31 de dezembro de 2018

Cemetery Drive #37 [ESPECIAL DE ANO NOVO] - Travessia





Na espessa e vasta floresta, o verde escuro do topo das árvores caía sobre a noite como um véu negro. Em suma silêncio, apenas o som de insetos e aves noturnos ecoava pela imensidão natural. A região possuía diversos declives, em alguns pontos as depressões eram extensas, a duzentos ou mais metros em meio às árvores espaçadas e à relva rala, enquanto em outras a inclinação era íngreme, cinquenta ou oitenta metros acima, garantindo a errônea impressão de que dali era possível tocar as milhares de estrelas que iluminavam o céu ou o topo das árvores que farfalhavam com o vento gélido correndo floresta adentro no último dia do ano.
Entre as árvores, Annabelle Barnes segurava uma garrafa térmica de café fumegante nas mãos. Em intervalos de dez minutos, ela enchia a tampa do objeto que servia de xícara improvisada e sorvia o café com profunda calma, por vezes queimando a língua, porém jamais reclamando. Levava mais tempo esfriando o café do que necessariamente para degustá-lo. Devido ao frio que a abraçava de maneira não incômoda e acolhedora, vestia três camadas de roupa e um par de luvas nas mãos, retirando-o apenas para que a fumaça dele esquentasse as palmas e devolvesse a elas a sensação de calor e de vida.
A geografia do lugar em termos de vegetação assemelhava-se muito com o restante da maior área do território búlgaro, embora aquela em que Annabelle estivesse pertencesse à região norte da Grécia, território que correspondia ao oriente da antiga Macedônia e Trácia, locais em que o ritual prestes a ocorrer também era realizado há séculos, e onde, apesar do tempo e do decorrente enfraquecimento da tradição de alguns sacerdotes, jamais fora esquecido.
Apesar da baixa temperatura e da total solidão na floresta, Annabelle esteve o tempo inteiro confortável enquanto tentava contar as estrelas que salpicavam o céu acima das árvores. Seus olhos de profundas piscinas azul-cristalinas não desprendiam-se da maravilha que enxergava nem da calmaria que experimentava, e embora muito desejasse estar perto de seus pais ou dos amigos a quem tanto estimava, nenhum traço de arrependimento ou tristeza a invadia por estar ali: sentada no chão ao pé de uma árvore, a mochila ao lado e os joelhos dobrados. Quando não sorvia a cafeína, abraçava as pernas e as esquentava, cantarolando quaisquer canções (folclóricas ou não, rocks antigos ou não) que viessem em sua mente como forma de preencher o tempo de espera.
Aquele era o seu segundo ritual desde que aceitara a tarefa de bom grado das mãos de seu falecido amigo, Leonel. A primeira vez em que seus olhos testemunharam a passagem do rito, o último descendente dos Cattaeno já não era um homem em seu completo vigor: idoso, beirando os oitenta anos e ciente de que o relógio em pouco tempo anunciaria sua partida, ele caminhou lentamente pelas ruas do bairro de Trastevere, na Itália. Naquele ano (agora tantos atrás), Janus realizou sua última caminhada ao lado do velho homem devoto e fiel sacerdote, ou o último que sobrou para desempenhar longínqua função sacerdotal. À época Annabelle não sabia,  talvez apenas o próprio Leonel já desconfiasse: aqueles seriam os últimos passos, o último exercício de Leo Cattaeno  como guia e amigo zeloso da divindade.

28 de dezembro de 2018

Cemetery Drive #36 [ESPECIAL DE NATAL] - 500 milhas de casa












Dedicado aos que amamos e que, de alguma forma, não estão mais aqui.





