18 de abril de 2018

Das canções de ninar






Descobri Lullaby, do Low, não muito tempo talvez após Jordana ir embora. Descobri, como muito bem talvez já soubesse, que nada, absolutamente tão pouco, sabia a respeito de música – e continuo não sabendo. Do que sei, entretanto, e do pouco que absurdamente tenho alguma certeza, é que o que sei resume-se não à música ou ao caráter técnico e artístico dela, mas o que essa harmonia (no sentido mais metafórico da palavra) causa em mim – é disso o que sei e é sobre isso o que entendo: o que os aspectos anteriormente citados, todos, bailando juntos e entrelaçando-se helicoidal e figurativamente, causam em mim.
Foi nessa época que descobri Lullaby, do Low. Foi na época logo após Jordana partir, Jordana, a mesma Jordana que ensinou-me sobre as estrelas, sobre cada astro e sobre cada ângulo astronômico, sobre filósofas russas e pensadoras escandinavas, sobre libertadoras do pensamento hermético do leste europeu na época em que judeus morriam ou em que bombas nucleares eram tão euforicamente prometidas para explodirem.
Foi na época em que meus cafés da manhã resumiam-se a café preto requentado e ovos fritos (os últimos dois na porta da geladeira). Foi na época dos tantos cigarros, deitado no sofá e como descobri o quanto a nicotina faz mal à minha doença-crônica-autoimune-diagnosticada-na-infância. Foi na época do declínio que
aprendi
sobre a sensação que Lullaby, do Low, causa aqui pelo meu meio, no centro secreto, quando coloco duas abas do Youtube para tocar – porém com um segredo, com um truque transcendental que é o trunfo e que me traz aqui, neste texto: duas abas abertas, porém com um intervalo de dois ou três segundos entre si. A canção, de harmonia tão lenta e mágica, causa uma espiral empírica fantástica, com ecos que acalentavam-me a alma e entorpeciam-me os olhos. E por isso tão ativamente espalho o truque, o tão sagrado segredo desta música, para o mundo:
Quero que sintam a estranha e espiritual sensação; quero que sintam a música. E quero, acima de tudo, que sintam os truques necessários para se saber viver ou, pelo menos, saber-se tentar sobreviver com a ausência de Jordana, logo após ela falar sobre amor e fazê-lo compreender que nem tudo que ama ou que é amado, necessariamente pousa em você para ficar. Nem todas as coisas que nascem para te amar ou que nascem para ser amadas por você (por um breve momento, apenas), permanecerão ao seu lado.
Algumas coisas, permanecem por um minuto apenas.
Algumas coisas, fixam-se por um significado apenas.
E nunca mais vão embora.
Jordana foi uma delas, e graças a ela, aprendi sobre Lullaby, do Low – e como duas abas abertas, com intervalo de dois ou três segundos entre si, causam a sonolenta sensação de paz e ao mesmo tempo a sonolenta sensação de ausência, de não-significado e de solidão.
A sensação do desamparo de saber que ela está lá fora.
E eu estou aqui: nas noites, insone, tentando, em vão, adormecer.



13 de março de 2018

Por que tu escreves, filho da pu**?






