16 de outubro de 2019

Lado B – gatos pardos, almas penadas e olhos negros




Faixa primeira e única do lado B,
sobre como seria.





I


Vazia estava a Brás de Aguiar às três e dezessete. Quarta-feira. O verde das mangueiras, iluminado pelos impecáveis postes que por quilômetros funcionavam, dava às calçadas e ao asfalto coloração mais viva, como se fosse essa uma reação imediata e vivaz de combater a solidão que as madrugadas lhe impregnavam. E fazia bem, embora peregrinassem por ela alguns carros rumando para festas ou partindo delas, motoqueiros com caixotes coloridos nas costas – verdes, amarelos ou vermelhos –, cada um representando um delivery via aplicativo de celular diferente. Mais raro ainda eram os ciclistas pedalando tranquilamente sabe-se lá para onde.
No escuro todos os gatos eram pardos e na madrugada toda a gente era apenas alma penada, com a tarefa cabida a mim de descobrir o que faziam, de onde vinham e para onde desejam ir antes que as pálpebras pesassem ou o sol nascesse. Em certa altura, uma motociclista em cima de uma Bis azul marinho passou por mim – shorts curto, camiseta preta e capacete branco marcado pelas marcas desgastadas de adesivos que há muito não estavam mais ali. Acompanhou-me desde o início da Brás, quando ambos descíamos e a iniciamos pela Generalíssimo.
Às vezes, ela tomava a dianteira, apenas porque eu afrouxava o acelerador ou mantinha a segunda marcha por quarteirões inteiros. Bem raro eu a ultrapassava e talvez nem quisesse. As possibilidades eram infinitas dentro de um exercício que pus em prática e do qual não passava de o fruto de uma mente vazia, desesperada para se agarrar a qualquer distração:
Eu a imaginava acordando na madrugada depois da quinta chamada não atendida no celular. Havia ali um nome amigável, havia ali um nome amado, havia ali o protagonista ou a protagonista de todas suas notificações favoritas nos últimos três meses, quase quatro (estávamos em Janeiro, beirando o advento de Fevereiro e do carnaval). Em meu estranho e infrutífero exercício, do qual precisei diminuir o volume da rádio ligada para permitir que fluísse, havia um pedido naquela ligação, talvez urgente, talvez desesperado, talvez finalmente vindo no momento adequado: enquanto nessas noites todos os gatos eram pardos e nessas madrugadas toda esta gente era apenas alma penada, como tal, a moça da moto não seria vista nem percebida – passaria pela entrada do prédio ao qual se dirigia, pois sua chegada já havia sido anunciada pelo interfone, e também porque o porteiro da madrugada, o Valdir, era um tremendo camarada com a Júlia do 412 ou com o Márcio do 507, fosse quem fosse o protagonista daquelas notificações. Isso pouco importava. O que importava é que o Valdir não fazia comentários com o resto do pessoal do prédio e muito embora viesse da década de cinquenta, pouco ligava para moças que amavam moças ou para rapazes que, mesmos proibidos de verem quem amavam de verdade, arrumavam um tempinho na madrugada para tal libertadora desforra.
A motociclista, imaginei em meu exercício mental, dirigia calma e pacificamente em direção a Júlia ou ao Márcio. Sem pressa, apesar de ter que partir cedo pela manhã, ainda no turno do Valdir, ou quem sabe nem fosse preciso, pois passaria os próximos dois dias ali com apenas o celular no bolso, três notas de vinte no sutiã e a roupa do corpo que, tomara, não precisaria utilizar por muito tempo – as roupas largas do Márcio eram extremamente confortáveis ou as suas roupas que ficavam escondidas na gaveta de Júlia já estariam recentemente lavadas ou estrategicamente separadas. Em quaisquer dessas versões não importavam os protagonistas – se Júlia, o lado A, ou se Márcio, o lado B. O disco era o mesmo, espalharia pelo salão melodias silenciosas e calmas, as mesmas que sempre tocavam na 93.7 FM àquela altura da madrugada. Alguém naquele fragmento de alvorada deveria ser feliz, se de modo secreto ou se de modo corriqueiro, isso também pouco importava. Ambos os lados desse disco, A e B, não destoavam na conclusão dos fatos, pois a madrugada seria até o raiar do dia com duas pessoas na cama, acordadas, sorridentes, ao embalo de fones de ouvido, ao embalo de uma carteira de cigarro, ao embalo de Quinta do Morgado ou de Catuaba Selvagem, afoitas, exaustas, suadas ou adormecidas.
Não importava. A canção seria a mesma, sem distinções de estilo composicionais, sem revolução temática, sem grandes diferenças. Em minha cabeça (eu torcia!), quase me ajoelhava ritualisticamente para que o destino da motociclista fosse um daqueles ou os dois ou qualquer variação mínima dessas criações ou talvez qualquer possibilidade que fizesse com que, às seis em ponto, ela estivesse adormecida, em paz ou acordada em extrema felicidade por compartilhar as horas silenciosas com aquele ou com aquela protagonista que, nos últimos três meses, quase quatro (estávamos no mês de Janus, acariciando as marchinhas e confetes de Fevereiro), vinha sendo sua notificação favorita.
A motociclista, a vintes metros além de meus olhos insones, deu o sinal e dobrou para a esquerda na Dr. Moraes, rumando, talvez, para a Mundurucus ou para a Pariquis. Parei lentamente sobre a faixa de pedestre – não havia viva alma pelas calçadas nem tampouco qualquer veículo seguindo a mesma direção que a moça. Minha janela estava abaixada e o vento gélido de Belém cessou de roçar meu rosto e meus cabelos e meu braço e meu pescoço. Observei-la ir tão longe quase sumindo de vista. Esperei que concluísse as possibilidades em minha mente; esperei que alguém, naquela madrugada de olhos pesados, de mentes e de corações sem alento, pudesse apalpar o que quer que fosse a felicidade. Que fosse a motociclista, que fosse a moça da Bis azul marinho a fazê-lo.
Estive parado, incerto sobre seguir os rumos fortuitos daquelas que iam pela Dr. Moraes ou se persistia na aleatoriedade belenense da Brás de Aguiar. Eu não tinha destino, não tinha sono, não tinha um traço sequer de risadinha irônica para formar a derradeira piada que caía sobre mim, quando eu refletia que de
– ...novo, porra – disse eu, incrédulo. – De
novo depois de todo aquele tempo julgando-me inabalável, intocável e finalmente tão detentor de mim, de um resquício de controle e amor próprio depois das estúpidas e malditas e hipócritas e vitoriosas tempestades que haviam me abatido, de
–...novo essa merda, né? – Perguntei incrédulo, mais praguejando para me enganar ao invés de dar o braço inteiro a torcer.
Dei movimento ao carro, reto e obstinado a seguir a incerteza de sinas já feitas e que, no entanto, nunca nos são reveladas – como quando, deitado na cama, observa-se a escuridão enjaulada em um cômodo vizinho e vazio com a porta aberta.
Fui até o fim, até onde a Serzedelo se anuncia, transversal. Um muro grafitado e pichado e uma construção antiga, talvez uma casa da velha Belle époque, de tom quente, ameno e conservado, aguardavam-me, encaravam-me, silenciosos. Ir adiante seria esmagar a dianteira do carro naquele muro ou naquela casa, e essa possibilidade, esse lado C do meu disco, felizmente não estava sob cogitação.
No escuro, todos os gatos eram pardos, e eu era uma alma penada. Aumentei o som da 93.7 FM. Bethânia cantava no meio da canção:


a felicidade é como a pluma
que o vento vai levando pelo ar
voa tão leve más tem a vida breve
precisa que haja vento sem parar



– Ô, porra, Bethânia – continuei na ladainha particular, um fraco praguejar persistente.


a minha felicidade está sonhando
nos olhos da minha namorada
é como esta noite


Passando, passando – completei com outro resmungo. Cuspi para fora da janela para tirar o gosto ruim da boca.


falem baixo, por favor
pra que ela acorde alegre com o dia
oferecendo beijos de amor.


Acelerei pela Serzedelo. O locutor da madrugada (que trabalho maravilhoso esse cara tinha: sem tempo para dormir, sem tempo para pensar antes de dormir, sem tempo para focar em qualquer coisa insone que não fosse o trabalho) anunciou um nome, uma cantora que talvez eu já houvesse escutado por aí. Eu estava na 93.7 FM porque, àquela hora, as músicas eram boas e variavam de forma abissal em relação aos meus gostos particulares – queria fugir deles e do que eventualmente causariam ou o quê ou quem eles certamente me lembrariam. Jogada de mestre, mestre! Estava me saindo tão bem quanto os esforços de dominação nacional executados pelos comunistas escondidos nos esgotos ou na terra oca abaixo de Belém.
Genial.
E a moça cantava


todo dia ele escreve tantas músicas tristes
e se banha na chuva pra agradar você
todo dia ele finge que a noite não existe
todo dia ele quer desligar a tv


– Otário. Idiota. Cuzão. Quem se banha na chuva para agradar alguém e quem faz música triste? – Pela primeira vez consegui rir ironicamente durante minha peregrinação nocturna. Havia gostado da música. – É, é. Gostei.


eu sei,
ele é um pouco rebelde
.