I
O Paraíso



Ao longo de uma quase infinita reta de quilômetros e cercado por uma vegetação quase rasteira que anunciava aos motoristas os primeiros sinais de um longo e frio vale californiano, o Paradise empunhava-se solitário no meio de um grandioso nada. A fachada possuía fontes glamourosas de um neon desgastado, a inicial P era a única que mantinha-se vibrante a quase meio quilômetro de distância, seja lá para qual direção você estivesse dirigindo – para a boca do Inferno ainda mais longo do vale ou para os ares de companhia da civilização.
Em moldes quase clássicos de um notório e rebuscado traço, as colunas da fachada formavam semicírculos como colunas gregas ou tentavam imitá-las. De algum modo, as características do bar à beira da estrada não soavam cafonas de acordo com os gostos medíocres dos quais se esperavam de prováveis donos desdentados e barrigudos – havia, decerto, um evidente requinte na entrada como as cores fortes e vibrantes de uma planta carnívora sedenta para atrair insetos desavisados. Você precisaria subir um breve lance de cinco degraus até o largo espaço com dois bancos corridos, lisos, de madeira encerada que servia sempre de conforto para algum casal embriagado que queria respirar ar puro de beira da estrada enquanto enrolava suas línguas. Às vezes, um lobo solitário saía do bar e sentava-se ali, fumando uma carteira de cigarro na promessa de que aquela seria a última, caso um carro cruzasse a interestadual dentro de quinze minutos. Mas, às vezes, levavam até 45 minutos ou mais para que qualquer farol surgisse na escuridão que a vista alcançava. Quando as gangues de motoqueiros se reuniam, disputando seus elevados níveis de testosterona com piadinhas sujas e sem graça, que ambos explodiam de tanto rir, ou quando decidiam qual delas entraria para uma rodada, pois o espaço lá dentro não era tão largo para abrigar tantas barbas, cicatrizes e tatuagens, então alguns bebiam lá dentro e outros lá fora, às vezes revezavam, às vezes duelavam de maneira até séria demais atrás da averiguação de qual dos punhos era mais veloz.
As brigas no Paradise até plantavam-se e cultivavam-se lá dentro, mas no instante decisivo de arregaçar as mangas, era lá para fora que iam todos. A última briga fora há quase três semanas, quase um recorde. A polícia da cidadezinha mais próxima muito raro batia ali, pois apesar das rixas, os porcos alcoólatras nunca passavam dos limites (a plateia ou a própria dona do Paradise, Cyntia, não permitia). As outras ocasiões em que a polícia ali estacionava era quando o Sheriff Gillian afogava em uma caneca outra desconfiança das artimanhas da esposa ou quando levava uma das garotas do colegial para um papinho rápido e para alguns tragos na esperança de facilitar as coisas antes do grande show, que muito provavelmente ocorria dentro do próprio carro à beira da estrada.
Entre a margem da estrada e os degraus que levavam à entrada do Paradise, uma extensa área de terra batida estava sempre marcada com pegadas ou rastros de pneus, sempre suja, enlameada. A pedido da clientela, Cyntia nunca modificara o local, nem entrara com um requerimento na prefeitura de Parkins (a cidadezinha mais próxima de onde o Sheriff Gillian trazia as mocinhas) para acabar com a lama e colocar de vez uma camada de asfalto. A lama era especial – marca registrada do Paradise. Ali aconteciam as brigas, ali os brutamontes se agarravam, caíam, rolavam, esmurravam-se, cuspiam sangue e finalmente davam fortes gargalhadas pela celebração olimpiana e apoteótica de pancadaria.