Eu quis desistir tantas e tantas vezes deste ofício. Por conta disso, esforcei-me um pouco mais, fechando os olhos para formular imagens construídas fibra por fibra de maneira límpida, tão brilhantes quanto os aparelhos de televisão expostos nas lojas, maiores que toda a parede da minha sala. Formulo pictogramas, um rosto, um contorno, uma situação para me prender ao momento, porque, juro: estou quase desistindo deste tormento da escrita.
Algo se forma. Um vislumbre, a silhueta de um projeto fantástico que não consigo moldar, pois a arte do rabisco, do desenho e da pintura não pertence a mim – o que sei fazer, faz-se de outra forma; o que sei construir, constrói-se por outro viés. Um prisma maldito, cismando e cismado, latente como as batidas na porta de madeira em plena madrugada, para avisar que a parteira chegou, pois o seu filho... o seu filho, a sua obra, o seu monstro...
Ele está nascendo.
Então eu imagino outro cabelo, outra mulher (uma que não exista de preferência, já que tu notas, depois do primeiro-um-quarto de vida, que as relações e os atos imaginados são em suma mais proveitosos e mais voluptuosos do que os corpos aleatórios que deitam em tua cama à noite). Todos eles partem, ou talvez seja uma recitada mentira: és tu quem vive partindo destes corpos que não são tudo e que não o preenchem, nem o satisfazem. Não há nada a satisfazê-lo enquanto os anos progridem, a idade aumenta e a solidão progressivamente consuma-se.
Imagino linhas que não existem enquanto realizo o ato do corpo. O trabalho é duplo: a mulher suada aqui embaixo ou aqui em cima (de preferência) e a imaginação criando formas, vidas, outros rostos indistintos sem sentimentos, prestes a abandonar-me de igual forma que aquele corpo me abandonará pela manhã.
A partir daí me apresso, adéquo-me ao ritmo e presto atenção aos gemidos. Em ritmo avançado a garota deixa de suspirar; em ritmo lento, morde até os lábios. Então sigo pelo lento, isso... É, o lento. Lento e lentamente. Desenho os leves gráficos de uma onda com meus gingados, faço de meu corpo o movimento físico ondulatório, com cristas lentas, vales profundos, alongados, molhados até a base e acalentados até o fim. Guio-me pelas reações dela, guio-me pelas respostas involuntárias e o suor já azedo, próprio do couro, a brotar da pele e a encharcar meus panos meio surrados da cama.
A imagem na cabeça cresce, ganha forma, comprime, e assim como a garota, também dilata, explode, colocando-me para fora com rapidez, na intenção de completar o gozo a escorrer.
Ambos suspiramos e caímos de lado.
Finalmente grato pela ópera recebida e orquestrada, olho na direção do teto – estou sempre olhando na direção de tetos, alguns levemente negligenciados com sutis teias de aranha, outros tão brancos, tão bem cuidados, tão bem decorados; alguns de forro, outros de telha, a maioria, de alvenaria. Assim, olho outra vez para o teto: o peito suspirando e um dos braços sobre a testa.
E quanto às imagens? E quanto à escrita?
Sabe o quanto eu quis e ainda quero desistir disto? Sabe o quanto desejo jogar para o alto e encerrar esse hábito maldito (treinado desde a infância) de escrever histórias que ninguém tocará ou recitará ou fará a mínima relevância?
As epifanias que foram e são talhadas em letras não são de atrativo aos olhos alheios, e antes que digam que o faço pelos outros, refuto: faço pela solidão, para beijá-la, para degustá-la, para amá-la, para absorvê-la, para ensiná-la, para aprendê-la. Para destruí-la – eis o fluxo normal e repetitivo de todas as relações que por aqui passei; eis o porquê imaginar formas outras de olhos fechados enquanto cada uma delas transpira. É tudo pela solidão. Tu constróis, tu escreves e tu crias, torna-a verdade, transmuta-a em mentira; dá sofrimento às crianças e remorso aos velhos à beira da Unção que nunca se santificará. Tu escreves todas as noites porque é a única coisa que sabes fazer – não tens habilidade com trabalhos brutos e braçais, não tens agilidade com a fala, sequer comunica-te bem para venderes peças, produtos ou parceiros – não tens talento para o comércio; não tens calças adequadas a não ser as rasgadas; não possuis diplomas, nem certificados, muito menos carga-horárias-de-massacres-supremos. Tu não és um bom filho, não és um bom irmão ou um bom ser humano. Não pintas. Não bordas. Não tocas. Não sabes abraçar, não sabes amar até o fim e não sabes ser amado – afastas tudo o que recebes como um texugo geneticamente modificado. Ou seria um guaxinim? Tu não pertences a este mundo, pois és torto, indiferente, agressivo consigo mesmo e depreciador da própria imagem (regozija-te dizendo o que não pensas, o que não achas e o que detestas, só pelo sádico prazer de que todos eles, todos os que nunca o enxergaram direito, odeiem-te).
