ôr.
Ele olhou para o relógio no celular e apontou a direção da saída.
— Ótimo. Dá o fora daqui.

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