3 de dezembro de 2017

Carolita




Cai lá fora a chuva de Belém.
Eu a vejo pela janela escorrendo no vidro em veios transparentes, oblíquos. Porém que saibam todos: isso é um fragmento de memória, um breve lampejo de três segundos na tela do cinema, uma cena desconexa, perdida diante de olhos que ainda se adequam ao que está por vir.
Cena introdutória, misteriosa e a princípio irrelevante.
Cena fictícia, não factual.
Cai lá fora a chuva de Belém, repito.
Distante, o som tão igualmente pode ser dos pingos contra o asfalto mal pintado ou das calçadas irregulares quanto tão igualmente pode ser o som de fiapos de bacon fritando em óleo vencido ao fundo na cozinha, onde pés descalços número 36 tendem a caminhar.
Cai lá fora a chuva de Belém, repito de novo.
Em outro lampejo, Carolina me pergunta, curiosa:
- Como tu fazes isso?
- Como eu faço o quê?
- Todos esses contos: de onde eles brotam? – Os dedos esqueléticos, sinuosos e elegantes de Carolina bailam pelos meus cabelos, depois apertam meu crânio como se eu fosse bicho esquisito.
Ela sabe que sou um bicho esquisito.
- Brota de tudo e de nada, Carol.
- Mas como é? – Ela se aproxima cada vez mais perto, cada vez mais curiosa. A respiração está quente, um fio de suor escorrendo pela testa como o fio oblíquo da chuva a escorrer pela janela. Também está chovendo neste lampejo quando ela insiste: – Como é? Como funciona? Como tu fazes?
- É normal como qualquer outro trabalho ou como fritar um ovo.
- Como assim?
- Às vezes o ovo sai bom, às vezes você queima a frigideira.
- E a inspiração?
- O que tem ela, Carol?
Ela sorri e se aproxima um pouco mais, movendo os dedos entre meus cabelos como aquelas garrinhas que você encontra no comércio e que te massageiam o couro cabeludo e te dão arrepios e quase te dão orgasmos e te levam de mãos dadas ao seu Buda interior.
- Tu esperas a inspiração?
- Não. Tu precisas de inspiração pra fritar um ovo, Carol?
- Não, não preciso.
- Eu também não preciso de inspiração. Nem pra escrever, nem para fritar o ovo. Inspiração não existe, tu fazes sem ela ou tu morres de fome.
- Eu te vejo nessa cama há três semanas e tu não escreveste nada. Tá esperando a inspiração? – Provocou ela, debochada.
- Não, só tô morrendo de fome.
Carolina sorriu. Desses sorrisos que tornam-se lampejos eternos e poemas que você sempre repetirá, não importa o quanto se desligue de sentimentalismos e experiências próprias.
- É assim que funciona.
- Entendi.
Carolina se deu por satisfeita. Utilizou os dedos para carícias que não faziam-me parecer o animal esquisito que ambos sabíamos que eu era. Lá fora, a chuva de Belém continuou a cair e meu dei satisfeito por vê-la através da janela e por ter Carolina aqui ao lado.
Aqui termina o primeiro lampejo de Carolina: a memória transcorrida ligeira, foto borrada de movimento, alguém pulando ou correndo ou mexendo o rosto porque riu e não manteve a pose. Aqui Carolina se distancia com suas perguntas meio bobas, a risada despretensiosa, o jeitinho curioso de pensar e a ligeira capacidade de apanhar explicações complexas sobre fluxos de consciência ou movimentação quântica de átomos.
Agora, no entanto, Carolina ficou para trás.
Agora, no entanto, Carolina ficou um tanto quanto distante, como também ficaram distantes a chuva de Belém e a janela de vidro com o veio de água a escorrer, oblíquo. O suor de Carolina também ficou para trás, aquele suor sorrateiro descendo da testa que sempre fazia germinar tais perguntas curiosas.
Cai lá fora a chuva de Belém, ouso repetir novamente.
Embora o lampejo agora seja outro, eu continuava ainda sem escrever há semanas. Carolina outra vez pergunta:
- E quando as palavras não saem e precisam sair, como tu fazes?
“Boa pergunta, Carolita”, sussurro mentalmente. Na janela de vidro não há veios, na página em branco não há letras, não há vocábulos, não há estrofes simples, não há sonetos vagabundos com rimas previsíveis, não há prosa poética, não há prosa, não há linha, não há tecidos, não há dignas tecelagens.
“Boa pergunta, Carolita”, sussurro mentalmente, e então levanto, sento na cadeira diante do computador e abro a página em branco. Acaricio os teclados como acariciaria a bochecha de Carolina depois da briga infernal que quebrou metade da nossa estante e os meus discos do Bob Dylan.
Respondo a ela:
- Hemingway disse que quando sentia dificuldades, o truque mais simples que possuía na manga era escrever a frase mais sincera que conhecia. Ele escrevia a frase mais sincera e então acho que soltava a fera criativa que havia lá dentro.
- É esse truque que tu usas?
- Mais ou menos. Às vezes, escrevo a frase mais sincera. Às vezes, escrevo a frase mais simples.
- Escreve uma agora. – Desafiou ela.
Pensei por um instante antes de começar a digitar. Ela prostrou-se sobre os meus ombros e leu em voz alta:
- “Cai lá fora a chuva de Belém”.
Ela olhou para a janela seca e depois de volta para mim.
Carolina apenas sorriu.
E na penúltima vez, repito: cai lá fora a chuva de Belém.
O toró inunda a cidade e transborda os canais baixos, os raios iluminam os céus e estremecem o solo paraense onde as raízes cada vez mais fracas e centenárias das árvores balançam e fazem cair mangas, galhos, fios e postes elétricos. Na altura deste penúltimo lampejo, o solo estremece com trovões.
Algumas coisas parecem ter morrido.
Carolina sabe disso, os dedos dela não estão curiosos entre meus cabelos, muito menos as mãos prostradas sobre meus ombros e lendo o que escrevo, pois não estou escrevendo. Tudo o que faço é olhar pela janela, a mesma chuva sobre a mesma cidade, o mesmo veio oblíquo correndo diante dos meus olhos.
