17 de novembro de 2018

Tecer partidas





Tecer partidas é sempre tão complicado, é de dar nó no ralo fio da paciência. Escrever sobre partidas é como esmiuçar um final agradável para uma boa história: você conduz com o melhor gingado que tiver nas mãos, ensaia cenas, melhora saídas, pensa em um diálogo ou outro e deixa que o resto digam os personagens. Faz tudo bonitinho ou pelo menos tenta fazê-lo. E aí chega ao final. Na maior parte do tempo ele já está idealizado. Às vezes, particularmente falando, apenas inicio uma jornada em função do final, quando já o tenho em mente antes mesmo do corpus. Geralmente é uma cena planejada, talvez um diálogo ou uma frase de efeito. Por vezes é apenas a intenção da cena, do sentido, da alegoria, da crítica canalha ou da metáfora escondida. O início é a parte do texto em que mais mexo e remexo: odeio começar, é sempre uma bagunça. O meio e as lacunas são a aventura, são o texto falando por si, são o fluxo de ideias e o bailar dos dedos que, após a dança, revejo, conserto e volto a ensaiar para melhorar e para redescobrir novos passos.
Então, chego lá.
Chego?
Finais são difíceis porque você corre o risco de terminá-los banalmente, sem mais nem menos. Ao estilo Stephen King – e haverá aqueles que detestarão. Ou pode torná-los epicamente engraçados e debochados, com um escrachado dane-se, tudo na última linha.
Por hábito, encurto as frases e utilizo-as uma por vez.
Uma por parágrafo.
E aí caboom!
E aí caboom! para estas partidas.
E aí caboom! para o peso das coisas que fiz e principalmente caboom! para o peso das coisas que disse.
Escrevo sobre partidas porque parto não para renascer, mas para apagar-me, para afastar-me, porque a antiga promessa de eliminar meus rastros finalmente se cumpre.
Pelas pedras que atirei, banhado em hipocrisia.

“Pelos bons rapazes e pelos maus rapazes.
Pelos monstros que fui.
Três vivas à tirania”.

Um salve à partida.
Pois somente o cilício há de compensar estas marcas tão tolas e inférteis da existência e da presença.
Escrever sobre partidas é como finalizar um texto: complicado para cacete.
 E pela primeira vez eu não sei muito bem como fazê-las (se com adeus, se sem avisos, se pedindo perdão aos amigos que não amparei ou aos pobres coitados que açoitei).
Confirma-se então a práxis, meu ato inicial: é complicado, é “de dar nó no ralo fio da paciência”.
Partir desta terra, destas avenidas e destes braços de mangueiras é, no mínimo, a compensação suprema por minha estadia.
E finalizo com uma frase em um parágrafo.


(a pausa decisiva)


E o fim.