.
.
eu sei
talvez troque a noite pelo dia


– Outro que não dorme, coitado – Reverberei dentro do carro, irônico, quase gritando e fazendo a minha voz ecoar na madrugada. – Idiota do caralho.


eu sei
talvez seja a juventude
ou talvez tenha lido demais
visto filme demais


Aumento o volume. Que idiota, quem em sã consciência lia demais a porra de livros tristes para escrever em noites tristes para não dormir em noites tristes e para dirigir feito piolho em cabeça de careca pelas madrugadas tristes? Aumentei novamente o volume, não por raiva, mas por estranhamente adorar a música agora na voz de um cara dizendo que


todo dia ela escreve tantas músicas tristes
algo como essa canção


A melodia agitada e de um falso otimismo era o que contrastava com a letra triste e com o estilo de vida triste do qual ambos, moça e rapaz, possuíam ao cantarem que ele e ela escreviam, coitados, músicas tristes. Dois idiotas.
– Idiotas. Quem gosta de música triste? Idiotas.
A música era boa.
Para aquele horário e para aquela situação exitosa de se distrair de sabe-se lá o que o mantivesse acordado... ah, a música era boa.
Talvez fosse o bairro de Nazaré, talvez fosse apenas o que me levara a dirigir por ali – território que eu não conhecia e que eu não dominava, salvo apenas pelas sinalizações e pelas poucas placas azuis fincadas nas esquinas, revelando-me onde eu estava e aonde provavelmente iria –, talvez fosse a exposição latente a uma cidade deserta em uma antemanhã exacerbada pela melancolia das músicas que tocavam na 93.7 FM, as quais pareciam reverberar um pouco mais fundo na quietude triste daqueles que não dormiam por alguma razão e que viam-se destinados a escutarem aquele tipo de melodia, aquele tipo de canção triste.
Ou talvez fosse apenas a insônia.
Após duas ou três ou quatro ou sabe-se lá quantas músicas, e numa eterna segunda marcha, entrou o locutor de trabalho de sorte da madrugada anunciando Brothers of Brazil – a banda eu conhecia, já a música não. Infelizmente, notei-me irônico e rindo, eles cantavam que


saí de casa cedo sem saber o que ia acontecer
jamais seria o mesmo depois de te conhecer
deitada ali na praia só via você
 nossos olhares se encontraram
só via você


– Que idiotas, que estúpidos. Burros, cuzões. Otários. – Disse eu, e aumentei o volume. – É trágico, camaradas.


um filme um romance
feito pra você pra mim
deitada ali na praia


– Hahahaha!


só via você


E aí a Serzedelo terminou. E também terminei parado em outro fim de avenida e dois PARE pintados à minha frente. Além deles, apenas um muro e uma casinha de muro baixo, com grades e garagem coberta por um telhadinho.
– Porra, onde eu tô?
Era a Timbiras – cuja rua eu só conhecia pelo nome. Os Brothers não cantavam mais. Eu bem seria exemplarmente capaz de lembrar a música que tocou em seguida, se não fosse o meu celular vibrando ao lado.
Havia uma mensagem:

“Tá acordado?”
Hesitei, mas respondi trinta segundos depois – o máximo que durei:
“Tô”
“achei que não tivesse kkjk”
“mas acho que tô”
“tá tudo bem?”
“tá sim”
“tens certeza?”
“claro”
“hum”
“tô bem”
“tá bom”
“e tu, estás bem?”
“sim”
Sem movimentações de texto atípicas. E então uma nova mensagem recebida, agora rompendo a falsa calmaria:
“por que tu mentes?”
“eu não menti”
“sempre que estás mal, tu respondes que tá tudo bem”
“porque tá”
“não tá”
“não?”
“não”
“então tá”
“vai dormir”
“não posso”
“por quê?”
“tô parado num cruzamento”
“meu deus, onde?”
“não faço ideia, a placa diz Timbiras”
“onde é isso?”
“longe, eu acho”
“de mim?”
“??”
“esquece”
“longe pra caralho de ti”
“kkkjk”
“por que tu me mandou mensagem?”
“queria falar contigo”
“diga”
“sai daí”
“eu não sei pra onde eu vou”
“meu deus, liga o gps”
“ahh, é... hahhahaha”
“tu és muito burro”
“eu sei”
“por favor, vai embora daí”
“tu já saiu do trabalho?”
“tô quase saindo agora”
Eram três e quarenta e dois da madrugada. Quarta-feira. E enviei:
“o que tu querias falar comigo?”
“queria pedir desculpas”
“não, desculpa eu”
“ok”
“ok”
“eu posso ir te buscar?”
“não precisa, tu estás do outro lado da cidade e eu tenho que ir pra casa, o pessoal aqui me leva”
“eu vou aí”
DIGITANDO...
DIGITANDO...
Então digito primeiro:
“eu vou aí, eu não consegui dormir”
“por quê?”
“porque não tá tudo bem”
“EU DISSE!”
“sim, tu disse, tu sempre tem razão”
 emoji-de-lua
“eu vou te buscar, eu só quero te ver”
“eu também quero
mas...”
DIGITANDO...
mas?”
DIGITANDO...
DIGITANDO...
DIGITANDO...
DIGITANDO...
“só fico preocupada com esse horário, mas também preciso te ver. Então vem, mas cuidado, tu estás do outro lado da cidade”
“e tu em outra”
“eu espero aqui no condomínio”
“então eu tô indo”
“então tá bom”
E quinze segundos depois, ela enviou:
“ei”
“oi?”
“liga o gps, pangaré asuigfuiavscvsa”
“vou ligar kkkk