Carolina está sentada na ponta da cama, cheia de perguntas e cheia de outras reticências também. Ela finalmente pergunta:
- Me diz uma coisa?
- Claro.
- Quando escreves e sentes que não ficou do jeito que querias, tu jogas fora?
- Não.
- Escreves tudo de novo?
- Não.
- O que tu fazes?
- Eu volto ao texto. Leio. Releio. Repasso. Leio em voz alta. Encontro às vezes rima barata, encontro quase sempre rima necessária. Aparo as pontas, quebro parágrafo, excluo frase solta, desnecessária. Enxugo o que anda molhado demais, lubrifico o que precisa melhor se mover. Quebro, excluo, mato e regenero. Leio. Releio. Repasso. Leio em voz alta, eloquente. Faço de mim outro, faço de mim não eu, mas o outro, o outro universal, o outro sentado do outro lado do mundo, o outro que nunca conhecerei e que nunca saberei que por aqui passou. O leitor, sabe?
- E aí? O texto tá pronto?
- E aí o texto tá melhor.
- E aí tu resolveste o problema dele?
- Sim.
- E quando ele tá bom?
- O que que tem?
- Tu deixas ele bom do jeito que tá?
- Eu volto e ajeito. Corrijo. Aparo. Melhoro o que pode ficar melhor.
- Melhora o que pode ficar melhor?
- Sim.
- Se daqui a 10 anos tu voltares ao texto, ainda podes mexer nele?
- Claro.
- E ainda podes melhorá-lo?
- Posso.
- Então o segredo é só voltar e voltar e voltar pra melhorar? Pra corrigir?
- Sim.
- Oh.
Ela deixou o “oh” escapar por entre os lábios de maneira despretensiosa, os olhos castanhos perdidos entre a roupa suja no canto do quarto. Ela estava nua na ponta da cama, costas lisas, imperfeitamente perfeitas, a respiração leve e controlada, porém o sutil veneno na voz, a sonsa indireta que fingi não entender.
Não estávamos falando sobre textos, é claro.
Ou estávamos?
Então respiro fundo e respondo sob a máscara da ingenuidade, jogando o jogo indireto dela:
- Mas as vezes você não volta, não é certo voltar e lapidar sempre o texto.
- Por que não?
- Porque ele perde a identidade. Às vezes é preciso parar.
- Ah, é? – Perguntou com o mesmo tom de novo.
- É. – Respondi com o mesmo tom de novo.
Ela assentiu e coçou a cabeça, sonolenta.
Carolina vestiu a calcinha e a camiseta, igualmente cansada de tentar o que já não funcionava, o que já não fluía, o que já não lubrificava, o que já não suspirava e o que já não se consumia e não consumava. Algumas coisas na vida acabam por não ter solução e não importa o quanto você volte,
volte e
volte e
volte
e
volte, até com lapidação elas não se lapidam,
não melhoram,
simplesmente terminam.
Na manhã seguinte, Carolina me deu um beijo longo demais na bochecha e me apertou os braços com as unhas pintadas de laranja. Atravessada ao corpo, a alça da bolsa pesada, inchada de coisas.
- Não esquece de levar o resto das minhas coisas na segunda, tá?
- Tá.
Mais um beijo e Carolina se foi.
Fim do penúltimo lampejo.
É Abril e agora chove lá fora.
Cai lá fora a chuva de Belém, repito novamente, este é o último lampejo de Carolina.
Ela entra pela primeira vez em meu quarto, os cabelos molhados e os pés descalços, a toalha que dei a ela estendida nos ombros como um poncho de crochê. Carolina mora do outro lado da cidade, Belém já não oferece tanto transporte público às duas da manhã e ela não pode voltar,
acaba me pedindo para dormir aqui.
Mas já sabíamos que pararíamos aqui.
A noite inteira nos trouxe até aqui.
- Olha – Carolina, meio bêbada, abre um sorriso e puxa um livro da estante – Eu tinha uma ex que estudava Letras e ela enchia a boca pra dizer que tava lendo Faulkner, que Faulkner isso, que Faulkner aquilo.
- E aí?
- Aí eu fui ler.
- E aí?
- Terminei O som e a fúria primeiro que ela.
- Claro que terminou.
- Acho que ela abandonou o livro.
- Estudantes de Letras e seus egos inflados. – Bocejei, igualmente bêbado. Sentei na cama e sorri. – Eu nunca li Faulkner.
- Então por que tens ele aqui?
- Tava na promoção e eu precisava de referência pra um capítulo.
- Conseguiste a referência?
- Uhum.
- Terminaste o capítulo?
- Sim.
- E o livro?
- Um dia eu leio, Carolita. – Dei de ombros, zombeteiro. – Sem pressa.
Ela riu de novo e fez uma careta estranha. Era a primeira vez que eu a chamava de Carolita.
- Ninguém nunca me chamou assim. – Ela pôs o livro de volta na estante e veio até mim. Prostrou-se sobre meus ombros. – Como escritor tu és uma farsa.
- Inteiramente. – Concordei com ela.
Então me beijou.
Cai lá fora a chuva (torrencial) de Belém e na janela um veio de água se forma.
Oblíquo.
Alguns lampejos permanecem mais que outros,
alguns lampejos nunca se vão.





23 de novembro de 2017

Linhas côncavas



Linhas,
linhas côncavas,
linhas sob as digitais, linhas entre as palmas. Linhas comigo, em cima, em baixo, linhas in, linhas sobre e linhas sob. Linhas sob a luz da sala apagada e linhas sob a luz da cozinha inerte, diante dos meus dedos, iluminadas, vivas, acesas. Linhas de madrugada, ansiosas e verdadeiras em despirem-se, verdadeiras em exibirem-se serenas ou afoitas. Linhas que sobre mim não se controlam, embora quem a fingir quase-controle seja eu: embasbacado em admirá-las, tolo em afagá-las com dedos, boca e língua. Do corpo feminino, depois de cabelos, depois de unhas, depois de olhos e depois de dedos, eu admiro os seios: são eles milimetricamente posicionados para acolher não a face inteira, mas a lateral do rosto, num acalento estrategicamente orquestrado pela genética feminina; não importando se grandes, não importando se medianos e não importando se pequenos, não importando se um desconcertado broto ou não importando se tão belos e colossais; estão sempre ali, às vezes em sincronia, às vezes acanhados, às vezes sem pudor e às vezes paradisíacos em simetria.