31 de outubro de 2018

Atrofia






Tenho escrito páginas-e-páginas de poesia fajuta.
Estou descontrolado – meu corpo sofre no auge da mocidade como sofriam os corpos dos primeiros ultrarromânticos brasileiros, abatidos pelos pulmões fracos, tão mofinos, coitados. Diziam eles que se embriagavam nas noites, mergulhados nos fumos aos pés dos mortos, mas a imagem, algumas vezes, mais tinha de simbólica do que de literal.
E assim como eles, com imagem também simbólica porém igualmente literal, sinto-me morrer – os fantasmas na cabeça e a doçura patológica correndo-me nas veias, degradando-me órgãos e encharcando-me retinas que tão brutalmente haverão de ser enxugadas, devorando-me a visão, cegando-me a periferia em nome da velhice amanhã, alterando a química dos nervos, falhando, amortecendo, fatiando em espasmos, apagando os reflexos, atrofiando, matando.
Atrofiando.
E de repente precisarei de outros braços para amparar-me – e segurar nos ombros alheios para caminhar, para subir as escadas, para passar os pés pelas pernas das roupas, para banhar-me. Para dignificar-me após as manhãs despertas de olhos inchados, manchados pela brancura geográfica na pele e nas pálpebras que não são tão lindas e ressacadas como as de Maria Capitolina (não como outrora).
E atrofiando.
E atrofiando.
Você é uma criança novamente. Dependente, demente, débil, desvalida. Morta na juventude onde jamais cumpriu seus mais complexos planos ou os mais utópicos sonhos, moribundo nessa jovialidade que há muito findou-se.
E é exatamente aí que vêm todas elas: poesias fajutas, mesquinhas. Poemas que não sei escrever e que por pura pirraça mantenho dessa forma carente, desalinhada, como se a sabedoria de Ezra Pound não estivesse perdida entre meus papéis desastrosos soprando-me ensinamentos sobre como fazê-la da melhor maneira possível, pois assim ignoro-o como um bêbado maldito há de ignorar sobriedade tão falciforme.
Finjo ignorar os mortos como haverei de ser ignorado quando assim minhas lembranças e meus músculos atrofiados estiverem para lá do além, adubando outras terras.   
Mas isto é mero melodrama melado. Carência de responsabilidade, escassez de autocontrole. Isto é também consequência pura, minha casca cobrando o preço dos pecados, vindo sussurrar, finalmente: xeque! E meus espelhos morrendo pelas beiras, escurecendo, perdendo-se, impedindo-me de pular no oceano de tantas letras que ainda não toquei e que julgava ter uma vida inteira para tocar – os livros ainda não lidos, os mestres e as mestras desconhecidas, os poemas e prosas poéticas, milhares de narrativas que tanto quis conhecer ou tão desesperadamente quis reproduzir à minha própria maneira. E, no entanto, as coisas se apagarão agora. As lentas leituras lentamente lacônicas ficarão. E talvez eu também leia Pound um pouco mais vagarosamente, e talvez nem consiga lembrar de como fazer boa poesia e péssimos poemas. Talvez fique para sempre nas fajutas formas (que por regra configuram todas aquelas feitas por mim e que me desagradam, pois não há fórmula perfeita para poesia “certa” – longe disso, longe disso!) e terei a certeza de que o que atrofiou não foram apenas meus nervos, meus músculos ou minha retina inflamada, mas minhas habilidades, meu talento, minha sensibilidade, o descompromisso, o amor de fazer por fazer e meu gingado, que foi a única-pior-melhor-coisa que de melhor fiz em vida, infernos. Perderei a única coisa que até hoje soube fazer um pouquinho bem. A única coisa que me dignificou como ser humano, a única coisa que me aproximou de uma alma, de uma existência.
A única coisa que mais em vida me aproximou da felicidade.
Ficarão apenas minhas poesias ruins: linguagem repetitiva, simbolismo ultrapassado, metáforas porcas e rima superficial: amor, dor, clamor, amor com dor. Advérbios aos montes e adjetivos para tapar os buracos. Formalidade pobre, ontologia rala e referencial até impecável – porque de boas referências qualquer asno pode munir-se.
E muni-me de incontáveis referências. Cacei-as em todos os lugares, em cada lição diária aprendida, em cada blues batucado com a ponta dos pés, em cada letra de country ou na sabedoria de Raulzito; em cada curva de mulher, em cada tapa de mulher, em cada ensinamento de mulher, em cada prática de fervor e principalmente no aprendizado da paciência, dos olhos que longe alcançam; em cada beijo traiçoeiro, em cada escarro dado em minha boca, a cada catarro venenoso a descer-me a garganta ou o prolongamento dos rijos membros; em cada descida ao abismo, em cada mergulho no poço, nas atrocidades vistas e, principalmente, nas barbáries cometidas – as palavras ditas, oh, Deus, meu Deus, perdoe-me, tantas e tantas ditas, cuspidas, saídas fuzilando e que mataram imensuráveis formas viventes de fé, de amor, de companheirismo afetivo, familiar e fraterno.
Tenho escrito páginas-e-páginas de poesia fajuta.
E para provar meu ponto, finalizo neste momento: é tarde e preciso descansar meus espelhos tão trincados, encharcados. Fodidos.
Eu disse, não disse?
Fajuta.



19 de outubro de 2018

Dia do pecado






Hoje é o dia do pecado: faz-se brotar todo ano a memória dos incômodos infortúnios, dos pífios equívocos. Hoje é o dia do nascimento: daquele outrora pequeno e agora falante broto que carrega consigo metade do teu sangue, metade da tua origem. Hoje é o dia, um de tantos deles, da culpa que não é tua, mas que carregas por responsabilidade da tua estirpe: és, tal qual o pecador, animal racional, bípede e mamífero a ocupar o primeiro lugar na escala zoológica; és filho, és descendente cultural, social, histórico e canalha; és irmão e não-irmão. Hoje é o dia do lembrete: cresce um coágulo dentro dos teus dois espelhos, encharcando com microscópicas inflamações uma porção de sangue no centro da íris, no meio da pupila; coágulo condensado nestes olhos que mais viram tristeza do que sua antonímia, desde quando nem tristeza sabiam o que era.
Ou talvez o lembrete seja a incerteza de um Criador lá em cima que te enche de provações das quais nunca foste apto a vencer: as idas e vindas em ambulâncias, a vida farta de amor recebido, de condições e de confortos, porém tão escassa de vigor, de saúde, de amor próprio, de alegria e de algum, qualquer sentido.

