24 de junho de 2017

Teu corpo é teu abrigo




Kiara estaciona o velho gol na frente de seu apartamento. Ela não sabe exatamente se subiu a calçada com o pneu dianteiro esquerdo, se atropelou um saco de lixo, um gatinho daqueles de rua que costumava vez ou outra alimentar ou se estava um pouco alta demais a ponto de imaginar coisas. Ela saiu do carro e por um instante sincero de consciência no meio daquele turbilhão de desistências, deu uma averiguada, mas estava sem os óculos.
Como havia dirigido até ali ela nunca teve respostas, principalmente sem as lentes para amparar o olho esquerdo com dois e meio de miopia e o olho direito com três. Havia pouco que visitara um oftalmologista, embora Kiara odiasse médicos. Averiguou uma vez mais o que supostamente atropelara e na ausência de qualquer gemido de animal machucado, deu às costas ao pequeno desastre que ela constataria na manhã seguinte, por ora, a consciência continuava limpa.
Se fosse apenas um saco de lixo, não haveria problema.
A rua estava inóspita e das janelas em volta nenhuma luz foi acesa. Todas as línguas afiadas dormiam o sono dos justos, pois tinha esse tipo de gente uma boa comunhão com a consciência, coisa que bons homens e sobretudo boas mulheres lutavam tão constantemente para conquistar. Dostoievski dizia que os mais espertos não tinham paz e que estariam condenados à danação eterna que Kiara conhecia particularmente bem. Não que ela fosse uma boa mulher ou o tipo ideal de mulher que muito provavelmente Dostoievski jamais foderia por não mais que uma noite de distração. Não que ela fosse uma boa mulher do tipo que Teodoro afirmara que não era. Inclusive, onde quer que estivesse o celular, no bolso do casaquinho jeans ou na bolsa que agora recordava ter deixado no carro, tivera vontade de pegá-lo e de ligar ao puto do Teodoro, àquela hora mesmo, gritando que
- Eu sou uma puta mesmo, seu filho da puta! E dei pra cada homem na porra daquele bar que tu tocavas.
Embora fosse mentira.
Mas se as coisas que dizem a seu respeito são sempre internalizadas e canonizadas por bocas alheias como verdades incontestavelmente absolutas, então que estivesse sacramentado o fato de Kiara ser uma puta, como bem Teodoro dissera. O problema é que Teodoro agora estava longe, fingindo desconsolo para deitar-se nos ombros e peitos e bocetas da primeira bobinha que caísse em seu papo galanteador-barato. Teodoro tivera um problema sério de polícia com a ex namorada antes de Kiara e ela lembrava o modo como ele choramingara o trauma do relacionamento abusivo e o quanto a ex o perseguira diversas vezes pela rua, pelos canteiros da cidade e pelas noites de trabalho.
Teodoro era cantor. Teodoro era uma desgraça encantadoramente atraente com aquele violãozinho nas pernas, a barbicha por fazer, os cabelos longos caídos além dos ombros, tão negros quanto as noites que dizia venerar em seus poemas baratos. Teodoro ganhou Kiara com a ladainha de que estava traumatizado demais com relacionamentos abusivos, com a ladainha de que tinha receio de entregar-se aos braços de uma nova mulher porque sua ex, a mesma com quem ele tivera um sério problema na justiça, o afetara de formas inimagináveis.
Não passava de ladainha, Kiara agora finalmente sabia. Mas era a palavra do poeta de cabelos longos e hidratados que a todos conquistava com aquele violão contra a dela, mera puta nociva e traidora que, neste exato momento, Teodoro melodicamente estaria a queixar-se com a ruiva solteira mais bonita da cidade.
Quando conheceu Teodoro e quando para ele ainda não era uma puta traidora, Kiara realmente compadeceu-se por aqueles longos cabelos, o diploma em artes na melhor universidade pública do estado e a fama de bom pau. Kiara mergulhou naquele tipo de merda porque, caso você não saiba, os tipos manipuladores são ótimos em manipular.
Já a verdade de Teodoro era suprema:
Kiara era uma puta.
Então Kiara entra no apartamento, sem nenhum olhar a espreita-la lá fora. Kiara está bêbada, fedendo a cigarros. Não há muito tempo, Kiara brigou com a mãe – foi isso o que a levou a estourar o limite do cartão de crédito com tequilas, cigarros mentolados e oito, treze doses ou uma garrafa inteira de whisky. Kiara bate a porta, dá a volta na chave e tranca a casa, pelo menos agora tem a certeza de não ser estuprada por vacilo próprio, ao menos elimina assim o peso da culpa por ter bebido e por ter dado a sagrada permissão para que a violassem. Bastavam essas culpas: bastava Teodoro e seus cabelos longos, voz rouca e melódica, bastavam suas concepções filosóficas sobre relacionamentos abertos, poliamor e mais três vertentes tântricas que no fundo só o impediam de assumir responsabilidades para com sentimentos alheios – e que asseguravam-no flertes e seduções extraconjugais com no mínimo outras três garotas, muito provavelmente fisgadas em diferentes antros culturais de Belém.
Bastavam essas culpas, porque no fundo talvez Kiara não bebera por opiniões alheias ou por ser puta para cantores espertos como Teodoro, mas porque fizera uma mulher chorar.
Kiara girava agora a chave na porta, bêbada e zonza, porque fizera a própria mãe chorar ao dizer que
- A senhora deveria ter abortado. – E com uma pausa dramática e maldosa, concluindo: – Vai se foder.
A mãe de Kiara reclamou ao dizer que
- Essa menina ainda manda eu me foder? Tá vendo como é? – Com profundas lágrimas nos olhos.
Mas Kiara sabia que em uma semana sua mãe estaria abraçando-a de volta e engolindo aquela mágoa como se nada tivesse acontecido, porque algumas mães, como a mãe de Kiara, tinham o estranho e tão divino dom da benevolência.
Ou a palavra correta seria misericórdia?
De um jeito ou de outro, Kiara agora cai no chão após girar a chave por ter feito a mãe chorar e por saber, após todos os resultados de exames médicos que a levaram à briga e à bebedeira, que dentro de três ou cinco anos estaria completamente cega. Kiara agora estava em plenos vinte e sete anos e se assombrava com o fato de parecer não ter vivido o suficiente. Você nunca parece ter vivido o suficiente – a sensação é a mesma, a forma como a você lida com ela ao longo dos anos, no entanto, é que muda. E agora Kiara bêbada no chão da sala chora por ter feito a mãe chorar e chora pelo medo que a mastiga lentamente porque em poucos anos estará completamente impotente, presa em seu próprio corpo desprovido de visão e de autonomia.