Desejei, tão falho, escrever sobre tuas linhas.
Desejei, tão falho, falar sobre os teus seios, acalantos arredondados, discretos, não dos pequenos que por aí encontrei e tanto venerei, mas desses quase-medianos, com linhas côncavas, insanamente esculpidas pela natureza, pela genética ou pelo Desenhista Universal, O Arquiteto Criador de céus, mares, galáxias e seios.
Desejei, falho, falar sobre eles sem soar agressivo, torpe e violento, sem soar misógino como aquelas duas meninas (que sempre revezam nomes e aparências aonde quer que eu vá) bem disseram que eu era, quando, horrorizadas, escutaram a leitura minha de um conto, crônica ou poema em volta da roda. Algumas delas levantaram-se. Outras reviraram os olhos. Essas duas permaneceram como as duas do outro texto, texto distante, numa agora perdida sala de um antigo e perdido grupo de apoio para suicidas em potencial.
Desejei, tão falho, escrever sobre teus seios sem soar como Bukowski, porque há quem diga por aí que faço-os lembrar do velho safado quando escrevo, pois estas linhas, às vezes, trazem consigo um palavrão ou o nome de alguma genitália devidamente escrita e carregada, como alguém que digita em caixa alta para expressar grito e eloquência.
Desejei, falho, no entanto escrever de maneira diferente de Bukowski e diferente de mim, sem palavrões, sem nomes de genitálias, sem ofensas ou podridões; desejei, tão falho, escrever sobre as linhas dos teus seios sem nem mesmo usar a outra palavra, a mais vulgar delas, porque enquanto estavas sobre mim, daquele jeito intenso, sim, mas tão bela e louvável, com a camisa do Monkey Business sobre o corpo – a única peça ainda a te cobrir –, e minhas mãos subiam e arrastavam a camisa só pra vê-los balançando, subindo macios, descendo orgásmicos, foi com beleza que te enxerguei e foi com ternura que desejei te eternizar, independente dos caminhos que nos guiarem daqui em diante.
Desejei, falho, tecer a respeito das linhas do teu corpo e dos teus seios arredondados com o mesmo toque dos poetas, embora poeta eu não seja – sou só um contador de histórias a domar aqui e ali as palavras. No entanto, domar palavras não requer dom, requer prática. Com dom, meu bem, nascem os poetas, que dos teus seios fariam poema épico com palavras rebuscadas, trocadilhos em latim e referências classicistas; dominariam a musicalidade, o ritmo e a rima, não A com B ou B com A como os domadores de guardanapo tão banalmente ousam dominar.
Com teus seios eu faria muito, muito mais do que tão mera e tolamente falar sobre
linhas,
linhas côncavas, suadas e bem alinhadas com as tortas linhas de torto destino que marcam as palmas de minhas mãos.
Desejei, tão falho, escapar da sina de tantos Bukowskis de prosas agressivas que afastam leitores sensíveis e críticos xiitas, exacerbados e desesperados por poesia nata e sensibilidade latente. Desejei, falho, escapar da sina de escrever da maneira antiga (pelo menos aos ouvidos das meninas que escutaram apenas um conto errado e outro), sem tratar com banalidade, descaso ou desrespeito o teu corpo com cheiro de sabonete líquido, o teu corpo pós-banho de pele macia, suave e com os seios vivos, redondos, macios e bem-talhados.
Desejei, espero que não tão falho, talhar por aí o casual primeiro encontro de quando tuas linhas vieram parar sob o meu toque, para tocá-las e para senti-las, para talhá-las na atual lembrança da minha pele.
E por isso tuas linhas em minhas linhas toco agora:
tão côncavas,
tão lindas.


13 de novembro de 2017

As tetas da camponesa




Agatodemon sentava-se na poltrona à frente, reclinado no conforto do móvel e descansando os contornos moles e apáticos de seu corpo. Tudo o que vestia era uma túnica branca que quase se fundia ao tom de pele igualmente pálido, sem fluxo sanguíneo, sem ossos, sem fibras ou músculos, apenas um mero corpo esguio e verminoso constituído de uma carne de aparência esponjosa e transparente. Os braços vez ou outra se mexiam, molengas como uma lesma, porém sempre cheios de si, seguros e cautelosos. Ele tinha uma cabeça incrivelmente grande com uma imensa massa encefálica latejante pulsando sob a pele de cabelos ralos e grisalhos. Agora mantinha as mãos unidas, observando ou sendo observado.
Ele sorriu e continuou sua história:
- Eu gostava mesmo era dos arredores das grandes cidades.
- Por que? – Perguntou o rapaz em meio a um trago de cigarro.
- Veja só você: se as ruas hoje já fedem com um sistema regular de drenagem e limpeza, imagine naqueles dias. – E desentrelaçou os dedos para buscar uma fina taça de vinho ao seu lado. Bebericou muito suavemente, como uma virgem beijando os lábios do amado pela primeira vez. – As cidades fediam a merda. – Sussurrou com um chiado que lembrava muito ao de uma serpente.
O rapaz à sua frente até mesmo chegou a notar a suave bifurcação na ponta da língua negra de Agatodemon, mas ela não era nem assustadora, nem perigosa. Possuía uma delicadeza bela, cada movimento e cada chiado como uma dança sob o luar.
- Que merda. – Disse o garoto, enquanto dava um peteleco na ponta do cigarro e fazia as cinzas caírem dentro da xícara vazia de café.
