6 de junho de 2026

De novo essa sapatão aqui?




Valham-me deuses. Sobre esta matéria conheço bem: o ego do artista. Por tempos e quase sempre, parte de minhas acusações foi, em primeira instância, clara tentativa de mirar o espelho, de apontar o dedo em riste a mim mesmo. Embora, claro, em segunda instância, meus alvos tenham recebido em maestria tudo aquilo que detectei de horrendo em mim, pois foram eles a triplicar as apostas e pôr em prática aquilo que nem eu conjecturava fazer. Meu foco sempre foi destinado aos colegas de pena que usam de palavras para mergulharem entre esbeltas pernas – o poço da glória. Portanto, minha guerra sempre foi aos ventos, raramente com alvos claros, dificilmente a nomes que seriam atingidos, pois a propagação de minhas palavras nunca cobiçou o estrelato ou a fama; almejou, senão, apenas o alarido da confissão, o exorcismo da alma. Que a minhas palavras venham os interessados. Se vierem os alvos, magnífico! Seria o brinde, mas fracassado como sou, nunca fui dado a esperanças. Só o que entendo é do ego dos escritores, não dos pintores, não dos artistas plásticos – embora, hoje, eu venha aqui me debruçar sobre ele.  

Pois, vejam: dos piores que conheci e dos melhores em serem vis e a quem dedico minhas linhas, tudo o que noto é a sublime arte de mergulhar no melaço de poços. Mesmo aqueles que não dedicam suas artes à escrita, mas ao intelecto da apreciação de arte, até neles é notório encontrar artimanha escrachada. Em um conto de autoria minha nunca publicado, contido em meu livro há muito esquecido por editora que me aceitou, porém jamais me endereçou contrato, chamado “Manual básico de como conquistar uma escritora (rsrsrs)”, Noemí Navarro é uma autora paraense em ascensão que dedica uma manhã, ao lado do marido, para ler comentários a respeito de seu livro num site que, talvez, até seja o da Amazon. O teor das resenhas curtas foi inteiramente retirado de um caso real, uma pesquisa de campo em que coletei as opiniões de homens a respeito de uma antologia de uma escritora brasileira cujos textos falavam sobre muito sexo, muita putaria e alguns “paus babando de tesão”. Percebam: esperar isso de um Rubem Fonseca, de um Bukowski ou de qualquer lixo paraense com blog referenciando a segunda geração romântica brasileira é até compreensível.

Mas de uma mulher?

De uma Pilar Quintana?

Hilda Hilst?

Natalia Nodari?

Escritoras fazerem do corpo uma via crucis?

Absurdo!

Em meu conto, todos os comentários lidos por Noemí têm a plateia e o apoio de seu marido, fazendo-o, ambos, com deboche, pois todas aquelas opiniões muito ponderadas e sagazes são tecidas por homens que julgam que Noemí escreveu um livro comunicando, ao mundo, que vive e age da mesma forma que seus personagens: com depravação e ninfomania. Para os leitores homens de sua obra, cada texto de Noemí não passa de uma autobiografia escrachada ou de um claro convite ao primeiro que amaciá-la com palavras bem rebuscadas e gramaticalmente arquitetadas. O marido da personagem, por outro lado, conquistou-a por ser o oposto disso: não faz arranjo de sentenças nem estampa intelectualidade em redes sociais; não assiste a filmes por construção de mundo ou por vaidade de moda, ele o faz porque gosta – princípio banalmente simples e primeiro da arte: ela precisa atingir o abismo desconhecido, local onde a técnica não alcança, o centro poético e não-lugar que os vampiros de Anne Rice jamais seriam capazes de atingir, pois criaturas perfeitas como o são, dominam somente a técnica, mas jamais a substância singular do talento.

Noemi Navarro ama o marido pela razão que há muito foi esquecida por aqueles que se perdem nas torres de marfim da arte. Ela não o trocaria pelo mais rebuscado dos doutores em literatura, porque não há performance no amor que vem dele, muito menos na exaustão de conquistá-la com elogios enfadonhos, resenhas profundas ou cinismos superficiais. Conquistou-a sem ego. E do ego dos escritores e dos leitores que performam intelectualismo – com o devido sufixo patológico –, disso eu sei. Mas do ego dos artistas plásticos? Bom, aventuro-me aqui pela primeira vez. Pois rinhas entre artistas, ah, isso conhecemos bem. Machado de Assis travou inimizades de Eça de Queiroz até Lima Barreto, mas todas elas foram travadas na arte, como o faço agora:

evoque seus demônios por meio de suas linhas,

por meio de seus traços,

grite-os

desta maneira, da melhor que você sabe, mas não o faça a nível pessoal ou profissional, acusando seus inimigos (ou quem você julga inimigos) de crimes horrendos, inverossímeis acusações como

 

(neste momento, o texto se torna um diálogo talvez ocorrido pessoalmente, talvez ocorrido por mensagens de texto, em suma verídicos, mas em discurso direto para o bem da dramatização destas linhas):

 

– “De novo essa sapatão aqui?” – relatou a interlocutora.