Kiara não revelou a nenhum de seus amigos e não quer explicar porque tão abruptamente afastou-se deles, mas os resultados dos exames que levaram à briga com a mãe e à bebedeira em plena quarta-feira à noite, indicavam um nome bonito e bem articulado:
Edema
Macular
causado
por
Retinopatia
Diabética.
Em termos práticos, diretos e precisos, isso significava que algo fora detectado nos nervos de suas córneas e o máximo que haveria de ser feito, nos próximos anos, seria a tentativa de desacelerar o processo.
Não havia cura.
Ah, Kiara era diabética.
Kiara era diabética e esteve nos últimos anos envolvendo as cordas no pescoço por razões que já não importavam menções, explicações ou desperdícios de tempo e ouvidos. O que fora feito, fora feito – em cada litro de refrigerante com açúcar ingerido, em cada garrafa de cerveja consumida, em cada bolo, docinho ou toneladas de comida mastigadas e em cada cigarro fumado. Kiara sempre achou que o coração a mataria – a internet até mesmo dizia que os riscos de ataque cardíaco para fumantes diabéticos aumentavam em 25%. Ou 50%. Ou seriam 75%?
Ela até julgou romântico que
- Ser morta pelo coração? – E dava de ombros. – Que ironia.
Eram seus demônios sempre profetizados e invocados por si mesma finalmente alcançando-a, finalmente manifestando-se e perseguindo-a logo atrás na estrada, à vista do retrovisor.
Kiara sempre soube que terminaria por suas próprias mãos e assassinada por seu próprio corpo,
só não esperava que fosse logo,
só não esperava que fosse desse jeito: tão gradual e degradante, primeiro arrancando-a o direito de enxergar, depois arrancando-a o direito de expelir as sujeiras pela urina e por consequência impedindo os rins de funcionarem, depois impedindo-a de caminhar sobre as próprias pernas e no dia seguinte, quem sabe coisa pior.
Kiara achara, por longos anos, que a morte viria num estalo (como em um ataque fulminante de coração... ora, que irônico), não numa lenta e vergonhosa debilitação de corpo, mente e alma. Por isso Kiara bebia. Por isso Kiara bebera todo fim de semana, incessantemente, nos últimos cinco anos (desde que aquela aventura insana com Teo começara). Por isso ofegava a cada caminhada longa e por isso nunca ficava mais do que um minuto inteiro cavalgando nos poucos bons paus que encontrava, porque não tinha fôlego para aquela merda; por isso Kiara abria as pernas feito a puta que Teodoro e seus poemas melódicos, bem montados, bem espaçados de palavras reunidas e trocadilhos bem feitos diziam que ela era. Kiara não aguentava o ritmo, mas ninguém ligava porque homens nunca percebem esse tipo de coisa:
quando estão eles dentro de suas pernas e quando julgam eles que seja você uma puta como um poema famoso de um cantor de boteco disse que seja, então eles não ligam. Quando já estão dentro de você, homens não se importam com nada,
não se importam se metem bem
não se importam se estão com as jubas pubianas aparadas
não se importam com seus cus cabeludos
não se importam se nunca trocam de posição
não se importam em pelo menos retribuir o oral
não se importam onde está a porra do clitóris (clit... clitoquê?) e
não se importam
principalmente
se aqueles manjoloso grossos, tortos, fedorentos e colossais estão machucando a porra do seu útero.
Kiara era uma puta, como bem dissera Teodoro em suas letras bem compostas em baixo das sombras do Horto e com um beck na boca e uma dúzia de admiradoras laricadas que acreditavam nos poemas bem montados de Teodoro.
Kiara era uma puta e não tinha o direito de reclamar, por isso só abria as pernas e se entregava. Se a verdade era composta daquilo que metade da cidade sussurrava, então quem seria Kiara a fim de contestar?
Defender a própria imagem era nos dias de hoje ato sumariamente negado, majoritariamente condenável e inexoravelmente pecaminoso.
Por isso Kiara chorava – muito mais por ter mandado a mãe se foder e por saber que havia um
Edema
Macular
causado
por
Retinopatia
Diabética
Consumindo suas retinas e em alguns anos consumindo toda sua vida.
Por isso Kiara se levanta e vai até o armário da cozinha. Por isso Kiara abre o vinho que guardara para as festas de fim de ano e no meio de Abril abre a garrafa e vira direto do gargalo. Kiara vira a garrafa a primeira vez, a segunda vez, a terceira vez e na quarta, trôpega pela própria sala, põe tudo para fora como um bebê descontrolado afogando-se nos últimos instantes de vida num refluxo que a mãe só saberá no dia seguinte, quando encontra-lo roxo e inchado dentro do berço.
Kiara vomita e pragueja por desperdiçar tanto vinho.
Ela tira a roupa e fica só de calcinha, cai no sofá e apaga.
Quando acorda no dia seguinte, com o Sol de Belém queimando as paredes da casa fechada e abafando-a num calor miserável, Kiara abre os olhos com a cabeça dando pontadas e ensopada de suor. A boca está seca e ainda há um pedaço de qualquer coisa no canto dos lábios.
Tudo bem, Kiara era uma puta como Teodoro havia dito e como metade da cidade a condenara.
Certo, tudo bem. Você aceita o que dizem e internaliza, de um jeito ou de outro.
Kiara se senta na beira do sofá e sente aquele cheiro insuportável que lembrava o cheiro que os salgadinhos de queijo deixavam na ponta dos dedos sujos e gordurosos. Aquele cheiro insuportável de vômito seco e duro preso ao chão da sala. Ela levanta e sente a barriga doer, roncar e embrulhar-se de fome, gases e cólica.
Kiara vai até os fundos da casa e enche um balde de água, apanha alguns panos, uma vassoura, água sanitária e detergente. No caminho de volta toma dois comprimidos de Neosaldina e dois de Xantínon. Meio litro de água em um só gole e as habituais dosagens de insulina, uma em cada perna. Kiara põe os materiais de limpeza na sala e abre as janelas.
Sente a barriga reclamar novamente, mas precisa primeiro limpar as lembranças do dia anterior.
Ao encarar aquela coisa pastosa no chão, só de calcinha e com os cabelos presos e alguns fios grudados na testa e nas têmporas devido ao calor, Kiara ri das palavras que sua avó sempre a alertava, quando dizia que:
- Teu corpo é teu abrigo, minha filha.
E Kiara continua a rir, mas não muito forte, senão a cabeça vai doer mais.
A voz da avó ecoa em sua mente e
Kiara, com vassoura e balde na mão, olha outra vez em direção ao vômito.
Pois é,
teu corpo é teu abrigo, minha filha.
Teu corpo é teu abrigo.