- Literalmente. De fato, eu estava encantado naquela época pelos arredores de Creta. Você deseja saber como as coisas eram? Pois bem, as coisas eram boas. – Ajeitou-se na poltrona, mudando a coluna dobradiça de posição.  – Pelo menos para mim, claro. Eu gostava dos campos, oh, os camponeses... Bons homens, bons homens.
- Como era?
- Como era o quê?
- Como eles falavam?
Agatodemon revirou os olhos, profundamente incomodado pelo interesse linguístico e não cultural do rapaz. Mesmo de mal agrado, prosseguiu:
- Excepcionalmente interessantes. Tudo o que temos hoje veio deles, sabe por que? Eles eram a massa, eram a força das nações vindouras, a origem dos trejeitos e da língua usual e perpétua.
- E você não acha isso um desperdício, perpetuar o mal uso vindo dos ignorantes?
- Um desperdício de variantes? Um desperdício pelo nascimento de gírias, novos vocábulos e soluções engenhosas? – E gargalhou em um tom divertido e quase meigo. – Claro que não, o que você tem na cabeça?
- Nada.
- Pois bem.  Eu amava os campos. Certa vez conheci uma camponesa, ah, tinha umas tetas enormes que poderiam me fazer dormir entre elas por noites tempestuosas inteiras.
- Mais respeito.
- O que?
- Mais respeito com as moças, diabo. – O rapaz sorriu e tragou o cigarro, expulsando a fumaça pelo nariz e boca ao mesmo tempo. – Não é um modo muito educado de se falar. “Tetas”? Onde está sua educação? Os tempos são outros.
- Ora, eu sei, não queira me ensinar, criança. – E abanou a mão, sutilmente mais ofendido. Serpenteou a língua por entre os lábios ressecados enquanto um fio ralo de cabelo escorreu pela fronte. Afastou o cabelo. – Não tiro sua razão, mas você precisava conhecê-la. Os campos eram mais bonitos com sua presença, e as tetas... Ah, as tetas...
- Como elas eram?
- Fartas. – E moveu ambas as mãos na altura do próprio peito, imitando os contornos das glândulas de uma mulher, mas ainda assim, mesmo com a os gestos obscenos, conseguia ironicamente ser poético e delicado, quase respeitoso. – Essas coisas que hoje as suas mulheres fazem? Como chamam?
- Silicones.
- Apte! – Assentiu. – São artificiais, belas em sua arquitetura e traços circulares, porém desinteressantemente artificiais. As tetas da camponesa não eram assim. Eram naturais, redondas, macias, gigantescas, porém seguras, nem um pouco abaixo, nem um pouco acima. Uma obra de arte.
- Ela era sua cliente?
- Oh, mas é claro que sim. – E voltou a sorrir.
- O que ela pediu?
- Que eu degolasse o marido. Ele a molestava desde quando ainda era uma virgem...
- Desde que ainda era uma criança, você quis dizer. – Corrigiu.
- Oh, sim, sim. Hoje vocês distinguem, naquele tempo nunca houve isso. Eram virgens ou não.
- Que sádico.
- Bastante.
- E você degolou?
- Mas é claro.
- E ela?
- Viveu até a tenra idade, solitária em suas terras e nunca mais incomodada por nenhum homem vivo ou “sádico” sequer. Vocês hoje em dia costumam achar que a felicidade plena reside na ideia de um relacionamento a dois... ou a três... Grande Trindade Infernal, por vezes até quatro, cinco, onze ou vinte... – Balançou a cabeça veementemente, negando a ideia com nojo. – A tetuda teve sua felicidade na solidão, cuidando de suas terras, seus animais e sua própria privacidade. Nunca nem sequer necessitou de um companheiro ou companheira para satisfazê-la. Você me diz que os tempos são outros. Ora, não discordo, mas em alguns aspectos os tempos nunca mudaram.
- E as tetas?
- Nada é eterno. Óbvio que elas caíram, ficaram flácidas e pouco atraentes, mas ainda profundamente acolhedoras em noites frias.
- Que tarado. – O rapaz gargalhou e acendeu outro cigarro. – E a camponesa?
- O que tem ela?
- Como morreu?
- Fui pessoalmente buscá-la.
- E como você faz isso, geralmente?
- De forma limpa, segura e rápida. Particularmente indolor, para ser sincero. Sem cães invisíveis e raivosos como as histórias contam às suas crianças de hoje; sem sangue, sem gritos, sem sustos. Apenas uma passagem.
- Como alguém poderia confiar?
- Ora, criança, eu sou um sujeito de negócios. E negócios são negócios, não importa a época, não importa a reputação de sua espécie. Naquela época eu poderia ter fundado uma empresa e até hoje colhendo os lucros. Muitos vinham a mim.
- E quanto aos sacrifícios com gatos e bebês e galinhas pretas e círculos bizarros?
- Como eu falei, sou um sujeito de negócios. – Bebeu o vinho e balançou-o dentro da taça, observando-o deslizar dentro dela através de seus olhos de um vermelho apático. – Tudo o que você mencionou são coisas das ordens mais altas, pertencentes aos animais e anarquistas. Quem se considera superior não se importa com regras, não as segue e faz o que bem lhe apetecer.
- E seu modo de “fazer negócios”?
- Você se surpreenderia se soubesse que os setores abaixo cumprem burocrática e sistematicamente com a ordem. Em outras palavras, respeite sempre os negócios.
- Entendi.
Agatodemon degustou um pouco mais do vinho, fechando os olhos enquanto sentia a bebida dançar pela língua e aquecer as bochechas.
- Sabe, os grandes reis, em qualquer época passada, tinham sempre os melhores vinhos em mãos. Havia entre suas maiores regalias a constante cautela com suas safras, exigiam que guardassem-nas mesmo após suas mortes com a mesma fixação e loucura dos velhos faraós, só que não com a vida no pós-morte, mas com a embriaguez. – Admirou o conteúdo da taça. – 1943. – Outra vez degustou. A massa encefálica quase exposta parecia pulsar com mais intensidade sob a fina camada de pele no crânio gigante. – Mas já que você tanto se interesse pela língua glamorosa, devo admitir que as melhores safras advinham dos generais romanos.