Então não foste lá no dia do pecado?
Não fui aonde?
Pisaste no consultório?
Aproveitarei o tempo que me resta.
Que tempo que resta?
– O pouco que tenho.
O tempo que te restas no lado direito de teus espelhos?
– Não. De ambos os lados.
E amanhã?
– O que há amanhã?
Como será o teu...
...amanhã haverá uma bala guardada no armário, dada de presente por amigos militares quando, de tão debilitado, tu não caminhavas direito aos quatorze anos e ingerias duas doses de Oleptal, porque descobriste, sem querer, que uma apenas não aliviava e que somente duas te apagavam, sanavam-te as dores físicas das agulhas que te enfiavam de dentro para fora, das brasas te queimando a pele, fritando-te os nervos.

Infelizmente
diz alguém diplomado, de jaleco, de voz amiga e espelhos sadios, zelosos.
–, teus nervos fritaram. Os das pernas, dos olhos e talvez de outros lugares, como bem já deves ter percebido...
– Bem percebi. Há anos.
Há anos?
Há anos.
E por que não tomaste providências?
Porque isso o livrou do pecado de repassar tua prole, teu sangue, tua tristeza inerente na alma e tua descrença carregada desde pequeno no peito, quando questionavas sobre o Criador, sobre o sadismo do Criador, sobre o desdém do Criador, sobre a indiferença do Criador, sobre o egocentrismo de que entendamos nós suas plantas arquitetônicas futurísticas e tão pífias.
O Criador te deves desculpas. Porém não hoje, pois hoje é o dia do pecado, é o dia do lembrete de que, quando morreres (e isso não demorará muito por conta de todas as estradas queimadas dentro de ti, dos espelhos encharcados de coágulos agora no direito e tão brevemente ah, e o Criador se encarregará disso no esquerdo), o Criador não o perdoará.
E de certa forma tu te compadeces da decisão, tu concordas, tu apoias. Há pecados no corpo que não descenderam da carne, mas da raiva, dos desrespeitos, da repulsa, da hipocrisia que outros usaram em ti e que em ti plantaram. Cobraram-te paciência, cobram-te benevolência em um mundo não benevolente em cada detalhe, em cada gesto e em cada relação de parentesco, de irmandade não consanguínea, de profissionalismo, de religiosidade e, ah, sim, de amores também. E dos afetos, dos antigos afetos que tu mesmo miraste, apontaste e executaste, teus pecados devem e deverão ser cobrados um a um: da praga que disseste, dos maus agouros sobre doenças e mortes, sobre as ofensas, sobre a hipocrisia (da qual tanto apontaste naqueles tempos e pela qual tanto és apontado nestes daqui).
Tentas com veemência corrigir teus homicídios simbólicos, teus feminicídios metafóricos. Tentas mudar para renascer outro, outro melhor, outro minimamente pior – e em certos aspectos, até consegues –, mas enquanto houver memória, corpo vivente e consciência errante, o passado não será passado. E um dos teus olhos, agora gradativamente escuro, enxergará apenas o passado tão presente, e o outro, que tão amedrontado caminha na corda bamba, enxergará unicamente o presente sem futuro. Porque tu foste um porco malvado, propositalmente asqueroso, disseste coisas que não existiam e que passaram a existir quando verbalizaste com desmedida raiva, insano ódio e imperdoável repulsa.
Verme escroto.
No dia do pecado tu hás de pagar, hás de saber que o errado não é atirar a pedra naqueles que visivelmente merecem, senão o contrário: errado é não apedrejá-los. Quando não fizeres aos sujeitos torpes com quem “artisticamente” topaste (leia-se o termo com infinitas aspas e interminável ironia), por te sentires incapaz de julgar como um juiz desprovido de erros próprios, então igualmente te julgarão, embora não saibam tuas escolhas, embora não saibam o porquê estiveste ali ou graças às permissões de quem paraste ali.
Mas foi um erro. Outro equívoco inconsequente por baixa quantidade de miolos eficientes. Quiseste agir feito o Filho do Homem, mas o Filho do Homem é apenas alegoria, um falso ideal inexistente e não condizente com a vida terrena, a vida real. Pois na Terra a lei a imperar é a do fogo, da fogagem, da fogosidade, da foice e da fogueira. Pois na Terra todos estão queimando e pecador é aquele que não atear fogo, o omisso, o covarde. Então tentas corrigir, mas o fazes errado por desejar (com fracasso) soar despretensioso, sonso e lerdo, e assim soltando a informação crucial que desmascara a belíssima manipulação e autopiedade de “artistas” (leia-se o termo com infinitas aspas e interminável ironia) tão cortejadores e mascarados. Teu tiro saiu pela culatra. A partir daí julgam-te por não apedrejar ao invés de meramente denunciar.