 

15 de junho de 2017

Os absurdos que vão parar na sua caixa de entrada




É uma boa segunda-feira ensolarada de Março e o sol entra pela casa de uma maneira singularmente acolhedora, dessas que você não presencia com frequência. Talvez seja o meu humor, talvez sejam as circunstâncias da minha vida: o ritmo de trabalho puramente feito em casa, a conta agraciada no banco e minha vila recém-atualizada para o nível doze no joguinho de celular. Juliette costumava dizer que aos trinta anos aquilo não deveria mais ser uma atividade diária, mas eu não deveria levar a sério alguém que aos trinta e dois tinha como hobbie sair pelas ruas da cidade caçando demônios de bolso japoneses e coloridos.
Minha xícara de café fumegante expele uma fumaça exótica, rodopiante, que sobe diante de meus olhos e na frente das letras na tela quase me hipnotizando, abobalhando-me tão massivamente que sinto escorrer por entre os lábios um filete de baba. Ou seria bílis?
Batuco os dedos sobre o teclado. A caixa de texto está aberta, a resposta, há pouco enviada, mas por puro impressionismo continuo a ler o email recebido. Sinto uma veia na testa pulsar, agora definitivamente o filete de baba escorre... Melhor dizendo, o filete de bílis escorre. Alguns absurdos são em demasiado abusivos para as noves e trinta e sete de uma outrora bela manhã de segunda-feira.
O desktop fica na sala de estar. As janelas corrediças estão abertas, o cacto que não sei o porquê ainda mantenho vivo está radiante e por sorte não há nenhum gato andando pela casa para pedir comida e fazer bagunça numa caixa de areia cheia de merda e mijo que eu certamente teria preguiça de limpar. Às vezes, desconfiava ter herdado o ódio por gatos de minha mãe, às vezes tinha certeza, mas havia algo irritante neles que me impedia de querer amá-los. Talvez fosse a petulância, talvez fosse aquele ar de desdém desgraçado que eu não precisava em um animal que supostamente deveria me amar e por mim ser amado – alguns relacionamentos anteriores problemáticos já eram mais do que suficientes para isso.
Ainda assim, a merda dos bichanos federia tanto quanto àquele e-mail?
Pouco provável.
Sorvo uma quantidade quase irrisória do café na minha xícara, o gosto biliar na minha boca já quase não permite que coisa alguma toque a língua. Mais alguns segundos relendo a mensagem e eu juro que vomitaria sobre o teclado.
- Bom dia. – Juliette diz atrás de mim, colocando ambas as mãos sobre os meus ombros e fungando levemente o topo da minha cabeça. Ela afaga a ponta do nariz por entre meus cabelos e eu quase, quase faço um movimento manhoso, mas seria automático e robótico demais, sem a menor dedicação.
Engulo em seco e viro o rosto para encará-la. Ela ainda está descalça, apenas com a calcinha do dia anterior e os cabelos desarrumados, o hálito meio mentolado devido ao Black verde que costuma fumar e outras coisas mais que eventualmente foram parar na boca dela. A minha também estaria assim, caso o café não tivesse borrado os bons sabores expelidos pelo corpo humano feminino. Os bicos dos peitos estavam eriçados ao seu modo natural, o que quase sempre me chamava para mais um beijo seguido de uma chupada e para mais uma chupada seguida de lá vamos nós de novo.
- Tá tudo bem? – Ela esfregou os olhos por sobre meus ombros. Sem os óculos e com a visão embaçada depois de acordar, Juliette não funcionava.
- Oh, perfeito. 
Ela mordiscou minha orelha com uma risadinha desanimada e caiu para trás, jogada no sofá.
- Que que foi agora, Bernardo?
- Dá pra acreditar nisso? – Apontei para a tela do computador.
- Me atualiza.
- Adivinha quem me enviou um email.
- O pessoal da gráfica?
- Não.
- O pessoal da editora?
- Não.
- Merda, O Editor em pessoa?
- Porra, antes fosse. – Mais café. Um leve arroto e outro xingamento sussurrado entre as palavras. – Um ultimato pseudo-polido pedindo para que eu apague textos ou modifique textos da porra do meu site. Dá pra acreditar?
- O quê? De quem? – Juliette levantou-se num instante.
- Adivinha, cacete.
- Espera. Quais textos?
- Os chutando o balde.
- Ah! Espera aí. – Ela estala os dedos e volta para o quarto. Um segundo depois, está de volta com os óculos na cara e novamente sobre meus ombros, debruçando-se como uma fofoqueira para ler.
- É um e-mail da sua ex louca?! – Aquilo mal pareceu uma pergunta. Ela riu outra vez, mas um pouco mais nervosa e indignada. Soltou alguns palavrões que muito bem poderiam ter saído da minha boca. – Caralho, Bê. Essa mina perdeu a cabeça.
- Foi o que eu disse.
- Ela tá surtada?
- E ninguém acreditou. – Completei.
Juliette gargalhou de novo e continuou do meu lado, dessa vez, ajoelhou-se no chão e ficou de coluna reta, segurou o mouse e releu poucas linhas do que estava escrito.
- Espera aí, ela não ficou noiva três dias depois que vocês se deixaram?
- Algo assim.
- Esse pessoal é rápido. – Outro xingamento, outra rolada na página. – Então ela já não estava em paz com tudo?
- Eu pensei que sim.
- Isso faz tempo e esses textos são antigos, o que ela quer contigo?