28 de novembro de 2018

O passo da gata





Não se pode prender um bichano. Os gatos são os senhores do antigo Egito, diria Howard. Eles nasceram para serem silenciosos, essa é uma das maiores dádivas que algum dia brotou na face da Terra: criaturas que medem seus ruídos, que apreciam e mergulham na plenitude do silêncio. Gatos são sutis no olhar, quando atravessam-te os ossos, analisavam-te os órgãos, o funcionamento orgânico das células ou os últimos anos tão desregrados de qualquer sistema visceral; é possível, com assertiva convicção, supor que eles farejam ou sentem com a ponta de seus bigodes a falha das engrenagens, as peças precisando de lubrificação, as porcas enferrujadas e os caranguejos mecânicos espalhando-se pela corrente sanguínea, obscurecendo pulmões, agarrando-se à traqueia, subindo pela garganta, envolvendo o cérebro, abraçando fígados, intestinos, ossos – há quem diga que os caranguejos mecânicos prendem-se até nos ossos – ou quando querem fugir do interior e alastram-se na pele. 
Há quem diga que os gatos são os senhores viajantes da terceira e da quarta dimensão, Sirianos viajantes, vindos da galáxia de Sirius, evoluídos espiritualmente e por isso visitantes de nosso lar. Dizem até que os gatos, chamados de Os Felinos, foram grandes geneticistas, criadores dos humanos, das vegetações e de todas as irregulares, inconsequentes e imprevisíveis falhas geológicas. Dizem que são seres amorosos, misericordiosos e incapazes de grande intromissão nos conflitos humanos, esperando que evoluamos.
Pobrezinhos.
Os maiores vestígios de sua suprema criação neste planeta são as esfinges de eras passadas quando homens foram por eles instruídos intelectual e espiritualmente. Por alguma razão, como típico de todos os deuses visitantes, partiram e prometeram retorno. Porém nunca chegaram, de fato, a ir. Ficaram aqui. E também, como todos as divindades, tornaram-se silenciosos – as criaturas mais belas e caladas que conhecemos.
Ainda no aspecto silencioso, outro traço de magnânima habilidade está contido nas patinhas, biologicamente arquitetadas para restringirem a percepção de sua presença apenas aos seus semelhantes ou a outras criaturas hiperdesenvolvidas na prática da captura de sons. Humanos não são hipersensíveis nesse sentido, de tal modo que foi assim que minha gata fugiu: com passos sutis, vagarosos, estrategicamente calculados pelos milhões de genes em sua cadeia genética. Apesar de uma casa inteiramente telada, de dois andares e com janelas improváveis de permitirem qualquer fuga, ela encontrou uma brecha – um pequeno vão, um buraco irrisório na tranca do portão da frente. Quando eu estava de costas ou em algum local tão distraído na casa, a gata subiu, escalou a tela como uma aranha, embrenhou-se com seus olhos e ossos de cobra através do buraco. Primeiro, a cabeça de imensos olhos sedutores, amarelados na borda e singelamente salpicados de um verde musgo ao redor da íris. Segundo, com pupilas espremidas e maliciosas, espremeu-se pela saída. Por fim, talvez até tenha balançado o rabo de forma debochada, imaginando consigo uma porção de palavrões na língua secreta dos gatos, xingando-me pelas coçadas em sua barriga ou por não a permitir subir na mesa de jantar ou por forçá-la a defecar numa caixa nojenta de areia que nunca escondia o aroma de seus dejetos.
Foi como escapar entre meus dedos.
Na verdade, foi exatamente isso.
Mas a razão maior, desconfio, talvez seja pelo chamado primordial da natureza... Ou, neste caso, uma macho preto que rondava a vizinhança. Mais velho, corpudo como uma pantera, rabo longo e sinuoso, sempre chamava por ela e ela sempre atendia a ele. Em certas ocasiões, minha ingenuidade cogitava a possibilidade de deixá-la ir para encontrar no gato preto ares melhores do que aquele cativeiro que eram os meus dedos. Não que eu fosse de todo ruim, apesar das broncas, da mesa de jantar e da caixa de areia, mas talvez eu não estivesse inteiramente preparado para a presença da gata.
Acontece que meus delírios sobre soltar a gata eram passageiros. Dava-me certa compaixão ao vê-la rolando no chão, roçando a cabeça ou o dorso nos meus pés ou enroscando-se entre meus chinelos. Quando a gata o via (o gato preto), fazia exatamente os mesmos movimentos, entretanto com intensidade maior, como se houvesse uma paixão instintiva naquilo, uma paixão deliberada, escolhida exatamente para aquele macho, pois com todos os outros que às vezes apareciam por ali, era apenas com aquele bichano-cor-de-cegueira por quem ela rolava e berrava nas madrugadas – o único momento em que abria mão de seu silêncio, mais uma vez, outro ato deliberado. E dizem que somos nós, homens, que possuem a dádiva do livre arbítrio... Ora, ora, em milhares de anos desde que optaram por “servir” aos humanos, foram os gatos que deliberadamente não abandonaram suas vontades, seus caprichos, seus instintos e suas paixões.
Por tudo isso, tenho a óbvia e compartilhada inclinação de concluir que gatos não nasceram para viver entre quatro paredes, cercados por estruturas arquitetônicas de simples ou rebuscado valor. Fossem as sustentações de minha casa, fossem os monumentos no Egito, os felinos optaram desde seu nascimento pelo ato da não serventia, da não veneração e do não enclausuramento. Aproveitando quaisquer brechas, eles perseguem unicamente a liberdade – seja lá o que signifique para cada um deles.