E eles odeiam.
Passarão a odiá-lo por culpa e intenção tua.
O que te deixou assim? Experiências ruins na infância? Rejeição? Traição? Medo do esquecimento? Medo de seres simples como todos os homens simples que perpetuaram sua espécie simples com matrimônios simples e vidas simples com habilidades simples e proles simples? É do terror da simplicidade que tu corres?
É por isso que escreves?
Para criar?
Para ficar?
Para ser lembrado?
É por isso que tanto te esforças com cada uma a deitar nesta cama para que lembrem de ti, mesmo que estejam caminhando (sem saber) para o ódio futuro, para a reprovação de tua existência e do erro fatal de permiti-lo entrar? De permiti-lo descansar?
É por isso que escreves?
Observando ainda aquele telhado, recordo-me dos intelectuais que apertaram minha mão e disseram-me que há regras para ser literato, e pior: há regras para fazer literatura – há a sombra sacana da academia, há o refinamento, há livros inteiros tecidos por doutores para dizê-lo o que é certo, para institui-lo a como fazer arte, o que é arte e o que não é. Há quem não crie e quem não saiba criar, há quem passe com desgosto a invejar e a diminuir o teu trabalho, o trabalho diário e solitário que tu não fazes para lucrar, mas para existir. Os seguidores deles, ah, pobres ovelhas cegas em cabrestos de chumbo, dirão o mesmo e recitarão o mesmo e concretizarão o mesmo em artigos devidamente desenhados com caracteres específicos que sob hipótese alguma deverão passar de 150 letras ou da frustrada criatividade que morreu há muito, muito tempo.
Haverá aqueles que longe das normas e dos padrões, igualmente cuspirão em ti com o pior dos escarros: o desleixo, o olhar apático. Haverá dias que teus projetos serão meros e dissolutos ante os olhos dos que sussurram falsos apoios compatriotas.
E haverá dias que não.
O que tu queres provar quando te levantas na madrugada e sentas diante dos teclados? Sejam os teclados de um computador antigo, capenga e sustentado por remendos e orações; sejam os teclados de uma velha máquina de escrever adquirida em três parcelas com um velho-caso-romântico-de-amores-líquidos-secos-e-molhados de uma amiga; a máquina está igualmente remendada na lateral com um pouco de Durepox.
Entretanto, baila com destreza.
Eficiente.
Começo a construir uma lauda. Duas laudas. Três laudas. Quatro laudas. Cinco, seis, sete. Oito laudas de uma crônica mesclada ao conto e mesclada a um pequeno ensaio e mesclada a uma mera invenção da madrugada enquanto rebolava sobre a garota ou enquanto era majestosamente cavalgado por ela. Na sexta lauda, minhas costas doem e meus dedos dançam. Atrás de mim, a garota dorme ou me admira como se eu fosse belo, como se isto (exatamente isto daqui) fosse magistralmente épico.  No entanto passei o último mês inteiro destruindo o perfil de escritor: mostrei a ela que os cigarros não necessariamente estão aqui, o café está de vez em quando e que não ajo feito um retardado ambulante a dizer e a recitar abobrinhas poéticas, cheias de pomposos alardes e belíssimas eloquências. Mostrei à garota no último mês que também desvio palavras da norma padrão sem perceber, mostrei que possuo ainda uma latente e infantil deficiência com concordâncias verbais; engulo palavras, pulo sílabas, porém vou lá e corrijo – escrever é humano, mas revisar é divino. Mostrei à ela que poetas não são sabichões natos ou ébanos angélicos postulados na Terra, mas sim mentirosos desgraçados repletos de traumas, agressivos malditos, chorões convictos e homens com mais problemas psicológicos do que quaisquer outros. Ensinei a todas elas que os distúrbios citados nas sentenças anteriores (talvez) nem sejam verdade também: apenas outro estereótipo a enaltecer a figura de homens que só sentam aqui para o ato de criar histórias.
Se topares com algum galã poeteiro e mentiroso por aí, cuidado.
Se topares com algum pé-rapado sempre tão crítico dos próprios estereótipos a vesti-lo, igualmente tome cuidado: estes são os piores, fingem desconstruir a própria imagem para construir outra – a de evoluídos, a de belas exceções.