- Vai saber.
- E o processo que ela jogou contra você?
- Quitei minhas dívidas com a lei, senhora. – Dei de ombros e dei outra sorvida no café.
- Então que porra ela quer?
Nos entreolhamos, indignados. Nesse instante, Juliette voltou ao sofá e se jogou novamente, cruzando as pernas magras e branquelas e também os braços na altura dos peitos. Eu sabia que apesar da risada que imediatamente fazia questão de exibir para irritar meus nervos aos pedaços, também mantinha dentro de si uma indignação titânica que fazia questão de manter em segredo.
- Ela fala que respeita sua liberdade poética, mas te “pediu” para que excluísse ou até modificasse os textos. Modificar? – Juliette pronunciou a palavra como se fosse um cuspe. Como se fosse eu cuspindo.
- Blasfêmia. Isso é blasfêmia contra os textos. – Risadinha nervosa.
Veia pulsando.
- Não peça que um asno compreenda os ofícios da garça, jovem gafanhoto. – Ela usou alguma referência que nunca fui capaz de compreender. Ou talvez fosse puramente autoral.
-  Ou que a gazela compreenda os deveres da abelha. – Completei aleatoriamente e na sorte.
Juliette limitou-se a assentir.
É, era autoral.
- Ela te fodeu por aí, você chutou o balde pra se defender e agora é obrigado a excluir tudo?! O que vai fazer? Os seus textos? Do seu site? – Pausas enfáticas no pronome possessivo. 
- Eu já fiz.
- O que você fez?
- Respondi que apagaria.
- Porra, cê tá maluco?
- Eu só não quero mais confusão nem problemas com a lei.
- Ela vai ter vantagem de novo sobre ti?
- É isso ou outro processo.
Silêncio.
Tomei mais um pouco de café e encarei uma última vez o e-mail abusivo aberto diante de mim. O mais irônico na história inteira era o quão petulante ele conseguia ser ao tentar me dar uma lição sobre liberdade poética e ao mesmo tempo pedindo-me para modificar o texto, de igual modo como Hollywood fazia com seus filmes regravados às vésperas do lançamento; o mais irônico na história inteira era o quão petulante o e-mail conseguia ser com sua falsa polidez e desdenhosa elegância e educação.
“Você tem sua liberdade poética, mas...
Mas...”
Nunca peça aos pombos que compreendam as regras do xadrez.
- Você já excluiu?
- Por que acha que pareço tão abatido?
- Por que não responde mandando ela tomar no cu?
- Isso é com vocês, geminianos.
Juliette gargalhou e concordou.
- Por que não escreve uma resposta? Outro texto ácido? Ninguém precisa saber que é para ela...
- Todos acham que é para ela. Principalmente quando não é.
- E agora?
- E agora? – Rebati, mais por ironia do que por concordar com a ideia de retribuição. Eu só queria me manter longe de confusões e dos braços injustos da lei.
- Vai deixar desse jeito?
- Vou.
- Voltar para o trabalho e cumprir com os prazos da editora?
- De volta ao dever de casa, sim. – Dei de ombros, indignado,  mas com o sangue já circulando pelo cérebro.
- Ah, mas nem fodendo.
Juliette levantou do sofá e ainda com aquele par de peitos pequenos e pontudos colocou-se ao meu lado, dessa vez em pé, reassumindo o controle do mouse e minimizando a janela do email. Abriu uma página simples e em branco do Word e apontou para ela com veemência.
- Você é um escritor. Escreva sobre isso. Agora.
- Vou ganhar outro processo.
- Desde quando ficou tão cuzão? Escreva. – E clicou, fazendo a barrinha pulsar com o mesmo ritmo de um coração tranquilo e livre de processos, ex malucas ou caixas de entrada estupradas com pedidos abusivos. – Escreva. Foda-se. É ficção, ninguém vai acreditar.
- Você quem pensa.
- Ninguém vai saber.
- Jura?
- Qual que é a intenção mesmo?
Um minuto de silêncio sugestivo.
E aí nós dois sorrimos, sádicos e diabólicos, um para o outro.
Por isso eu amava o jeito que a mente de Juliette funcionava e também amava o jeito como ela me contaminava com as boas ideias sempre que eu dava uma de maricas.
- Então sobre o que eu escrevo?
- Você é o escritor, Bernardo. Pense.
- Humm.
- Meu Deus, cê é lento ou o quê? – E então começou a digitar até que as palavras ganharam forma, um título.
- “OS ABSURDOS QUE VÃO PARAR NO SEU E-MAIL?”.
- Se quiser tentar modificações no título, esteja à vontade. A licença poética é sua. – Debochou.
Nós dois rimos.
- E sobre o que vai ser a história? – Perguntei.
- Sobre um escritor que recebe um e-mail da ex-namorada maluca que tá exigindo abusivamente que ele apague tudo o que escreveu sobre ela, até as coisas verdadeiras. Mas ele não pode escrever diretamente, então esse escritor senta e escreve sobre um escritor que recebeu um e-mail da ex-namorada maluca.
- Convincente.
- Na verdade, eficiente, jovem gafanhoto. 
- Divinamente metalinguístico.
- Exato.
Empregou-me um beijo no topo da cabeça e recolheu a xícara, fazendo questão de terminar o resto de café que sobrara nela.
Olhei para trás enquanto Juliette caminhava só de calcinha até a cozinha. Sexo entre amigos continuava sendo a melhor pedida para se iniciar as segundas-feiras de Março, não e-mails como aquele.
E-mails como aquele não.
Que se fodessem os e-mails como aquele.
Mordi o lábio e comecei a escrever.