Assim, após a fuga, dei-me conta que minha gata não atendia mais aos meus chamados, que me enxergava de longe, que me ouvia e que farejava meus chinelos, que contava meus passos, mas não respondia, não miava, mergulhava tão somente em seu silêncio adquirido na nascença. Certo dia, descobri a bichana em uma casa abandonada, acuada e amedrontada, na presença do gigante negro de iguais olhos amarelos. Tentei resgatá-la, feri braços por entre as paredes de madeira, pedi licença ao espírito do falecido dono da casa antes de lá entrar e tentar resgatá-la, mas o imóvel, aos pedaços, tinha a escada quebrada e, portanto, acesso bloqueado ao segundo andar, local que serviu de ninho de amor selvagem para o safado preto e minha tão amada gata. Ao cair da noite, consegui no máximo espantar o bichano, porém a felina ali ficou e precisei me dar por vencido. No dia seguinte, ela não estava mais na casa abandonada, e foi essa a última noite em que a vi.
Encontrei por incontáveis vezes o gato preto correndo pela vizinhança, escalando muros e pulando de telhado em telhado depois da fuga da bichana, mas ele estava o tempo inteiro só, jamais acompanhado e sempre vadio. Procurei pelo bairro inteiro, fiz buscas frenéticas, mobilizei internet, rádios, delegacias e chamei amigos e parentes, que facilmente se solidarizaram pela causa. O próprio garanhão preto juntou-se à causa, aparentemente vindo até o portão de minha casa miando e choramingando, chamando-a para mais uma tarde de montadas, gritos e mordidas na nuca. Ainda assim, ela não veio. Não veio por mim, não veio por ele.
Otário.
Ao longo de quatro dias espalhei a areia mijada e cagada nas redondezas de casa, implorei que ela voltasse gritando nas janelas e em quintais, pedi aos antigos deuses felinos e sonhei com o próprio Lorde Moldador na forma de um gato, dizendo-me, com sábias e surradas palavras, para desistir de persegui-la, pois a gata voltaria assim que bem desejasse, obedecendo somente ao seu sentido genético e seráfico, o livre-arbítrio. Enquanto não acatasse apenas a este desejo de regresso, ela não retornaria. Nem tão antes nem tão depois.
Nos dias seguintes, não obtive notícias de tragédias nem de animais mortos no bairro (um alívio em meio ao desespero). Nas semanas seguintes, eu ainda a chamava pelo nome, andava a esmo e até arrumava desculpas para sair de casa, na vã expectativa de escutar um miado ou de enxergar um vulto – saí para comprar mais papel higiênico ou escovas de dentes, acumulei cremes dentais no armário do banheiro e aumentei meu consumo de pão, embora não os comesse tanto assim –, qualquer motivo era um bom motivo para procurá-la. Então nos meses seguintes ainda havia esperança, haviam gatos que regressavam após anos fora de casa.Com a bichana seria assim, não seria? Um dia ela aparecia na porta, miando, enroscando-se, magrela e desnutrida ou talvez muito mais peluda, gorda e saudável, com aquele mesmo par de olhos amarelados com íris salpicada por um verde ora místico, ora tímido.
Por outro lado, os anos vieram e com eles a ausência da gata.
De vez em quando, com algum estranho fio ralo e natimorto de esperança, compro um punhado de ração e deixo na porta de casa. Todos os gatos vêm: os novos e os velhos, os brancos, os rajados, os amarelados e os manchados, os coxos e os cabeçudos. O próprio garanhão preto apareceu por aqui, caminhando sempre como uma pantera esbelta, miando, chamando, preso na memória das poucas horas que possuiu com a gata foragida. Com o passar de mais anos, no entanto, o belo felino contrastou entre feridas de guerra, ataques de pessoas e andar manco, quando machucava uma das pernas. Gradativamente, tornou-se magricela, menos peludo e mais velho. Ofereci cuidados e moradia por um tempo, mas o chamado do livre-arbítrio também chegou para ele, e então fugiu pelas grades que há algum tempo não fazia mais questão de telar.
Quando o encontrei pela última vez, o preço da idade parecia derradeiramente ter pousado sobre ele, não era mais tão bonito: tornou-se um gato estranho, raquítico, uma mera sombra disforme e esquelética correndo na vizinhança. Atarantado, da mesma forma que os machos de todas as espécies acabam ficando na velhice, certo dia ele se deitou na frente de meu portão, dormiu e nunca mais acordou. Com seu corpo, fiz o que deveria: tomei as devidas providências e o tratei com respeito, enterrei-o no fundo do quintal, desobedecendo os conselhos de amigos que diziam que eu passara dos limites.
Danem-se.
Nesta casa, agora sem telas e com portas entreabertas, nunca mais desejei que outro animal a não ser a gata entrasse. Hoje é o aniversário dela – ainda lembro quando a encontrei em lugar improvável, dentro de uma caixa aberta de onde deu o primeiro miado, de onde me chamou para resgatá-la. Ela já era crescida, dois ou três meses, talvez. Porém assinalei esta data como o de seu nascimento cívico. Ainda sento na frente de casa, pernas cruzadas e olhos vagantes, ao lado uma tigela de ração cheia e suculenta para aguardá-la, embora apenas um gato pingado ou outro dê as caras por aqui.
Durante à noite, antes de dormir, deito na cama e fecho os olhos para afundar na calmaria da madrugada que avança. Às vezes (apenas quando lembro de me empenhar à tarefa), atento-me a um barulho, a um ruído ou a um miado, aos sons de gatos chorando como bebês ou bailando conforme a dança do cio. Com ouvidos alertas, tento encontrar qualquer passo que se assemelhe ao da gata, porém mesmo na mais profunda solitude da madrugada, não escuto coisa alguma – meus pobres ouvidos não são evoluídos como os dos outros animais.
Talvez, e como assim desconfio, ela esteja caminhando lá fora, rondando minha casa e escalando minhas telhas. Silenciosa demais, como são todos os gatos.
E eu jamais conseguiria escutá-la.