II



Até a BR 316, as playlists selecionadas pelo locutor-cara-do-emprego-de-sorte na madrugada da 93.7 FM foram quase infinitas. Com a ajuda do GPS, dirigir tornou-se de repente muito mais fácil, sobretudo e finalmente com um destino em mente, fosse qual fosse o teor de urgência que a mensagem da qual ela me enviara trazia consigo.
Quintino, Nazaré, Magalhães Barata, Almirante Barroso e em seguida uma reta eterna até a BR, até mais ou menos o quilômetro quatro, condomínio no qual o Restaurante Oriental onde ela trabalhava ficava. Apesar de sentar o pé no acelerador, os semáforos estranhamente estiveram a meu favor durante quase todo o percurso, refletindo a mesma cor verde vivaz que as mangueiras na Brás de Aguiar. Parei para abastecer e essa foi uma das únicas vezes em que precisei adiar meu destino, embora o sujeito que encheu o tanque (outro sujeito de sorte, imaginei) bem certamente tivesse notado meus dedos batucarem sobre o volante enquanto o volume forte da rádio, tocando uma porção de músicas que eu sinceramente não mais prestava atenção, bailava ali dentro junto comigo. A última vez que eu estivera daquele jeito, ansioso e inquieto como um adolescente, fora há três meses, quase quatro, esperando-a pela primeira vez em casa com um filme sobre o caso de Travis Walton que me fizera cagar nas calças durante toda a infância diante da TV quando no Cinema em Casa. Devo ter rido nesse instante de autoanálise, prato cheio para o frentista que deviam lidar todas as madrugadas com sujeitos bêbados ou amantes da neve pura e branquinha, todos atrás do volante.
O sujeito passou-me o troco com desinteresse. E lá eu havia gastado todos os meus últimos tostões com gasolina.
– Veja pelo lado positivo, meu camarada – respondeu-me o frentista com total interesse e dentro de meu breve instante de exercício mental e imaginativo, tão real quanto o plano de dominação nacional bolado pelos comunistas da terra oca sob Belém – pelo menos não é um gasto com neve branquinha.
– Tem razão, camarada. Pelo menos não é neve branquinha – falei ao frentista antes de virar a chave e dar o fora dali.
O cara ficou parado e me olhando sem entender. Deu de ombros e voltou a se sentar numa velha cadeira de plástico, enquanto segui pela BR.  