9 de junho de 2017

Meus olhos me pregaram uma peça, meu bem



Meus olhos me pregaram uma peça, meu bem.
E eu não sei quanto tempo tenho.
Onde quer que esteja, espero que esteja em algum lugar, vindo um dia até mim ou não. Eu nem sequer sei se você existe, se você um dia existiu, se você ainda vive ou se está prestes a nascer. Talvez um dia venha a mim somente com um par de mãos e dedos carinhosos, sejam macios ou não, sejam românticos ou não, sinceramente pouco importa. Talvez um dia venha a mim com uma voz mansa, suave, dessas que pertencem a pessoas que eu realmente admiro: pessoas que sabem lidar com o tempo corrido que os últimos anos têm levado de nossas vidas; pessoas que sabem aproveitar os segundos de carícia; people who enjoy the silence; pessoas que andam devagar, embora nunca tenham possuído a pressa que Almir Sater rechaçou. Talvez um dia venha a mim quando toda essa escuridão tomar conta de meus olhos, quando no futuro esta coisa aqui dentro tiver avançado e tiver me negado o direito de ver o teu rosto que eu espero um dia ver. Eu não sei teu nome, eu não sei a cor dos teus olhos, eu espero um dia ver teus cabelos, mesmo eles sendo uma sombra distorcida no meio da clareza que gradativamente vai me faltar. Espero ter os ouvidos para ouvir tua voz, espero ter o tato para sentir tua pele e espero ter o olfato para sentir o teu cheiro. Espero ter o paladar para provar-te o meio das pernas ou o calor da língua. Espero que você chegue por aqui, durante esses dias, antes que toda a recém-descoberta cegueira patológica consuma minhas córneas e me acorrente para sempre na escuridão que eu sempre soube que viria, porém não desse jeito tão literal e maligno.
Não há muito tempo dobrei-me às súplicas gerais e iniciei uma jornada sem volta pelas graças de How i Met Your Mother.
Eu acho Ted Mosby um idiota, embora metade dos meus amigos classifiquem-me como ele. O idiota é um idiota, mas um idiota com razão. No fim, é Ted Mosby quem detém o verdadeiro segredo; no fim, é Ted Mosby quem tenho sido nos últimos anos escrevendo todas estas palavras na aparente vã busca de alguém que nunca chegou e que eu sempre soube disso, lá no fundo – o segredo é que você não cai na ilusão de ter encontrado o alguém certo, nunca foi a minha posição, na verdade você só aceita o que tem e aproveita enquanto houver tempo. As palavras escatológicas e dedicadas que escrevi até hoje, seja a qualquer mulher que tenha sido, não foram a ilusão de ter encontrado O Destino, foram apenas minha resignação de aproveitar o que me foi dado pelo tempo (contado) que eu sabia que me fora dado.
Assim como Ted, no entanto, eu ainda aguardo por aqui. Em alguns anos talvez esta cegueira patológica já tenha me consumido, só me restam agora todo os exames médicos complexos e toda a consagrada e indiferente avaliação da máfia branca para ter certeza.
Espero que você chegue por aqui antes da conclusão desta Tragédia sem volta, ao bom e velho estilo grego.
Seja quem você for, exista onde existir, eu só quero um pouco de paz e de silêncio, não quero mais estas palavras sobre pessoas que não são o que quero ou que nunca foram o que preciso, não quero mais estas palavras, porque words are very, very unnecessary.
They can only do harm, meu bem.
Meus olhos estão me pregando uma peça
e eu só quero enxergar o teu rosto.