Todavia, tu entendes os julgamentos. Entendes porque Vida te explica (“Vida” é tão somente um especial anagrama para representar mais um alguém na tua escrita). Pois quando Vida fala, tu escutas. Pois quando uma Libriana fala, tu escutas; pois quando a outra Libriana fala, tu também escutas. Tu escutas a todas elas, mesmo que discorde em um dia, analise e dê o braço a torcer em outro, vestindo o ato de concordar.
E concordas.
E tentas melhorar.
E agrides a ti mesmo nestas linhas e em tantas outras passadas.
E fazes chacota com o tipo que és ou com o tipo monstruosamente descontrolado que já foste.
E fazes um escarcéu.
E expões a ti mesmo. Pois não somente hoje, mas em todos os outros dias há de se comemorar os pecados. Que o punidor perfeito não seja o Criador ou o povo na praça que tão pouco sabe de ti, a não ser tu:
És advogado de acusação,
és juiz,
és carcereiro
e carrasco de ti mesmo.
És o bobo da corte que aponta para todos estes porcos em forma de homens que clamam em praça pública por biscoitos, biscoitos em demasiado, quase esquecendo que só o fazem para compensar os mesmos equívocos que cometeram no passado contra mulheres de tantas letras: das Agnes, das Brunas, das Carlas, das Divas, das Elizas, das Fátimas, das Gabrielas, das Helens, das Ivanas, das Jamiles, das Lorenas, das Marias, das tantas e milhares e milhões e bilhões de Marias ao longo de toda a nossa história que ouviram as mesmas coisas que tu, tu mesmo disseste, das quais também não estarás livre. Porque o passado é uma formação geológica imortal, mais duradoura que as estruturas no Cairo ou os alicerces em Delfos.
Não importa o cilício diário que aplicares contra ti mesmo. Não. Haverá. Paz. E que bom (este é o único ponto em que concordas com o Criador: a punição eterna enquanto forem eternos os teus poucos dias restando). Com os teus olhos se apagarão a tranquilidade e a consciência do lago cristalino que há anos secou.
Não importa o quanto haverás de melhorar;
não importa o quanto melhoraste;
não importa que a própria Vida (este belo anagrama) passe as mãos por teu rosto e diga que o compreende e que o perdoa, apesar de não poupá-lo da lembrança de teus próprios equívocos – e com razão;
não importa que Vida te abrace e faça o turbilhão evaporar de tua cabeça com lábios ternos e coração tão gigante, embora ela mesma duvide disso;
não importa que todas elas (exceto uma, aquela que mais temeste e a que mais se esvaiu sem disso saber) tenham conhecido o que fizeste antes de tu amá-las ou tocá-las;
não importam tuas piadas literárias e metafóricas;
não importam tuas automutilações escrachadas, berradas,

berradas como esta;

não importa se fazem a História maleável pelas bocas das vítimas ou dos vencedores, se o passado é sólido, bruto, implacável e não lapidado.
Por tudo isso, aplausos soam ao Criador pelo dia do pecado não exterminado, pelo pecado santificado e insidiosamente penitente. Por isso precisas concordar com teu julgamento celeste que certifica tua condenação interna, a terrestre.
Porque o objetivo, nota-se, é teu desejo de mostrar-se ao mundo, de despir-se ao público: revelar “a besta em mim”, como cantou Johnny Cash ao entoar que “é enjaulada por barras frágeis e fracas”. Pois sabes, de algum modo, apesar das melhorias, da diária fuga de senhoras abusivas e nocivas, do temor paranoico de situações conflitantes, das confusões e das brigas, e que apesar de um melhoramento não completo, de uma desconstrução impossivelmente palpável, que há algo diabólico aí dentro. Ainda és passível de loucura, de falta de preparo ante traições e de consequentes descontroles.
Por isso corres de todos eles. Por isso tens corrido desesperadamente e suprimido com sumários atos misericordiosos os indícios da besta, da fera enjaulada, do demônio que cochila no mesmo inconsciente dos mitos que amas – como o amor incondicional e o paraíso celestial – ou dos sonhos que tão massiva e tolamente não deixas de te agarrar. Por isso, como entoou Cash, tentas esquecer “o monstro inquieto de dia e de noite, que cria confusão e se enfurece com as estrelas” tão facilmente. Por isso o monstro aí dentro com a mesma fagulha de raiva clama pela existência de um Criador, dessa vez não para puni-lo, mas para ajudá-lo.