– O quê? É sério isso??

– Muito sério.

– Ela disse isso?

– Sim. Ela chegou com o Welber e relatou que tu olhaste pra ela e disseste “de novo essa sapatão aqui?”. O Welber a trouxe até mim e ela repetiu a acusação. Disse que era a segunda vez que visitava o espaço e que tu fizeste esse comentário perto dela. E fez questão de dizer que olhou pro nome no teu crachá: “FELIPE SANTIAGO”.

– Puta merda!

– [risadas incrédulas] Tô te falando. Nem eu nem o Welber acreditamos nisso. A história correu e ninguém acreditou. Achei melhor te contar só agora, depois do fim de tudo.   

 

(mais exatamente) Três dias atrás, descobri quem fez tal acusação que me perseguiu o fundo da mente por quatro meses. Quatro meses em que me descabelei em paranoias, julgando que, por um momento sequer, eu houvesse comentado qualquer coisa que fonologicamente pudesse ser confundida com tamanha atrocidade criminosa: de-novo-essa-sapatão-aqui? de-novo-com-o-sapatão-na-mão-aqui? de-novo-aceita-cartão-aqui? de-novo-com-carão-por-aqui?; quatro meses sentindo-me um lixo porque alguém por aí, com meu nome na ponta da língua, julga que eu disse tal obscenidade. Quatro meses imaginando quem, em sã consciência em Belém do Pará, poderia me odiar tanto a ponto de inventar insano absurdo.

E por quê?

Mas a resposta veio em uma mesa de bar, num comentário despretensioso de alguém que detinha a informação, mas não sabia que ela faria qualquer sentido para mim. E tal situação me traz aqui: ao ego dos artistas, ao ego da perda de batalhas que foram travadas bem antes de minha chegada, batalhas que foram perdidas pela própria acusadora para (que ironia) a própria acusadora. Quando, ao perder a mulher que julgava ser a mulher de sua vida, no terror da impossibilidade, cercou-a de todas as formas e ameaçou até suicídio. O que é engraçado, não o ato em si, é claro, pois como emo convicto e amante do ultrarromantismo brasileiro, seria hipocrisia afirmar que nunca flertei ou que nunca tentei pôr a ideia em prática. Mas o que há de cômico nesta história é que, há mais ou menos 7 ou 8 anos, publiquei neste blog a primeira versão do conto “Quando setembro acabar”, cuja narrativa aborda a reunião de três amigos que comemoram o fim (leia-se vitória) das reuniões terapêuticas em grupo. Dois deles, ex-suicidas. O personagem principal, chamado “Sem-Nome”, reflete sobre o quanto não existe honra em usar o suicídio como mera ameaça afetiva após um término ou negativa de relacionamento. Não há honra em fazê-lo, pois o assunto não deveria ser tratado como moeda de troca ou de ameaça, afinal só aqueles que tentaram e estiveram na margem do ato sabem a agonia pela qual passaram. O conto, em si, foi escrito para que tal diálogo existisse.

Não há honra em tentar,

não há honra em fazer disso ameaça sentimental,

tampouco há honra em cultivar sentimentos de vingança contra aqueles cujo único erro ou afronta foi chegar depois de sua partida ao coração que tanto, até hoje, claramente, pela acusadora é estimado e cobiçado. Não há honra em cercá-la, de longe, aproximando-se de entes queridos e tentando sempre se manter à espreita, deixando até mesmo, na primeira foto da rede social, um desenho em homenagem àquela que até hoje ama, mesmo aos olhos do mundo fazer morada em outros corações. Não há honra em demonstrações que não sejam pelo amor, não há honra em lembranças estampadas não pela saudade, mas pela obsessão, pelo claro sinal de que ainda estou aqui, obsidente, birrenta como um homem maluco à espreita da amada que não aceitou perder.

Assim como estes tantos porcos escritores que usam a escrita para comerem mulheres, não há muita honra em fazer arte para sinalizar presença obsessora. Faça arte para atacar com rigor, não para cercar com mentiras. E se for atacar, não o faça com falsas acusações de crimes.

E se ainda quiser atacar,

faça arte para o expurgo de suas dores,

faça arte para o exorcismo de suas derrotas.

Grite com talento.

Faça.

Sem mentiras.

Sem artimanhas.

Sem atos sujos e ardilosos.

Faça.

Ou nem tente.