31 de maio de 2017

Um comunicado sobre este blog



Escrevo este aviso às três da manhã. Estou bêbado e acho que por isso tenho a coragem de escrevê-lo. Ele não é poético nem vingativamente poético, ele é um esclarecimento, algo que eu necessito fazer antes de concluir o que planejo.
Então vamos lá.
O Noite na Taverna possui quase sete anos e é uma trajetória aparentemente curta, mas repleta de intensidade. Sinto como se tivesse vivido várias vidas aqui, e de fato vivi: fui muitos Felipes, alguns verdadeiros, outros nem tanto – a maioria deles, mero fingimento para chocar o mundo e chocar apenas poucas pessoas ou poucos nomes. Certa vez, descrevi um estupro. Isso nunca aconteceu. Outra vez, me comparei a Deus – meu ego não é tão grande assim, não para tal comparação, tampouco a autoestima. Isso também não foi de todo verdadeiro. Mas você emprega algo de si mesmo na mais profunda invenção, você entrega um sentimento, mesmo quando cria uma cena que nunca vivenciou, observou ou planejou. Não há alguém que escreva e que não possua coração, mesmo quando mente, mesmo quando cria a mais absoluta obra abstrata ou inovadora. Não há muito tempo, alguém me disse que “Felipe, a tua alma transborda. É por isso que escreves”.
Na época, questionei-me: será?
Na Universidade de Letras vieram os maiores conflitos: questionei o teor de meus atos, questionei o teor daquilo que desde os doze anos de idade comecei a praticar e que anos depois descobri que poderia ser utilizado tanto como profissão, quanto necessidade para a e da alma. Depois descobri que era salvação. Questionei, na Universidade, se o que eu fazia era certo. Veja bem, em meio a tantos escritores pomposos que deixaram seus marcos na história e em meio a tantos escritores escrevendo histórias de merda e besteiróis alá Como Ser Um Youtuber de Sucesso em 5 Passos (ou 5 Minutos), perguntei-me se o que eu fazia neste blog era de alguma forma relevante. Teria eu, alguma vez, motivado ou desmotivado alguém? Teria eu, alguma vez, feito chorar ou rir? Teria eu, alguma vez, feito alguém gravar na memória um trecho, um diálogo ou uma narrativa?
Na Universidade aprendemos coisas demais, principalmente o que é e o que não é. Aprendemos com seres críticos o teor tão pesado da crítica que tornamo-nos, nós mesmos, os críticos sádicos e impiedosos que ditam o que é arte e o que não é arte, quem é um bom escritor e quem não o é. Não que eu detenha essas respostas, julgo que ninguém a detém – eles só acham que possuem a resposta, é o que se ganha do mundo com alguns títulos importantes antes do nome de batismo, como “Mestre”, “Doutor” ou “PHd”.
Até hoje, no entanto, questiono-me e consumo-me.
Até hoje, sei que há por aí aqueles que cospem em meu nome ou dele fazem muxoxo nocivo na boca.
A maioria, no entanto, nem sabe quem sou.
Ótimo.  
Nesse ínterim, ponho-me apenas a escrever – seja arte, seja desabafo ou seja inutilidade, como bem eles dizem.   
Por essas razões e por tantas outras que não merecem menções, eu quis parar. No entanto alguns hábitos são desgraçados, viciosos. Escrevo desde os dozes anos, mas já escrevia antes: talvez desde os sete, desde os oito, com certeza desde os nove, quando utilizava meus cadernos de colégio para escrever o que seriam, na época, roteiros de filmes (embora eu nem soubesse o que era um roteiro). “Monstros da Casa Branca” foi o primeiro. Histórinha patética, admito. Admito também que todas elas foram idiotas, porém se não fosse por cada um desses particulares desastres, as boas histórias jamais tomariam forma. Aos doze anos, quando estabeleci de fato o que que faria e o que seria, escrevi aquela história que, confesso, ainda tenho planos (não citarei o nome dela, talvez um dia). Aos doze anos de idade, foram 150 páginas – muito mais do que o TCC que serei com esforço obrigado a parir e muito mais do que consigo escrever hoje, ironicamente.
Aos quinze anos, quando era eu apenas um estudante estranho e sem qualquer identidade própria em um colégio que me era torturante, escrevi mais 100 páginas de outra história que, atualmente, me é e me está mais acessível a planos futuros. De lá para cá, foram tantas, pequenas e grandes, superficiais ou não, patéticas ou não – “Patrisck”, recentemente “House of Wolves” e a maior de todas: Cemetery Drive.
É por Cemetery Drive e por este blog que escrevo estas palavras. Bukowski diversas vezes repete ao longo de sua obra que escrevia para não perder a sanidade, porque escrever era tudo o que ele possuía. Escrever, para quem o faz com frequência e o faz com a porra da alma, é algo que eu jamais serei capaz de explicar e nem estou interessado em fazê-lo aqui. Para quem ama desempenhar qualquer atividade de cunho artístico ou não, bem, escrever é parecido. Por diversas vezes eu quis parar e ser alguém normal que lida com os problemas e os resolve, que vive apaticamente, que vive tranquilamente sem um hobbie artístico qualquer – vai na bola aos fins de semana, joga seus jogos online, assiste suas séries, animes, documentários, pornografias, doramas, novelas, missas ao vivo ou reality shows de comida. Tem gente que aos domingos frequenta o reggae, nos dias de semana vai à aula ou ao trabalho e repete tudo de novo. Tem gente que paga contas, atura problemas familiares, tenta superar um trauma de infância, luta contra uma doença, controla a pressão, vai à academia, cuida do diabetes, faz tratamento contra acnes, cuida das hemorroidas etc, etc, etc.
E tem gente que escreve.
Tem gente que não consegue viver completamente são sem o hábito da escrita. Para quem escreve desde os doze anos de idade, eu posso dizer alguma coisa sobre entender o que Charles Bukowski queria dizer. Notei isso quando por diversas vezes desejei parar, quando por diversas vezes diminuíram o que eu fazia e relegaram a hábitos torpes, infantis e inúteis. Eu desejei parar – algumas vezes eu até quase inteiramente desisti do blog. Tudo em vão. Eu sempre voltava e fazia tudo de novo, não porque queria atenção ou porque estava fazendo drama – eu realmente tentei findar tudo. Mas, novamente, eu entendo Charles Bukowski: o ato de escrever era natural, mais até mesmo do que sexo ou mais até mesmo do que a própria necessidade de sexo. Pois sem uma boceta eu vivo por meses ou por anos.
Sem escrever, eu não duro um mês.
(Não que eu não goste de bocetas, inclusive amo para caralho).
Portanto, parar nunca foi uma opção vitoriosa.
Algumas etapas, no entanto, precisam passar adiante.
Às vésperas de completar sete anos de idade, vejo que o Noite na Taverna perde seu propósito. Escrever é uma prática dolorosa, a arte é uma prática dolorosa se ninguém está olhando. Uma peça de teatro não funciona sem plateia, um filme não vinga sem espectadores e uma melodia não é apreciada sem ouvidos para ouvi-la. Com a escrita é o mesmo, e embora haja situações ou momentos em que os leitores existam, ainda é um ato extremamente solitário sentar todas as vezes aqui diante dessa tela em branco ou diante das folhas vazias. Ainda é um ato solitário matutar, sozinho, dentro de um ônibus, de uma aula tediosa, de uma noite insone, de um mero momento na calorosa casa da avó ao tomar café da tarde, de um caloroso instante beijando uma boca tão desejada ou deliciando-se em aromas de shampoos de c.; até mesmo cagando você é capaz de criar e fantasiar. Porque no fim, ninguém está realmente olhando, admirando ou compreendendo; porque no fim, não há um abraço de conforto ou trabalho em grupo – ninguém para dar suporte, apoio ou fazer por você a não ser você mesmo para se suportar, para se apoiar ou para fazer por si mesmo. Trabalhar com a escrita e, portanto, trabalhar com interpretação é uma faca de dois gumes onde, invariavelmente, a interpretação errada será em suma a versão definitiva.
Uma vez escrevi que ninguém ouvia. Continua a ser verdade.
É um ato solitário e que é causa de insanidade, de doença, de consumação e, ao mesmo tempo, de cura.
Sobretudo a cura.
Eu jamais vou parar de escrever. É como diz a escritora e poeta Aline Bei em seu poema “tentativa n.5”:

[...]
você continua escrevendo?
-Claro.

(essa pergunta sempre me ofendia.
como pode alguém pensar que eu não estou escrevendo? por acaso não fica evidente? o quanto a escrita é tudo o que tenho)
[...]

Aline Bei certamente também entende Charles Bukowski – e o velho Buk certamente entenderia Aline Bei.
 Por isso, o Noite na Taverna se encerra este ano. Prometo várias postagens até o fim, serão estes os suspiros finais.
Das míseras e patéticas obras que iniciei, Cemetery Drive, por paixão e respeito ao (pequeno) público e por aqueles velhos amigos que se entusiasmavam com Robert e com Ian,  será a única pequeníssima e quase irrelevante história que findarei por aqui.
Bom, algumas coisas vão abaixo, caem por terra de uma maneira não tão gloriosa.
Espero que entendam isso nas decisões que tomarei para com determinados personagens.
Gravem isso.
Joseph Campbell, famoso mitólogo que em muitos textos já citei aqui, fez-me compreender através de sua imensa e inesgotável sabedoria deixada em um legado de livros, documentários, outros estudiosos e fãs, que é a trajetória que há sempre de valer a pena. Não o fim que você chega ou a forma que este fim chega, mas o caminho que você trilhou até ele. Pois um herói (e não estou me comparando ao herói, mas à metáfora do caminho que ele trilha) não se torna um herói no estágio final de sua jornada, e sim no caminho que percorreu até lá, começando no exato instante em que atendeu ao Chamado da Aventura.
Eu atendi ao meu chamado naquele Julho de 2006 ou talvez tenha atendido ao chamado muito antes.
O Noite na Taverna foi grandioso à sua própria maneira – ele amou, ele odiou, ele pisou, ele se injustiçou e fez escárnio dessas injustiças.
Foi-me útil e a mim será inesquecível. Através dele minha escrita evoluiu drasticamente, através dele eu experimentei estilos, eu descobri maneiras, eu aperfeiçoei meu tato linguístico – não em meio aos conhecimentos livrescos de homens mortos e velhos calcificados que a tudo fingem entender. É um alívio saber e é importante avisar, aos interessados e desajustados como eu, que para fazer arte ou fazer aquilo que se ama, independe a necessidade de diplomas ou títulos.
           Talento e esforço são adquiridos com prática, não com status.
Obrigado a cada um que fez parte deste percurso em menor ou maior grau; da pior ou da melhor forma.
Obrigado, de verdade, a todos que foram, vieram ou ficaram.
Obrigado do fundo do meu (sempre) miserável coração.