- Sério? Por que? – Reclinou-se para frente no sofá com uma pontada evidente de interesse.
- Claro que é uma afirmação embasada puramente em uma questão de preferência, mas as safras que os generais exigiam eram mais resistentes, feitas para viagens de meses ou até anos em suas campanhas expansionistas. Não é “só” uma língua ou “só” um vinho, criança. É uma história inteira.
- Ah sim, que maneiro. – Cruzou as pernas e sentou-se sobre ela. O rapaz era meio desleixado, magro e com os peitos desnudos, tão cabeludos quanto o cu de um gordinho com disfunções hormonais. – E quantos desses generais foram seus clientes?
- Inúmeros! – Vibrou. – Você não seria capaz de contá-los nem em uma vida inteira.
- Satisfez seus pedidos?
- Cada um.
- 100% de aprovação da clientela?
- Toda.
- E a camponesa tetuda?
- O que tem ela?
- Como você degolou o marido dela?
- Oh! – Bebeu todo o vinho restante da taça em um trago urgente e pôs a taça de lado, o corpo humanoide e verminoso voltou a corrigir-se elegantemente e também se inclinou para frente, tentando fitar o rapaz mais de perto. – Eu não degolei.
- Mas havia dito que sim.
- Ah, sim. O que quis dizer é que degolei, porém não com minhas próprias mãos. Não é assim que funciona, criança.
- Então como é que é?
- Os clientes geralmente nem sequer notam. Tudo é feito com sutileza, vagarosamente, sem pressa, sem alardes. Cumpro com minhas promessas do mesmo jeito que venho buscar meus tostões, compreende? Na verdade, eu nunca nem ao menos cheguei a encostar no marido da camponesa. 
- O que você fez?
- Dei coragem a ela. Sussurrei-lhe algumas poesias em um ouvido, alguns conselhos em outro, e animei-a noites e noites com canções de bravas guerreiras de continentes desconhecidos. Sem perceber, cheia com minhas promessas e obesa com minhas histórias de bravura, através de sonhos e coceirinhas atrás dos ouvidos, a fiz degolar o próprio marido. Decerto, ajudei-a mais ainda.
- Como?
- Não só dei a ela justiça como também dei liberdade. Aquelas criaturinhas peludas que berravam a todo instante a quem ela chamava de filhos. Fiz a camponesa tetuda degolar cada uma delas, em seguida ela livrou-se dos corpos... Utilizou-os como adubo e assim teve a maior das macieiras da região.
- Cacete!
- Na verdade, aquilo foi pessoal. Eu precisava ajudá-la, não sabe o bem que o ato fez àquela pobre alma.
- E como é que é que você vai fazer comigo? – Jogou as mãos para cima, com um tom de voz sutilmente mais elevado. – Minhas provas estão a três dias de mim e tudo o que fiz nessas semanas foi alimentar um diabrete metido a educado com comidinha gourmet e vinho de luxo. É só uma prova! Uma simples prova.
- Você se surpreenderia com a simplicidade dos pedidos que me foram solicitados em todos esses séculos. São os desejos simples os mais raros de se alcançar, concorda? – Esfregou as mãos e sorriu. Os dentes, tão brancos que pareciam uma prolongação da pele e da túnica. – Acho que finalmente você está pronto para o que merece. Terá sua prova e, como sou um bom sujeito de negócios e verdadeiramente gostei de você, farei com que fale a língua glamorosa fluentemente na frente do “arrogante de seu professor”.
- Finalmente!
- Devo admitir que seu pedido é esplendidamente elegante.
- Passa logo pra cá.
- Não é assim, acalme-se. – Gargalhou. Realmente havia criado uma empatia crescente pelo garoto, pois adorava todos aqueles que prezavam pelo status vindo das qualidades da mente. Depois das tetudas, é claro, era seu tipo favorito. – Recorda-se sobre o que falei a respeito da sutileza?
- Que os pedidos se realizam sem ninguém perceber?
- Sim.
- O quê que tem?
- Para você, as últimas semanas foram desperdiçadas alimentando um “diabrete” metido a educado com comidinha gourmet e vinho de luxo. – Encheu a taça, ergueu a bebida em um brinde. – Nem sequer notou o momento em que parou de falar sua língua materna e passou a conversar comigo em latim nato. Em sua adormecida cabeça, ainda estávamos na sua língua-mãe.
- O quê?
- É assim que funciona. – Balançou os ombros, meio orgulhoso por seu próprio trabalho como mestre, meio orgulhoso do garoto como aprendiz.
O rapaz continuava a sorrir, tagarelando em latim e ouvindo sua própria voz ecoando no apartamento vazio. Mal conseguia acreditar, mal poderia se conter.   
Agatodemon apenas riu, divertidamente compadecido pela euforia orgulhosa e galante do rapaz.  Já estivera ao lado de alguns filósofos nos tempos antigos e adorava o jeito que cada um pulava em euforia quando descobriam as capacidades entregues a eles com sutileza e verdadeiro esforço merecido.
O garoto, pulando pelo apartamento e tagarelando na frente do espelho, agora magicamente percebendo a mudança, vibrava feito a criança que era. Certamente deveria odiar o professor de latim esnobe, preconceituoso, frustrado com a mulher deteriorada por tantas doenças e bravo pelo salário patético ao fim do mês (e você nem precisava ser um demônio com milhares de anos para saber disso).
Aparentemente, valia o preço da alma aprender a pura língua latina para calar o ego do professor e enaltecer o seu próprio.
Aparentemente, os desejos mais simples continuavam como os mais almejados.
Bebericando o vinho, Agatodemon sorriu, levou a taça ao que se assemelhava de nariz e suspirou.
- Puer vostra sapientiam. Vostra sapientiam.



29 de outubro de 2017

Eu não sou uma máquina como os rapazes




Os rapazes, eles debatem euforicamente sobre coisas demais, sobre muitas coisas.