“God help the beast in me”.

Entretanto, enquanto houver dias de pecado, existirão o sagrado cilício, o sangue invisível na língua e o visível nas retinas escurecendo esperanças e ralos objetivos de se viver mais um dia de amanhã. Enquanto houver dias de pecado, haverá punições como estas: faces hediondas que estampam o mundo e como muito bem vens detectando, seja através das minúcias e dos relatos, seja através da denúncia dos falsos sujeitos criadores-poéticos que tão bela ou heroicamente gritam por aí em praças públicas angariando aplausos – não há, para eles, júbilo maior.
Esta é a tua “face hedionda” como dito por Nelson Rodrigues e como bem será citado a seguir. Pois estás, desde que engoliste Gababentinas e Duloxetinas com whisky, punindo-te com o (infelizmente, nada misericordioso) ato diário de passar a mão no rosto e reconheceres tua hediondez.

“Somos aquela pureza e somos aquela miséria”.

“Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva”.

Mas o sentimento não está te salvando. Ele está te matando, corroendo-te. Na boca é mais que bílis, é cianureto.

Pois o homem não nasceu para ser grande, o mínimo de pureza o desumaniza”.

Afinal, ora essa:

“O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida:
‘Senhoras e senhores, eu sou um canalha’ [...]”.

Porém aqui (não canalha, mas idiotamente), tu confessas e proclamas, para encerrar mais uma de tuas severas autopunições. Acusando-te, revelando-te, expondo a besta de Cash para o público nesta tua taverna de horrores:

– Senhoras e senhores, eu sou um pecador.









7 de outubro de 2018

Quando setembro acabar (Parte III)





III.
Ariella



Setembro:


Ariella procurou o outro grupo composto por três antigas amigas de colégio. Ela disse um enérgico “voltei”, levando consigo a cerveja da outra mesa. As garotas sorriram. Havia ali o namorado de uma delas e outro amigo. Ajudou a encher os copos que estavam pela metade e por fim o seu, tentando ingressar no assunto não com intromissão, mas já familiarizada, já que conversara com elas alguns minutos antes ao sair do banheiro. A intenção era mergulhar na conversa, distrair-se por um minuto ou dois e ignorar os equívocos repetitivos cometido pelo rapaz Sem Nome.
Quando retornara do banheiro, notou que por alguma razão orbitavam os temas proibidos no ato, proibidos de se apoiar e proibidos naquela noite. Tocariam e lidariam com o assunto várias vezes dali em diante, principalmente os dois, mas fazê-lo justamente na noite em que receberam as pulseiras era de um mal gosto sem precedentes, profunda irresponsabilidade. Pois o modo como o Sem Nome e Ariella lutavam para cercar a moradia interna de Gustavo com alicerces firmes era diária, exaustiva. Fizeram um trato há quase dois anos, prometeram um ao outro que era tarefa impreterível que zelassem pelos amigos, que os afastassem do precipício da mesma forma empenhosa com que outros cuidavam deles.
Prometeram, um ao outro, que era dever deles cuidar de Gustavo, pois o rapaz (mais novo que ela e o Sem Nome) necessitava de auxílio, necessitava que se preocupassem com ele pois não possuía bases familiares de apoio. Os parentes, omissos. Inexistentes, preferiam-no distante, com exceção de uma única prima. Os amigos, quase extintos. Guga sofria com crônica carência de confiança em outras pessoas (fator galgado, embora ainda em desenvolvimento), e foram nas reuniões que coletou amigos e se propôs a deixar que Denise o cercasse com segurança e o revelasse atitudes novas, positivas. De longe, Gustavo era talvez a mais adorável vitória do grupo de apoio e não havia alguém discordasse.
Destarte, a momentânea ira de Ariella não era direcionada ao garoto, mas ao Sem Nome, que supostamente deveria cumprir sua promessa e correr para longe das unidades temáticas malditas. No entanto, bastava Ari dar as costas para que ele vacilasse, tudo por conta de sua tagarelice casual, a inoportuna habilidade de falar muito e pelos cotovelos – no geral, ele possuía postura introspectiva, exceto ao lado de pessoas muito íntimas. E, típico de seu descontrole para quase tudo, quase, permitia que asneiras escapassem.
Era raro que a garota perdesse a paciência. Em qualquer outra ocasião, contornaria o ocorrido com conselho secreto nos ouvidos do Sem Nome, depositando ali suavíssima, porém certeira bronca. Pediria que parasse, que seguisse por rotas alternativas e engatasse melhores assuntos. Mas estava com álcool além da conta subindo a cabeça e até mesmo falava com mais frequência, gesticulando e soltando risadas mais que o normal. Arrependeu-se somente de direcionar o “idiotas” a Gustavo, que já acumulava tranqueiras demais dentro de si e, portanto, merecia no mínimo que a noite fosse inteiramente boa, desprovida de demônios enterrados que urram para mais uma dança.
Ao fingir que mantinha a atenção na conversa (e não era exímia jogadora desta arte), Ari transportou-se para duas memórias latentes, ambas envolvendo Gustavo.