III


O acostamento que levava aos portões do condomínio distanciava-se de trinta a cinquenta metros da rodovia. Sinalizei com os faróis por duas vezes na direção dos guardas que estavam na guarita. Mandaram-me esperar e de um dos portões ela saiu – calça jeans, sandalinhas de couro, camisa folgada azul escura estampada por uma série orquestrada e bem alinhada de mandalas brancas, cabelo preso num rabo de cavalo, mochila nas costas e um cigarro aceso entre os dedos.
Desci do carro no mesmo instante em que ela se aproximou.
– Teus chefes já foram embora? – Perguntei.
– Já. Eles insistiram, mas parece que dizer que alguém vinha me buscar não deixou nenhum deles mais tranquilo – abraçou-me, indecisa se fazia isso de forma rápida e seca ou se apertava um pouco mais como fazia nos últimos três meses, quase quatro. – Mas tá de boas.
Ao contrário dela, apertei antes de soltar. O abraço não durou mais que cinco segundos.
– Vem, eu te levo pra casa.
– Espera – disse ela hesitante e tragando longamente o cigarro. – Eu só queria conversar contigo pessoalmente, mas não queria ter que esperar mais. Desculpa ter te feito vir até aqui assim e a essa hora.
– Eu tava sem sono, relaxa.
– Por que tu estavas rodando pela cidade desse jeito? – Aproximou-se e fungou o nariz pelos meus ombros. – Tu estavas bebendo?
– Não.
– Trepando com alguém?
– Não.
– Chorando?
Nós dois rimos.
– Eu só não conseguia dormir.
– Por causa de mim?
– Por causa de ti, mas não é tua culpa.
– Olha... – Ela deu um leve peteleco no cigarro para que as cinzas caíssem. Suspirou. Tragou. E me olhou com aqueles abissais olhos negros sempre tão incisivos e sérios. – Eu sei que a gente passou por um bando de coisas antes de chegarmos aqui. Tu passaste por praticamente as mesmas coisas que eu, e isso quase fodeu a gente por anos... acho que fodeu com a gente, né? Isso por um lado é bom... quer dizer, a gente se entende, né? Tu entendeste a minha culpa e o meu medo tão bem quanto eu entendi os teus. E... Mas é que...
Segurei as mãos dela e fiz com que sentasse sobre o capô ao meu lado. Pedi um cigarro e ela retirou um da mochila junto com o isqueiro. Lucky azul. Acendi e olhei para cima: nuvens avermelhadas indecisas sobre chorarem e o brilho dos prédios, alguns deles maiores que outros.
– ...Mas é que foi legal? – Arrisquei.
– Mas é que tem sido legal pra caralho – ela suspirou e minimamente sorriu. – Tem sido maravilhoso, sabe?
– Eu sei, sim.
– Mas é que, como eu ia dizendo, nada disso tava nos planos – ela deu de ombros, minimamente sorridente.
– Quais eram os planos?
Eu sou de ninguém e sou de todo mundo e todo mundo é meu também, saca? – E fechou os olhos. Tentou rir, não o fez. Era astrologicamente dada a piadas desastrosas. Nunca entendi se aquilo foi realmente uma piada. Ela apenas balançou a cabeça. – Aí tu estragaste tudo, filho da puta.
– De nada – reverenciei-a em agradecimento. – Mas se todo mundo é teu, então nesse caso eu sou todo mundo. Eu sou teu, e isso aí é verdade.
Finalmente uma risadinha sincera que a tirou da defensiva. Aproximou-se um pouco mais de mim. Minimamente. Pouco a pouco, aproximou-se.
– Eu só quero pedir desculpas pela minha indecisão. Não quero tudo aquilo de novo.
– Eu também não – traguei fundo, a fumaça na garganta pairando ali, danosa, lembrava-me que eu ainda estava vivo. Vivo e exposto. De certo modo vulnerável, porém vivo. – Mas o “tudo aquilo” que tu falas nem começou do jeito que o nosso “tudo isso” começou.
– Ah, não?
– Em dois dias eu tinha me encontrado depois que te achei. E depois daquele filme...
– Me desculpa, mas eu nunca prestei atenção naquele filme! – Ela gargalhou e tocou na minha mão, carinhosa.
– E depois daquele filme – continuei – tudo ficou em paz. Lembras?
– Eu lembro.
Balancei a cabeça, devagar. Olhava ainda para o céu vermelho.