Os rapazes, eles agora debatem sobre atitudes femininas do mesmo modo que sanguessugas engravatadas às terças-de-manhã debatiam sobre transporte público e o calor nas grandes metrópoles enquanto gastavam dinheiro com combustível em seus jatos particulares. Enquanto isso, quem caía do céu eram pombos com infartos ou pilotos com milhares de horas de voo que hoje à noite não voltarão para casa.
Os rapazes, eles são experientes, experientes demais, excessivamente experientes, mas estou calado e eles sempre batem em meu ombro, porque estou quieto aqui nesta mesa e eles precisam de alguma forma, desesperadamente, saber o que penso a respeito.
– Não vai beber? – Gustavo me pergunta pela terceira vez.
– A doutora disse que eu não posso. – E com mais uma golada na garrafinha de água eu sou obrigado a olhar para ele: Gustavo, seus cabelinhos cheios de gel e a barba bem-feita nos maxilares com o barbeiro que custa metade da minha fatura do mês.
– Que frescura, essa doutora manda em ti?
– Ela é pelo menos gostosa? – Questionou Carlos.
Imaginei aquela senhora distinta e extremamente humana, sempre preocupada (verdadeiramente) comigo ou com todos os outros pacientes por debaixo do jaleco. A imagem não formou-se tão bem quanto achei que se formaria, algo como uma tela azul emergencial no Windows surgiu em todo meu vislumbre mental.
Imaginei o quanto queria beber para deixar passar aquela ladainha irritante que os rapazes orquestravam.
Imaginei também os meus rins apodrecendo e se fodendo e a doutora triste. Imaginei a doutora decepcionada.
Aí bebi outro gole e fingi, forçando, entediado, uma risada sacana:
– Com toda a certeza, por que tu achas que tô obedecendo? – Virei a água como um cowboy viraria o velho scotch.
– Meu garoto! – Gustavo bateu novamente no meu braço, meio orgulhoso.
– Tá certo, caralho! – Carlos bradou.
– O que que quero saber é: o que achas disso? – Marçal voltou ao assunto, endireitando no rosto os caros óculos de grau que davam a ele aquele tom intelectual que fazia questão de conservar nas rodas da cidade e entre as moças que comia.
– Orgasmos femininos? – E dei de ombros. – Todos temos o direito de tê-los. – E bocejei. Bocejei de verdade, porque eu sempre bocejo de verdade, mesmo quando o assunto me interessava. Aquele assunto, no entanto, dava-me nos nervos.
– Não, espertão. O que tu achas sobre essas minas que fingem prazer?
– Um bando de mentirosa. – Gustavo estalou os lábios.
– Mulher não me engana não, caralho. – Carlos bateu na mesa e riu. Virou o quadragésimo sétimo copo.
– Acho de boas, habilidade difícil de se adquirir e administrar. – Respondi por fim, enquanto Calos e Gustavo davam tapinhas um no outro como dois eternos camaradas invioláveis.
– Tá, mas não achas ardiloso? – Marçal moveu as mãos. Ele sempre movia as mãos quando tentava argumentar ou impressionar alguém com seus argumentos bem estruturados de um quase-formado-historiador.
– Ardiloso?
– É. Tu estás lá, de pau duro, ela pulando em cima de ti e tu sabes que ela tá fingindo.
– Como é que eu sei que ela tá fingindo? – Bocejo de novo.
Olho no relógio: dez e quarenta da noite.
– Ela tá gemendo e não tá lubrificada. – Pontuou Marçal, convicto.
– Mas aí a camisinha ajuda, papai. – Gustavo ergue o dedo.
Carlos faz uma cara estranha:
– Camisinha?
Marçal ignora os dois e eu encaro Gustavo por três segundos, meio perdido, antes de voltar ao Marçal.
– Se eu sei que ela tá mentindo e ela tá fingindo, eu paro ou sei lá, deixo pra próxima. – E bebi um pouco mais da minha água antes que eles explodissem em revolta e me olhassem torto.
– Isso é sério? – Marçal exige silêncio dos outros dois, que estão eufóricos demais acotovelando-se como macacos.
– É. Mas no geral eu acho um esforço louvável. A moça com quem to transando: é desconhecida ou namorada?
– Tanto faz. Qual a diferença?
– Se for desconhecida, as chances de ela parar e dar o fora são maiores. Se for namorada, eu vou me sentir importante.
– Importante por que ela tá fingindo? – Carlos pronunciou como uma injúria.
– Se uma mulher finge enquanto tá contigo, é no mínimo porque ela se preocupa excessivamente a ponto de não te falar a verdade, porque aparentemente tu vais ficar magoadão com os fatos. – Girei a tampinha da garrafa. – No mínimo ela se importa com o teu bem-estar psicológico, com a tua virilidade que não pode ser danificada.
– O que isso significa? – Marçal inclina-se sobre os joelhos, interessado em mim como se eu fosse um animal exótico.
– Significa que se uma mulher mente pra ti, ela com certeza se preocupa contigo ou ela tá tão acostumada a fazer aquilo com caras que nunca a satisfazem que já não nota que tá fodendo por foder e não pra ganhar prazer.
– Continua. – Marçal sorri um pouquinho.
Os dois outros macacos se acotovelavam.
– Se uma mulher mente pra ti e finge que foi bom, talvez ela se preocupe contigo... Talvez ela se preocupe em não destruir o teu moral. O que é louvável: saber que a moça se importa com você a esse ponto, mas também é errado, né?
– Por que é errado? – Os três perguntam.
– Porque ela nem tá excitada, pra início de conversa. E porque ela tá mentindo só pra te deixar bem.
– Viu? Eu disse. – Gustavo cutucou Carlos e balançou a cabeça para Marçal. – Mulher não me engana não, porra.
– Não ligo se não tiver lubrificada, mando bala assim mesmo.
Os dois macacos brindaram.
Os dois macacos riram.
Marçal balançou minimamente a cabeça e me perguntou:
– Então pra ti, ser enganado é privilégio?
– É consideração, em algum nível.
– Então é bom?
– É ruim.
– Já foste enganado?
– Com toda a certeza que sim.