26 de setembro de 2018

Quando setembro acabar (Parte II)





II. 
Sir Guga



Gustavo era esguio, magricela. Não era lá muito partidário de comer, mas o último dia da terapia em grupo exigia certos esforços que ele se dispusera a obedecer. Grande parte dessa atitude devia-se à insistência de Ariella e do rapaz Sem Nome, que falaram a respeito de salgadinhos, docinhos, bolos e tortas salgadas ao longo de toda a semana anterior ao dia marcado para comemorar a abolição das reuniões.
O garoto aprendeu com o amigo a brincar (bem raramente) com o grupo, tanto que às vezes percebia-se fazendo piadas sobre serem ou estarem escravizados, as torturas de Denise, a indolência do velho Roger com sua barriga vergonhosa e a maneira como olhava com traços condenatórios para a sexualidade de Gustavo ou para as livres opiniões de Paula e Pâmela, as duas feministas de linha radical do grupo. No início dos encontros, há quase dois anos, o rapaz Sem Nome fizera uma piada que as incomodara, na época em que ele e o próprio Gustavo ainda não eram amigos, mesma época essa em que as moças e ninguém mais (com exceção de Denise, é claro) entendiam o porquê as piadinhas dele eram tão frequentes, ou o porquê fazia de tudo para atrair para si pré-julgamentos errôneos, antipatias e até mesmo raiva. Naquele tempo, o Sem Nome vivia aparecendo nas reuniões com olhos inchados e roxos, beiços rachados e hematomas pelos supercílios.
Cada um possuía formas de se autodestruir, certo? Mas, bem... algumas coisas ficavam para trás. Aquela época também ficou. Com a ajuda da terapia em grupo e com a maior frequência do Sem Nome nas reuniões, todos começaram a entendê-lo. Paula e Pâmela (que ironicamente não possuíam parentesco em comum, a não ser os ideais) talvez não tivessem perdoado a piada – na ocasião, após chegar com marcas de briga, ele dissera que caíra no banheiro em tom irônico, mais remetendo à surra que levou do que às mulheres que costumavam usar tal desculpa), tampouco a esquecido, mas o compreenderam e o aceitaram como colega, pois enxergaram nele algo além das superficiais aparências, apesar de uma ou outra consideração. As divergências com Roger pararam; o próprio velho mudou as antigas formas pragmáticas de enxergar o mundo e conversava pacientemente com todos em volta. Gustavo também conheceu mais profundamente o Sem Nome, não porque pretendia de início, mas porque o rapaz ria de suas piadinhas pessimistas, compartilhando em alguma instância as mesmas concepções de mundo. Tão logo descobriu-se que, assim como ele, o Sem Nome possuía um histórico suicida, entretanto sem as cicatrizes físicas que Guga trazia consigo no braço esquerdo.
Mas não foram exatamente essas as convergências que fizeram deles amigos. Foi o pouso da nova integrante no grupo, meses depois: Ariella. Em grande parte por insistência de Denise ao incentivar a formação de pequenos grupos em atividades.