21 de novembro de 2018

Retratação (parte 1) – Sr. Cofeína






Levantei um dedo na direção do rapaz do balcão, pedi mais uma dose. Ele assentiu e pôs mais café com leite no meu copo inglês. Eu gostava daquele café com leite porque era doce na medida certa e tinha leite na medida certa, nem pouco para estar preto nem muito para ficar enjoativo.
– Café com leite, é sério?
– Uhum – respondi com um gole suave para não queimar a porra da língua. Uma fina camada impregnou-se sobre meus lábios, acho. Não fiz questão de limpá-la quando perguntei ao camarada ao lado: – Por quê?
– Ah, por nada... – O tom de voz... desgraçado. Estava rindo por dentro.
– Cê sabe, cara... Essa relação toda com o café é superestimada.
O camarada e o rapaz do balcão olharam-me de imediato, perplexos, altivos, superiores, como se houvesse eu cuspido na cruz. E, de certa forma, cuspi.
Continuei:
– Não falei sobre o café – ergui o copo. – Falei sobre a relação com o café. Cê sabe... Há uma supervalorização de quem bebe café preto. Soa charmoso, elegante. Criou-se essa áurea esquisita. Você senta, cruza as perninhas e... “Caramba, ele bebe café preto”.
Nenhum dos dois riu.
– Tu estás ficando louco, chefe. Tá falando mal do café, que merda é essa? – Indagou o camarada.
O rapaz do balcão recolheu-se ao canto dele, sentado com a barriga protuberante sobre o cinto e pegando vento com o ventiladorzinho preso à parede. Ele não dizia nada, apenas balançava a cabeça enquanto fingia distração.
– Principalmente na tua... na tua... é profissão que chama? Esse negócio aí de escritor?
– Uhum. Claro, camarada.
– Tu ganhas dinheiro?
– Carteira assinada e tudo – menti.
– Oh... – o rosto, duvidoso, analisou-me. Um fio de escárnio acalentou-se no olhar. – Sério? Então tu és profissional?
– Claro.
– Mas tu não trabalhas com outra coisa mais...?
– Não.
– Então por que não tomas café? Todo mundo sabe que escritores bons, escritores de verdade, tomam café preto.
– Café preto é muito bom.
– Concordo.
– Concordo – intrometeu-se o rapaz do balcão.
– Olhem só – respirei fundo, bebendo a delícia do café com leite –, conheci um escritor que amava café. Certa vez, o cara saiu em uma matéria de jornal falando sobre a importância da literatura e da arte poética e como ele conheceu a literatura, e como a arte poética agia nele, e como ele era um canal para a arte poética, e como ele era um ótimo poeta, e como a arte poética era a alma dele e como ele, e ele, e ele e ele... Enfim – recuperei o fôlego e continuei: – Ele saiu na revista Magazine d’O Liberal. Foi entrevistado porque a sobrinha de um dos editores andava encantadíssima com os poemas concretistas, românticos e abstratos dele.
– Quê?
– Quê?
– O quê?
– Concreto? – Perguntou o camarada.
– É um tipo de poema – abanei as mãos, fugindo de mais explicações. – Não vem ao caso, beleza?
– Beleza.
– Beleza.
– Então, esse cara deu entrevista como se fosse uma celebridade, certo? No fim, soube que fizeram as fotos. E no dia da publicação do jornal, ele saiu na quarta página do caderno. Adivinhem? – Beberiquei o cafezinho. – Ele saiu com uma xícara tomando café fumegante. O fotógrafo foi tão sagaz que capturou a fumaça subindo em contraste com a parede preta da sala onde ele foi entrevistado. Acreditam nisso?
– Mas ele era um escritor. Café e escritores são como...
– ...metades da laranja – completou o rapaz do balcão.
Respirei fundo, engatei a risada na garganta que quis, desesperada, escapar. 