– Te disseram?
– Precisa?
– E como tens tanta certeza?
– Não é possível que eu tenha sido eficiente todas as vezes.
– Tu não costuma ser?
– Não é isso.
– Então o que é?
– É, então o que é? – Gustavo pergunta.
– Nunca me enganaram. – Carlos gargalhou, convicto demais.
– Mulher é bicho mentiroso, mano. – Pontua Gustavo.
– Eu não sou uma máquina de fazer sexo gostoso como vocês, camaradas. – Destampo a garrafa, bebo o restante e peço outra ao garçom. – Então provavelmente não satisfiz todas elas, alguma devo ter deixado passar.
– Tu és fresco? – Gustavo questiona.
– Ê, caralho. – Carlos continua.
– Humm. – Marçal me olha de cima, sempre de cima com seus óculos arredondados e ingleses, sua barbicha altiva, aquela que mostrava o quanto ele refletia sobre os assuntos do mundo.
– Tu gostas que elas mintam pra ti?
– Eu prefiro que elas digam a verdade na hora e que parem ao invés de fingir.
– Mas disseste que achava consideração que elas finjam.
– Disse que julgava consideração, sim, em algum nível. Não disse que achava certo.
– Tu tá é fazendo a parada errada, caralho. Tem que aprender mais. – Diz um deles.
– Tem que aprender mais. – Concorda o outro.
– Oh. – Coço a cabeça, outra vez bocejando. – Verdade, tenho que aprender mais com vocês.
A água chega.
Embora me olhem desconfiados, a conversa progride e são onze horas agora. A-ha canta a música de sempre no telão do bar e os rapazes vão gradativamente enchendo a cara.
Às onze e quinze eles começam a falar sobre pelos. Marçal é o que tem mais teorias e opiniões sobre os pelos, argumenta uma série de pontos e ressalvas a respeito da conduta do século XXI em contraponto à conduta do século XIV e faz uma analogia antropológica extremamente rebuscada com o mosteiro tal em outro século tal que possuía freiras com hábitos diferentes e coloca a questão em pauta mediante ao conservadorismo liberal do século XVIII e as influências nas correntes femininas do século seguinte e como isso formatou o posicionamento da mulher no século XX e a essa altura a moça da mesa ao lado se aproxima e diz concordar com Marçal e Marçal enche o copo dela e diz que não se importa, diz que as mulheres estão certas e diz o quão atraído sente-se por mulheres que possuem voz e enquanto Marçal fala, fala, fala, Gustavo e Carlos mantém-se calados, porque quando Marçal fala eles o respeitam e o glorificam ou eles fingem entender e fingem concordar, por mais que discordem, até porque fora o próprio Carlos quem dissera firmemente, antes da garota da mesa ao lado juntar-se à nossa:
– Mulher pra mim tem que tá aparadinha.
– Pra mim também, porra. Não me vem com aquele matagal todo, não sou agricultor, caralho.
Todos os três riram.
Até Marçal chegou a comentar:
– Uma vez tava lá no Oito e conheci uma moleca de Nutrição. Depois da quarta catuaba levei ela lá pra casa e quando tirei a calcinha dela, puta que o pariu...
– O que que era? – Gustavo ria.
– O que tinha lá? – Carlos enchia o copo.
– Porra, parecia que eu era um Bandeirante abrindo caminho pro interior do país.
Os dois espocaram de rir.
– E quando cheguei lá – prosseguiu Marçal – o cheiro era foda, moleque. Foda!
– O que fizeste?
– O que fizeste?
– Deixei meu nariz longe de lá e só torei, né? Mas já tava quase vomitando.
Gustavo balançou a cabeça, espocando de rir. Carlos parecia verde, quase a ponto de correr ao banheiro.
Mas por sorte a garota da mesa ao lado não escutou o que Marçal realmente julgava das condutas femininas e dos aromas femininos.
– E tu: o que achas disso? – Marçal me perguntou enquanto nossa mesa não fora agraciada com o prêmio da noite.
– Disso o quê?
– O pelo das libertárias. – Gustavo fez a piada que explodiu Carlos em risadas.
– Eu acho que tá de boas.
– De boas?
– É, de boas?
– De boas, porra?
– De boas.
– Tem certeza?
Para Marçal, respostas curtas eram uma ofensa. Se você não problematizasse e não tecesse comentários... Se você não tivesse comentário algum a fazer baseado em todos os livros que ele leu para o TCC, embora nunca tenha finalizado o TCC, embora nunca tenha sequer finalizado o curso, então você não era lá muito digno de se conversar.
As colegas de Marçal, sempre que estavam por perto, diziam, categoricamente:
– Tinha que ser pisciano, mano.
E todas caíam em gargalhadas e todas riam e eu fazia uma piadinha concordando.
Mas Marçal não era tão engraçado quanto as colegas: ele dizia sempre que tinha o ascendente em Dinossaurus e que astrologia não era ciência. Não que eu de todo discordasse, mas debochar já não era tão divertido assim. Quando de mim caçoavam e dos meus bocejos menosprezavam, dizendo que odiavam homens lentos, pelo menos as colegas de Marçal eram mais divertidas.
Marçal nem tanto, não com aqueles óculos alá John Lennon.
– É, pra mim tá de boas. – Respondi.
E tava mesmo.
E sem mais argumentos porque àquela altura da noite, às onze e dezessete, antes da garota da mesa ao lado unir-se ao grupo, eu esticava os pés e bebia a porra da água como se tivesse algum sabor, um sabor agradável.
Aí a garota chegou. Sentou-se ao lado de Marçal. Aí Marçal metralhou e jogou sobre a mesa todos os seus atributos usando apenas a habilidade da voz sábia e melódica. E a garota que Marçal arranjara foi a atração pelo resto da noite, tanto para ele quanto para os dois macacos.
Tanta água na minha corrente sanguínea finalmente fez efeito e levantei para ir ao banheiro. Tirei-a dos joelhos e quando saí de lá topei com a garota. Ela sorriu na minha direção, esperando em uma fila quilométrica para esvaziar a bexiga.