– Eu não prestei atenção no filme porque conversar contigo foi muito melhor. Eu ia odiar que alguém conversasse durante todo o filme que coloquei, me desculpa.
– Tsc. Eu não ligo – e olhei-a, finalmente. – Mas é sério, tu lembras de verdade?
– Eu lembro.
– As coisas não serão como antes se tu quiseres que elas sejam alguma coisa, até porque elas já são diferentes.
– E tu queres?
– Porra, eu dirigi até aqui – toquei-a nas bochechas, o cigarro entre meus lábios. Os olhos dela eram negros. Não um par castanho-escuro que se revela castanho-claro diante da luz, mas um par negro, puramente negro, coloração das mais raras entre a população nacional. Um milagre operado pela melanina.
– Me desculpa ser indecisa. E me desculpa também pelas outras pessoas... por ter estado com as outras pessoas enquanto isso – com as pálpebras fechadas ela pousou uma das mãos sobre as minhas, o cigarro entre os dedos da outra.
– Outras pessoas todo mundo teve nesse meio tempo, mas eu não entendo nenhuma delas e nenhuma delas me entende, por nenhuma delas eu dirijo de madrugada e nenhuma delas me deixa em paz como tô agora... com exceção de quando tu falaste que era melhor a gente não se falar mais, claro. Aí eu dirigi e aí eu não fiquei em paz...
– Shhhii – ela fez, tapando minha boca e rindo num misto de embaraço. – Desculpa! Me perdoa.
– Me perdoa eu. Mas em defesa minha, eu nem cheguei a fazer pedido algum.
– Eu sei. Se você me perdoar, eu te perdoo.
– Ok. Perdoada.
– Ok. Perdoado.
E retirou a mão de sobre minha boca.
– Só quero dizer que tô em paz. Finalmente em paz, caralho.
Ela grunhiu baixinho e balançou a cabeça para retomar um ponto específico:
– Então é essa a sensação? – Perguntou.
– Qual sensação?
– Sobre o “outras pessoas”? – Gesticulou a mão arqueada, em formato medonho, na altura do peito e com um movimento circular, sugerindo uma sensação ruim.
Balancei os ombros.
– Incomoda no início, mas depois passa.
Ela sorriu e se afastou. Jogou o cigarro no chão e amassando-o com a sola da sandália.
– Se eu disser que não vou mais ficar indecisa, isso significa que a gente tá namorando.
Não sei se aquilo chegou a ser uma pergunta.
– E a gente tá? – Pigarreei, fingindo indiferença.
Ela deitou a cabeça no meu ombro.
– Teu problema é ter que oficializar, pangaré. A gente tá namorando há três meses, quase quatro, e só tu não percebes.
– E as outras pessoas?
Ela mordeu os lábios e aninhou-se um pouco mais:
– Eu não entendo nenhuma das outras pessoas e nenhuma delas me entende. Nenhuma delas nunca dirigiu de madrugada por mim e nenhuma delas me deixa em paz como eu tô agora – e completou: – Finalmente em paz, caralho.
Afundei o nariz entre os cabelos dela. Havia cheiro de suor, havia cheiro de peixe cru, havia cheiro de shoyo e havia cheiro de camomila, o mais forte entre eles.
– Isso é um namoro? – Perguntei.
– Acho que sempre foi. Desde aquele filme que eu não prestei atenção. Qual era o nome?
– Fogo no Céu.
– Isso. Fogo no Céu. Já era desde lá.
Fiz o mesmo com o cigarro. Esmaguei-o como quem esmaga um incômodo, uma perturbação, uma dúvida, um bobo medo de dias piores. Respirei fundo e abracei-a exatamente como no dia do filme quando eu era, por dentro, só um estúpido adolescente ansioso e sem saber o que fazer. Mas a adolescência ficara mais de uma década para trás, agora eu sabia o que fazer e agora eu poderia até escrever músicas menos tristes ou me banhar na chuva para agradar alguém. Era maravilhoso ser um idiota, panaca, cuzão e otário de letras de músicas da 93.7 FM nas madrugadas belenenses.
Os primeiros pingos de chuva começaram a cair sobre nós. O céu antes vermelho tornara-se denso, pesado, prestes a desabar sobre uma cidade melancólica (e talvez não mais) de final de Janeiro que anunciava os blocos de rua de Fevereiro. Entramos no carro. Ela, levemente sorridente. Eu, idem.
Ela aumentou o volume da rádio:


consta nos autos
nas bulas
nos dogmas
eu fiz uma tese
eu li num tratado


– É Chico? – Perguntei.
– É Chico – ela sorriu.


está computado
nos dados oficiais
serás o meu amor
serás a minha paz


O céu decidiu desabar e a chuva caiu como pedregulhos em protestos nacionais. Do que ou para o quê protestava, também não importava. Não mais.


se dane o evangelho
e todos os orixás
serás o meu amor
serás, amor, a minha paz



Com um beijo na testa dela, perguntei:
– Quer ir pra minha casa?
– Claro.
No escuro de Belém, todos os gatos eram pardos. Em suas madrugadas, todas as almas eram penadas. E dentro daquele carro, os olhos dela eram negros. 








14 de outubro de 2019

Lado A – Visconde de Souza Franco e os Quebradores de Coração




Faixa primeira e única do lado A,
sobre como foi.






virar a noite
fechando mais um bar

Ricotta cantou.

me estragar um pouco mais contigo

Alguém cantarolou na suave noite de chuviscos em Belém – sou eu? –, um tipo de chuvinha que seria irritante, se não fosse propensa a imersões das mais vastas estirpes, de uma natureza falsamente calma, de um passividade-agressiva cruel, silenciosa, oculta, porém agente, fatal, eficiente.
A Visconde de Souza Franco estava vazia, resplandecente e clara com seu quase-longo-corredor de vala aberta com prédios e condomínios e shoppings e farmácias e supermercados em ambas as margens, ladeando e observando seus peregrinos como uma plateia indiferente e imponente, rica e intocável, impenetrável e imune à melancolia da hora. Eram três e sete da madrugada. Quarta-feira. As pistas da Doca, que ora eram quatro, ora eram duas e ora eram três, esticavam-se diante de olhos insones e vazios como um tapete de asfalto em vermelho, luxuoso e deprimente, para a nocturna tristeza do horário.
Alguém já te disse que a Doca é melancólica à noite, sobretudo quando vazia e chuvosa? Que esteja dito agora. Há dúvidas sobre o porquê, talvez fosse o requinte da sociedade em volta dela com seus prédios de quarenta e dois andares, gêmeos, estonteantes, com moradores absortos nos quartos de seus apartamentos, tão próximos da vida lá fora e, no entanto, tão, distantes, tão reclusos, pouco barulhentos e pouco euforicamente vivos como eram os das regiões diferentes dali. Enquanto alguns bairros mais privilegiados ou meramente comerciais afundavam-se na monotonia nocturna que às vezes iniciava-se desde às oito da noite, outros pareciam florescer vida até nas madrugadas com seus carrinhos de batata frita e com seus hambúrgueres de esquina e com sua farta fileira de pizzarias pequenas e prósperas e toda a sorte de alternativas que seus protagonistas precisavam ou eram obrigados a escolher em nome da sobrevivência ou do funcionamento habitual da engrenagem, tampouco possuindo quartos em apartamentos reclusos para pregarem os olhos à noite.
Um ponto em comum, entretanto, entre toda essa gente e com certa variabilidade de horários, era em definitivo a madrugada. Cedo ou tarde, apressadamente ou não, sob um chuvisco irritante e indeciso ou sob uma chuva torrencial que começa em Belém já em meados de Janeiro, a madrugada sempre chegava e afogava a cidade num silêncio finalmente reconfortante ou claustrofobicamente desesperador para outros – aqueles que traziam os fervores da vida afoita consigo.
Era assim a Doca desde sua entrada a partir da Boaventura da Silva. Recepcionava-o com a melancolia latente da alvorada, sobretudo a alvorada chuvosa de Janeiro-quase-Fevereiro, com sua brisa gélida vinda da baía, correndo por entre o corredor-quase-longo de prédios e condomínios e shoppings e farmácias e supermercados. Açoitava os corpos daqueles poucos homens de azar que trabalhavam durante tal horário – taxistas em esquinas, estacionados e escutando talvez a 93.7 FM ou a 95.1 FM, imersos em canções de cunho triste ou genuinamente brasileiro, desses que você jamais escutará nas rádios durante o dia. Assim como eles, talvez houvessem motoristas acordados, peregrinos errantes, acometidos pelo terror da insônia, porém não a crônica – antes fosse! –, mas a pior delas, aquela que afastava o sono e a única paz biológica que o corpo permite ao bicho homem para descansar, longe de pesadelos ou da própria e insana realidade. Eram esses sujeitos os mais azarados de Belém, sobretudo naquele horário: estavam acordados e confrontando seus medos, seus arrependimentos, seus exercícios sádicos e mentais de imaginarem como a realidade seria se tomasse uma rota diferente, uma escolha menos precipitada ou mais sortuda, como o lado B de um disco que modifica sua melodia habitual, sua temática corriqueira ou meramente os protagonistas de suas letras – um lado B satisfatório, mais desejável.
Tinham esses sujeitos da madrugada a infelicidade de trabalharem enquanto apenas o sono deveria reinar. Tinham esses sujeitos da madrugada a infelicidade de habitarem o lado errado do disco, a versão trágica tecida por Moiras inconsequentes. Tinham esses sujeitos a única opção de aceitarem suas condições, depois de muito tentarem modificá-las ou depois de nem mesmo tentarem. Tinham eles o azar de encarar a melancolia da cidade na alvorada, porém exacerbada então pelo chuvisco de Janeiro que tão logo tornar-se-ia a forte chuva de Fevereiro e de Março alagando ruelas, comércios e pires rasos de noites melhores.    

e essa cidade já não tem a menor graça

Alguém, na santifica e mesma aberta melancolia pela qual se estendia a Doca, impediu-se de cantar e de acompanhar Ricotta – no máximo houve um balbuciar antes do advento do verso seguinte, quase um contido escarro, quase um desterro da dor elipsada.
Finalmente cantou junto:

– ...quando você não tá por perto.