– Depois dessa ocasião, o cara só publicou fotos próprias tomando café, fotos da xícara, artes com mulheres desenhadas na espuma do café, pó de café, semente de café, poema sobre a origem do café, crônica sobre as ovelhas que ficavam eletrizadas quando comiam os grãos da plantinha, e haicais sobre o pastor que fez o primeiro café da história e o cheiro do café embrenhando-se nas curvas da garota que o visitava e... e... e... Cacete, café. Café! Entendem? – Levantei as mãos, o restinho do meu café com leite no fundo do copo. – Café, meus amigos!
– E aí?
– E aí? Tu quer chegar aonde? – O rapaz do balcão estava naquele momento próximo ao camarada e a mim.
– Ele dispensou a sobrinha do editor. Acho que era riquinha demais pra ele. A menina amava poesia de Instagram e era católica praticante, participava de ONGs e serviços que beneficiavam a galera do Aurá, da Terra Firme... Enfim. Ela realmente ajoelhava diante de Deus e cumpria com o estilo de vida. Mas ela adorava poesia e isso encheu os olhos dela, levou-a a acreditar em deuses errados.
– E o cara?
– E o escritor?
– O cara era um desregrado, como quase todo o resto de nós. Mas era mais, bem mais. Tinha problemas na família, sabe? Abandonado pelos parentes, pai, mãe, periquito, sei lá. Um coitado, dava pena quando você parava pra pensar. Aí o cara se entupia de café, tinha até perfume de café e só chupava balinha de café. Também usava outras coisas pesadas também, vivia usando essas coisas. E cês sabem... Boceta é uma droga alucinógena. Ele não tinha limites: chutou a moça quando ela bateu na porta e ele tava com a boca na parada de outra moça, é claro. Um filho da puta desgraçado. Tratou a moça mal, fez deboche da cara dela e ainda disse “tô meio ocupado, bebê”.
– Cara esperto, hehehehehe.
– Espertão! Hehehehe.
– Põe mais aqui, por favor – entreguei o copo ao rapaz do balcão que me devolveu cheio, logo em seguida. – Aí ele continuou com a saga do café. Comia todas e chutava todas. Às vezes com poemas provocativos, às vezes com empurrões na escada, crônicas malucas sobre mulheres esvaírem-se como as fumaças de café etc, etc, etc. Bastava o cara chegar em um lugar, pedir um cafezinho preto, sentar em uma cadeira em local estratégico, dobrar as perninhas, erguer o rosto e dizer: “eu sou um escritor. Bebo café preto”.
Os dois começaram a rir, estrondosos. O rapaz do balcão bateu com o punho fechado no balcão, já o camarada ao lado segurou em meu ombro, quase cuspindo o café preto que engolira.
– Então, adivinhem: em toda a cidade, na cena artística belenense ­as palavras saíram de minha boca de um modo que eu sinceramente não desejava que ainda saísse, porém a ironia era um dos genes mais fortes na veia. – As meninas, as meninas mesmo, as que o conheciam, que apanhavam dele ou que eram envoltas pelo cerco psicológico que ele aplicava, chamaram-no de Sr. Cofeína.
– O quê?
– Como assim?
– Cofeína?
– O certo não seria cafeí...
– Cofeína – pigarrei, convicto. – O sr. Cofeína atraía suas vítimas à toca com o cheiro de café. Vocês sabiam que quando um indivíduo masculino da espécie humana ingere muito, muito café, as substâncias da bebida reagem com as substâncias da parede do estômago e produzem feromônios? Os feromônios entram na corrente sanguínea e saem pelos poros da pele. Então atraem mulher, parceiros. Muita mulher.
– Isso é sério?! – Exclamou o rapaz do balcão, enchendo um copo de café preto.
– Ohh! É sério?! – O camarada também fez o mesmo.
Os dois brindaram e deram um longo gole no café preto. De certo queimaram língua, garganta e esôfago. Obviamente, aquilo era uma mentira. Talvez só não fosse para o Sr. Cofeína.
– Pois é, isso explica tudo, camaradas.
– O que aconteceu com o Sr. Cofeína?
– Ele comeu toda a mulherada da cidade? Hehehehe.