– Ei, moça.
– Oiii. – Quase como os rapazes, ela também estava bêbada, mas nem tanto.
– Eu queria te dizer uma coisa, mas tô meio...
– Ahhh.
– Não vou dar em cima de ti, nem nada. Relaxa.
– É o que todos dizem, né?
E as moças da frente concordaram com um comentário debochado e outro.
– Pois é, é sim. – Concordei, rindo de volta. Aí bocejei rápido antes de continuar. – Na verdade, é um aviso importante.
– Fala logo, mana.
– Meu amigo Marçal ali, sabe?
– Simm, sei. O que que tem?
– Ele brigou com a namorada ontem. Brigaram. Terminaram. – Pontuei com cada dedo. – Então talvez ele esteja revoltado e com certeza eles voltarão.
– Mas eles terminaram, né?
– Uhum, só durante as primeiras 72h. Depois ela volta correndo. Ou ele volta correndo. Sempre variam ou revezam.
– Por que estás me dizendo isso?
– Porque ele tá bêbado e já tá fazendo merda de novo. Vai por mim, não é a primeira vez.
– Ahhhh, é?
– É.
– Macho, mana. Tinha que ser macho. – Uma delas disse.
– Pula fora, manaaa! – Outra delas falou.
– Mas ele é bonitinho e tá solteiro, lembra disso. – Comentou a moça atrás da garota.
Ela realmente hesitou. Ela realmente pensou duas ou três ou quatro vezes.
– Só tô dizendo isso porque a namorada dele é legal e a briga de ontem foi besteira, ela não merece isso.
– Ok, valeu pelo aviso.
A menina da frente entrou no banheiro e a garota ficou lá, de braços cruzados, meio pensativa e meio eufórica com os comentários que a moça de trás fazia.
Quando voltei à mesa e não muito tempo depois a garota também, Marçal debatia sobre o quanto o modo de produção atual contribuía para o estopim da depressão e da ansiedade. O próprio Marçal era cheio de ansiedades e depressões, mas foi no meu ombro que ele tocou e riu quando discorreu seus argumentos e todos na mesa riram. Inclusive fingi rir, divertido, fiz uma piadinha sobre lágrimas e reidratei com minha água.
Em seguida, a moça avisou que precisava ir e Marçal tentou convencê-la a ficar. Os dois se afastaram da mesa, foram para fora. Marçal acendeu um cigarro e pelos quinze minutos seguintes variava entre convencê-la a ficar ou convencê-la a beijá-lo.
No fim, o beijo aconteceu e ele conseguiu o número da dama. Ela foi embora e assentiu pra mim, com um sorriso meio grato. Esperava eu que a garota nunca descobrisse que nem namorada Marçal possuía, embora no fundo soubesse que ele venceria a batalha, que ele a convenceria no fim de tudo, pois agora possuía o número dela e possuía, principalmente, aquilo pelo qual tanto se orgulhava, aquilo que chamava de
o poder da retórica.
Meia-noite e o bar fecha. Somos expulsos junto com todos os outros e os rapazes seguem bêbados para casa. Ao longo do caminho, ainda discorrem sobre a conquista de Marçal e sobre o quanto até fariam um esforcinho para entrar na Cláudia Ohana.
– O que tu achas da Cláudia Ohana? – Marçal inclina-se sobre mim com aqueles óculos redondos, no meio da rua mesmo.
– Nunca mais vi uma novela com ela.
– Sobre a mata da Cláudia Ohana, caralho!!! – Esbraveja Carlos.
– Ah.
– “Ah” o quê, caralho? O que tu achas?
– Eu acho de boas.
Eles riem e cospem em mim. Metaforicamente, é claro.
Quando nos separamos, cada um subindo no último ônibus de volta pra casa ou dentro de algum táxi negociado, lá pela Presidente Vargas mesmo, eles ainda estão me xingando por ser um pau mole e complacente.
Quando chego em casa, Anastácia me abraça e pergunta “como é que foi com os meninos?”. Eu digo que foi de boas, digo que estão bem e que continuam os mesmos. Ela entende como uma coisa boa.
Certo mesmo e aliviado estou eu, ao perceber que os bocejos pararam.
Quando saio do banho, ela me diz “vem cá” e eu vou, prontamente, não tão lento quanto as colegas de Marçal julgariam. Anastácia está nua na cama, as pernas abertas, convidativas, as mãos roçando na cintura, coçando as auréolas dos seios devagar, sem a pressa do cotidiano ou o desespero dos solitários. Ali estão suas pernas: magricelas e sinuosas, sempre sinuosas, com linhas às vezes íngremes demais, às vezes retas demais. O suficientemente retas. Sorrio com a imagem dela entre os travesseiros e os lençóis e deito na cama, pousando a cabeça exatamente sobre ela, exatamente entre as pernas, onde ela tem agora um pequeno tufo de pelos não aparados.
Anastácia às vezes não raspava as axilas, às vezes deixava os tufos dali tão altos quanto os tufos debaixo e os rapazes, ah, os rapazes sabiam das axilas, mas nunca diziam nada, os rapazes nunca falavam de Anastácia comigo, nunca perguntavam sobre ela.
Os dedos compridos acariciam meus cabelos enquanto eu esfrego o rosto entre os cabelos dela, fechando os olhos com o leve roçar da virilha, com o leve roçar que vai em volta dos grandes lábios até o meio das nádegas e com o leve roçar sobre meus lábios, sobre a pele do meu rosto.
No instante que começo a amá-la, lembro que não, eu não sou uma máquina perfeita e insaciável como os rapazes, não, não como os rapazes, porém havia aonde voltar todas as noites, todas as tardes e todas as manhãs, às seis em ponto, quando o Sol acabava de sair ainda do horizonte de dentro d’água.
Eu não era uma máquina incansável e eficaz como os rapazes, não, não como os rapazes. Não tinha muito interesse em ser.
Mas tava de boas.
Porque todas as noites havia aonde voltar e havia onde ser feliz.
E sim:
tava de boas.