Alguém riu. Talvez a mesma pessoa a concluir o último verso da música. Alguém que, caso desejasse conhecer canções novas e genuinamente brasileiras, ligaria talvez a rádio. Mas esse alguém era alguém que não estava verdadeiramente interessado em canções novas de madrugada, mas naquelas que já conhecia e que sabia com precisa certeza o que causariam – o estrago, a sensação de exposição, de virar a pele do avesso para vagar pelas ruas de Belém para talvez expulsar os demônios (ou seriam fantasmas?) da melhor maneira possível: invocando-os, balbuciando e proclamando internamente seus nomes, suas faces, seus olhos negros.
Então a troca de música. Dois e três e quatro e cinco segundos de silêncio antes dos acordes de Tom Petty and the Heartbreakers ecoarem no interior do carro:
– Puta que me pariu – alguém disse em meio à risadinha irônica.

she wore faded jeans and soft black leather
she had eyes so blue they looked like weather

Havia um mito sobre a importância ou sobre a beleza de olhos azuis ou verdes. Eram, de fato, e algumas vezes, órbitas basilares lindas, mas não tão especiais assim. Estavam as castanhas acima delas, especialmente mais belas sobretudo quando encaradas pela luz, pois iluminavam-se, abriam-se num fulgor único de castanho milagroso. A melanina, alguém imaginou dentro de seu carro, era um espetáculo da natureza, principalmente quando pigmentava a íris com excesso e deixava até mesmo o castanho para trás, tornando-o negro, tão abissal, tão sério e tão impenetrável quanto as Marianas no Pacífico. Alguém dentro desse mesmo carro percebeu-se rindo, se de tragicidade ou se de ironia, não se sabe, mas ria já na altura da segunda volta pela Visconde de Souza Franco.
– Tu erraste, Tom – o alguém disse em meio às risadas. – Tu erraste.

when she needed me I wasn't around
that's the way it goes, it'll all work out

– Não são azuis, não. Não são azuis porra nenhuma, camarada – o carro movia-se a dez quilômetros por hora. – Não, não.

there were times apart, there were times together
i was pledged to her for worse or better

– Eles são negros.

when it mattered most I let her down
that's the way it goes, it'll all work out

A canção de Tom e os Quebradores de Coração continuou, talvez repetidas vezes, talvez pela quarta ou quinta volta na Doca quando ele finalmente parou num posto de gasolina. Primeiro, abasteceu o tanque com seus últimos tostões. Segundo, com o troco dos últimos tostões, comprou uma carteira de cigarro – fumaria um Lucky azul se estivesse numa leve e inofensiva melancolia, mas preferiu o Marlboro. O Marlboro cairia melhor diante da situação.

there were times apart, there were times together
i was pledged to her for worse or better

Com o carro estacionado, abriu a porta e sentou-se com as pernas de fora. Fumou um, fumou dois e fumou três e fumou quatro. A nicotina pairando na garganta deixava-o vivo. Deixava-o exposto. Estupidamente vulnerável. Uma penitência para o corpo, já que não podia dar melhor cilício ao que estava mais fundo nos abismos não quantificados do homem.

it'll all work out eventually
better off with him than here with me

O cigarro entre os dedos, as costas curvadas. Eventualmente, imaginou uma série de possibilidades mais fáceis para aquela madrugada, onde os problemas eram substancialmente mais simples, causados por uma mera indecisão, causados por um ingênuo medo, causados por um estranho receio do que viria a seguir, causados até mesmo por um pular de cerca, uma mentira, uma infidelidade passageira que com o tempo e com uma porção extensa de diálogos talvez se resolvesse. Mas os problemas eram como um Deus: jamais benevolentes, nunca misericordiosos, fundamentavam-se nas alternativas inviáveis, nas soluções há muito sem resolução, nas impossibilidades e nas descrenças.
Foi-se então o quinto cigarro.
O sexto.
E o sétimo.
O oitavo veio quando a chuva pesou e os chuviscos finalmente tomaram alguma decisão sobre quem seriam. O céu avermelhado adensou-se, um e dois relâmpagos piscaram no céu. Eram quatro da manhã. Quarta-feira. E a baía soprava por entre os prédios e os condomínios e os shoppings e as farmácias e os supermercados da Doca um vento mais forte, cabalístico e impiedoso.
Aquele alguém entrou no carro. Havia juntado o resto de todos os cigarros numa sacola plástica que havia lá dentro. Quis imaginar uma realidade em que cagava para a sustentabilidade e o meio-ambiente na mesma proporção em que sua madrugada terminaria feliz. Um lado B improvável. Fechou os vidros e acendeu o nono cigarro.
Tom Petty ainda cantava:

now the wind is high and the rain is heavy
and the water's rising in the levee

– Tu estás errado, Tom-camarada. Tu estás errado. – A chuva caiu e o carro saiu do posto de gasolina.
Já bastava de Doca e de sua melancolia.

still I think of her when the sun goes down
it never goes away, but it all works out

– Eles não são azuis, não. Não, não.
Eles eram negros.
Negros como a noite.
Negros como vespas.