Felipe Santiago,
Abril de 2017.   


27 de maio de 2017

Assim disse o cowboy



Tem sido mais recorrente: a priori angustiador, mas paradoxalmente apaziguador ao fim da madrugada.
O sol raia lá fora e finalmente meus olhos pesam, eu durmo porque não resta mais nada a ser feito – as páginas estão preenchidas: duas, três, quatro, cinco e um conto à parte. Contos inúteis que, percebo, um dia em uma tarde ensolarada quando todos os futuros anos tiveram corrido, talvez eu até jogue pela janela. Vai saber? A madrugada passou como tantas outras e como cada uma tem sido. A princípio a angústia, você se sente como Caetano com aquelas perninhas cruzadas e o violão no colo; você se torna Peninha no instante de composição de Sozinho. Então tudo vem à tona. “Essa música me lembra alguém”, você nota; sorrisinho de delicados lábios e cabelos castanhos. Ela deixou uma boa lembrança.
Porém estas palavras não são sobre mulher alguma; estas palavras não são sobre partidas, dores ou amores.
Estas palavras são sobre resignação.
E planos.
Então abro o que quer que esteja ao meu alcance: cerveja, vinho, catuaba ou whisky. Acendo um cigarro. Já é Maio e tem chovido temporais nesta cidade e as noites estão frias, agora gélidas como cantou Djavan. Abro um livro. Leio duas páginas, canso-me e volto a escrever coisas que já questiono o caráter, acho que estou verdadeiramente perdendo o swing ou talvez o talento, muito provavelmente o propósito. O que brota nestas páginas que redijo não é nada pessoal, não é nada vingativo, não é nada apelativo, dramático ou irônico – nem mesmo as palavras de escárnio têm sido frequentes, pois já não há muito o que maldizer, já não possui tanta graça, pois no fim da jornada estarei sempre perdendo a batalha. Sarcasmo já não é uma arma eficaz, embora eu e alguns bons companheiros de batalha continuemos nos divertindo das piadas. Nossos inimigos estão lá fora, gargalhando e vencendo a guerra (“a história é contada pelos vitoriosos”, alguém disse), portanto não há muito o que se ironizar ultimamente.
Cada madrugada diante deste teclado e da recente typewriter adquirida com orgulho em três parcelas na camaradagem já pouco possuem algum valor. Eu vejo inúmeras pessoas lendo o que é escrito, mas não é como se houvesse qualquer fervor por trás disso, não é como se houvesse qualquer resposta ou feedback, como tão moderno e descolado soa na boca dos jovens, velhos e todos desta geração.
Os bons termos e tempos estão ficando para trás.
Analogismo é lembrança.
Ser analógico virou piada.
E este dom é inútil. Antigos nomes sutilmente me disseram isso. Antigos nomes estavam corretos. Antigos nomes tornaram-se vitoriosos. Já eu permaneço aqui, iniciando noites com álcool e Caetano alguns arranjos, alguns parágrafos, alguns tragos, lágrimas vez ou outra, mas sempre, sempre, derradeiramente, terminando com um sorriso na eterna montanha russa escatológica de sentimentos. Tem noites que é preciso colocar alguns sentimentos mal digeridos para fora, você o faz, faz com sinceridade e sente-se aliviado. É a parte “paradoxalmente apaziguadora” à qual me referi na primeira linha. Todo sentimento tísico vomitado é seguido, necessariamente, de uma sensação relaxante de futuro bom e incerto. Nesse panorama estranho, a escrita tem ficado para trás, frequente, sim, mas totalitariamente solitária, sem recompensas felizes, físicas ou financeiras. Foi em uma noite assim que brotou o plano, o tão famigerado plano que um dia foi proferido com lástima e dor, mas hoje surge de forma resignada, conformada e necessária. As escolhas que estão por vir fazem-se necessárias e as decisões, derradeiras. Ciclos precisam ser fechados e alcunhas apagadas, definitivamente. Acho que antigos nomes estavam corretos: isso não é um dom, é inutilidade. Futilidade. A pior parte nisso tudo é que o pensamento não me assombra, nem tampouco me aflige, não como antes; pois é preciso dar o braço a torcer, respirar fundo e aceitar certas coisas como são.
Estas palavras são sobre resignação”, sonhadores fracassados devem ter escrito por aí em algum lugar no tempo e nas ruínas.
Whatever happens, happens,
disse o cowboy.