– Ah – dei um gole no meu café. Um gole prolongado e silencioso, prazeroso e tranquilo. –, o coitado morreu de sífilis.
– O QUÊ??
– COMO ISSO ACONTECEU?
– O QUE É SÍFILIS...?
– O cara comeu todo mundo que via pela frente, homem ou mulher, e de um jeito irresponsável. E aí morreu.
– CACETE!
– PUTA MERDA!
– Pois é, camaradas. E assim morreram todos os escritores ao longo da história que embriagaram-se com café. E cocaína, também. Tem a cocaína. Lembrem-se que o sr. Cofeína não usava apenas café.
– Que pena do coitado, porra.
– Que pena, que pena.
– Então – inclinei-me sobre o balcão, chamando-os para escutarem o segredo a seguir. Eles obedeceram. – Aqui vão quatro dicas básicas de sobrevivência: primeiro, não sejam escritores, terão dever de casa pra sempre; segundo, não supervalorizem suas próprias imagens ao lado de café preto, isso é feio; terceiro, bebam café preto em silêncio, sem alarde, sem grandes anúncios, e se fizerem isso, poderão até dobrar as perninhas em paz; e a quarta e mais importante dica...
Permiti que um silêncio profundo caísse entre nós. Silêncio dramático. Silêncio necessário. Tomei um pouco mais de meu cafezinho com leite e sorri, voltando à postura anterior:
– Usem camisinha. É sério.
Levantei do banco e enfiei as mãos no bolso esquerdo da calça. Havia... mexi os dedos, tateei o interior da calça... uma, duas... quatro... Ah, cinco. Havia cinco camisinhas roxinhas distribuídas por nosso tão querido presidente Vampirão, futuramente sucedido, dali a alguns meses, por um Asno.
Pus duas delas sobre o balcão e bebi o resto do café. Estive a um passo de pedir outro copo, mas o meu celular começou a vibrar no outro bolso. O nome no visor me fez sorrir de imediato:
– Oi, Camilla.
– Oi! Tu chegaste?
– Já. Tô te esperando.
– Ahh, ótimo! Já vou descer do ônibus e chego aí. Padaria São Bento, né?
– Isso, isso. São Bento.
– Tá. Tô chegando, beijos!
– Beijos! – Desliguei o celular. O camarada e o rapaz do balcão olhavam, com bochechas coradas (embora não percebessem), na direção dos preservativos sobre o balcão. – Então, camaradas, preciso ir – e apontei a mesa vazia em um dos cantos da padaria. Ela ficava no térreo de um prédio alto, chique e refinado em uma das mais importantes avenidas de Belém. Por sorte, o café não era lá tão caro. – Foi bom dialogar com vocês.
Pisquei na direção deles, porém não acenaram, tampouco responderam palavra alguma. Continuavam a olhar fixamente para as camisinhas. Então precisei pegar a garrafa térmica e encher o copo de cada um, e exclamei: “Rapaz do balcão, põe na minha conta!”. Dei as costas, peguei um Toddynho no refrigerador onde estavam os refrigerantes e fui até a mesa vazia. Sentei na cadeira e arrumei o cabelo, relaxei as costas, porém não muito, o suficiente para aliviar a estranha tensão que planava dentro de mim. Cruzei as pernas. Descruzei as pernas. Cruzei, indeciso. Descruzei, determinado. Havia em mim apenas o cheiro do café com leite, portanto jamais seria digno ou merecedor de assumir poses intelectuais, certo? Certo.
Relaxei as pernas. Esperei Camilla.
Em alguns minutos, ela chegou. Limpei o suor das mãos e levantei para abraçá-la.
Quando sentamos e começamos os assuntos triviais, arrisquei duas ou três olhadas na direção do camarada e do rapaz do balcão. Eles seguravam as camisinhas, contemplativos, e bebericavam o café preto como se fossem doses de cerveja. Na última vez que repousei o olhar sobre eles, os dois se entreolhavam, calados e enigmáticos, absortos em um intricado jogo de sedução.
Talvez o café e suas reações químicas estivessem fazendo efeito.
Então era verdade...
Olhem só... era verdade.


17 de novembro de 2018

Tecer partidas





Tecer partidas é sempre tão complicado, é de dar nó no ralo fio da paciência. Escrever sobre partidas é como esmiuçar um final agradável para uma boa história: você conduz com o melhor gingado que tiver nas mãos, ensaia cenas, melhora saídas, pensa em um diálogo ou outro e deixa que o resto digam os personagens. Faz tudo bonitinho ou pelo menos tenta fazê-lo. E aí chega ao final. Na maior parte do tempo ele já está idealizado. Às vezes, particularmente falando, apenas inicio uma jornada em função do final, quando já o tenho em mente antes mesmo do corpus. Geralmente é uma cena planejada, talvez um diálogo ou uma frase de efeito. Por vezes é apenas a intenção da cena, do sentido, da alegoria, da crítica canalha ou da metáfora escondida. O início é a parte do texto em que mais mexo e remexo: odeio começar, é sempre uma bagunça. O meio e as lacunas são a aventura, são o texto falando por si, são o fluxo de ideias e o bailar dos dedos que, após a dança, revejo, conserto e volto a ensaiar para melhorar e para redescobrir novos passos.
Então, chego lá.
Chego?
Finais são difíceis porque você corre o risco de terminá-los banalmente, sem mais nem menos. Ao estilo Stephen King – e haverá aqueles que detestarão. Ou pode torná-los epicamente engraçados e debochados, com um escrachado dane-se, tudo na última linha.
Por hábito, encurto as frases e utilizo-as uma por vez.
Uma por parágrafo.
E aí caboom!
E aí caboom! para estas partidas.
E aí caboom! para o peso das coisas que fiz e principalmente caboom! para o peso das coisas que disse.
Escrevo sobre partidas porque parto não para renascer, mas para apagar-me, para afastar-me, porque a antiga promessa de eliminar meus rastros finalmente se cumpre.
Pelas pedras que atirei, banhado em hipocrisia.

“Pelos bons rapazes e pelos maus rapazes.
Pelos monstros que fui.
Três vivas à tirania”.

Um salve à partida.
Pois somente o cilício há de compensar estas marcas tão tolas e inférteis da existência e da presença.
Escrever sobre partidas é como finalizar um texto: complicado para cacete.
 E pela primeira vez eu não sei muito bem como fazê-las (se com adeus, se sem avisos, se pedindo perdão aos amigos que não amparei ou aos pobres coitados que açoitei).
Confirma-se então a práxis, meu ato inicial: é complicado, é “de dar nó no ralo fio da paciência”.
Partir desta terra, destas avenidas e destes braços de mangueiras é, no mínimo, a compensação suprema por minha estadia.
E finalizo com uma frase em um parágrafo.


(a pausa decisiva)


E o fim.