“POR QUE TU ESCREVES?”


Digito em caixa alta no meio da página, sentado nu na cadeira e sentindo a superfície incômoda roçar em meus pelos da bunda não tão bem aparados.
PORQUE TU ESCREVES, FILHO DA PUTA?”, digito em caixa alta logo abaixo. Olho para a garota, repenso e critico-me: é por elas?
NÃO”, digito em seguida. Ano passado, dei-me um ano sabático de mulheres, de sexo e de relacionamentos – não eram esses três pilares o transporte para a auto compreensão; não eram eles a salvação. Subindo pelas paredes e corroendo-me sem o cheiro alheio, abraços ternos ou brigas violentas, em meu ano recluso escrevi como um louco por três meses inteiros. Em meu ano recluso, meramente respirei e existi deitado em uma cama por outros seis deles.
NÃO PODE SER POR ELAS, NUNCA FOI”, imagino. “NÃO PELOS CABELOS, NÃO PELAS CURVAS, NÃO PELA DOR, NÃO PELA DIVERSÃO INFANTIL DE CRIAR, ORQUESTRAR OU DESTRUIR; NÃO PELA DIVERSÃO DE DEBOCHAR OU DE FAZER RIR”, e digito logo em seguida:
  TU ESCREVES PELA SOLIDÃO E PORQUE É A ÚNICA COISA QUE SABES FAZER, SEU FILHO DA PUTA”. Isso.
É A TUA ÚNICA SALVAÇÃO”. É. Isso, porra, isso.
É A TUA MAIS MILAGROSA MALDIÇÃO”. Isso aí, caralho, que delícia.
– O que tu estás escrevendo? – A garota pergunta meio sonolenta e meio deslumbrada a observar-me enquanto esfrega os olhos.
Nunca escrevo com alguém por perto, é quase tradição. Meus antológicos, falsos e esmirrados grandes amores de outrora nunca me assistiram escrever (nunca presenciaram o ato sagrado da criação), mas esta garota sim. Eu poderia muito bem digitar agora “QUAL O NOME DELA?”, mas seria mentira encarnada neste papel para formular um personagem desapegado e distraído com nomes e detalhes. Seria mentira. Porque sei o nome dela, porque amo, aprecio e anoto mentalmente – data de nascimento, música favorita, as pintas do corpo, os sonhos, os dessonhos, aonde têm ido e onde pararão, as guerras com os pais, o ódio pelos irmãos ou irmãs, os abusos sofridos na infância ou a textura interna do canal vaginal, quando meus dedos indicador e médio se dobram para acariciar. Às vezes, tão tolamente em raros dias que o câncer da insegurança desgruda, acabo me convencendo de que sei perfeitamente fazer isso (mover língua e dobrar dedos) com a certeza arrogante e trágica de que tão bem quanto a escrita – ocasional ou frequentemente, orgasmos até certificam lembranças, mas palavras devidamente esculpidas garantem eternidade.
– Nada. – Respondo finalmente, assim que termino de digitar o que quer que estivesse digitando. – Não é nada.
– Um poema?
– Não, não acho que eu seja poeta.
– Um conto?
Retomo ao início e releio uma das páginas, mais precisamente a de número 4: “uma crônica mesclada ao conto e mesclada a um pequeno ensaio e mesclada a uma mera invenção da madrugada”.
– Talvez. – Balanço a cabeça num sorriso confuso, tão curioso quanto ela diante da sorrateira questão.
– Sobre o que é?
– Sobre a mesma coisa de sempre.
– Foda?
Dou uma gargalhada.
– Não. É sobre o coito da escrita.
Amo sou.
– Sobre uma garota me pedindo para ler ou me perguntando o que tô escrevendo. Exatamente a mesma coisa de sempre.
– Mas é sempre legal.
– Foi proposital.
– Foi?
– Foi. Para chegar exatamente a este diálogo.
 – Que foda, cara. Vais me mostrar?
– Por que a curiosidade?
– Quero te ver escrever e também quero ler. – Diz a garota, inocentemente deslumbrada, o que não ressaltava fragilidade, mas devota permissão de permitir-me adentrar. Como todas as outras antes dela, de maneira menos ou mais gritada, menos ou mais escrachada, menos ou mais fingida, era um ser humano robusto, bicho forte demais.
– Claro. – Balanço a cabeça.
EU NUNCA ESCREVO PERTO DE ALGUÉM”, está escrito na folha logo após o diálogo e após as descrições a respeito da garota. Então desligo a tela do computador remendado ou retiro a folha da máquina com pressa, amassando-a em uma bola e jogando-a no lixo. Balanço os ombros e volto para cama, encaixando meu singelo e humilde corpo no dela, doando-me pelo tempo que permitirmos, seja por uma noite, seja por uma vida.
Ela sorri e não volta a me questionar. Esta daqui, penso, constrói desenhos com a ponta dos dedos e os crava em peles alheias. Como artista, consegue compreender certos rituais, compulsões e obsessões. Como artista, a garota na minha cama compreende que alguns hábitos devem ser respeitados e fielmente repetidos.
Amanhã, ela desenhará sua arte na pele de alguém.
Amanhã, terminarei o que aqui escrevi até então.
Depois de toda esta volta, e sobre a escrita, aliás, do mesmo modo que abri esta “crônica mesclada ao conto e mesclada a um pequeno ensaio e mesclada a uma mera invenção da madrugada” repito: quis desistir tantas e tantas vezes deste ofício. Às vezes, o desejo é o que mais me consome, porém não posso.
Eu não consigo.
POR QUE TU ESCREVES?”, finalizo a construção feita por letras na manhã seguinte com um café quente queimando os lábios e com a remela entre os olhos. A garota já partiu, não está mais aqui. Talvez até volte, talvez não.
No fim, terei permanentemente a escrita comigo. E nem tudo é sobre as garotas que por aqui passam, pelos dilemas que danificam o mundo, pela cabeça embaralhada, pelos pulmões frágeis, pelos órgãos musculares viciados ou as narinas religiosas.
Nem tudo é sobre a verdade e nem tudo é apenas mentira meramente por ser.
Às vezes, tu narras em primeira pessoa – confundes os aventureiros, os faz pensar que és tu conduzindo tudo.
Às vezes, mascara verdades doídas, narra em terceira pessoa – continue assim.
Às vezes, são apenas histórias – criação pura.
E às vezes, às vezes é apenas sobre ti – sobre a única coisa que nasceste para fazer.



10 de março de 2018

queimados, kiara




  
A doença evolui muito rapidamente, diz a endocrinologista. Em seis meses talvez (ênfase no talvez), muito provável, ela tenha evoluído bastante, diz o doutor que é o especialista destas retinas, mas também há outro doutor que trata as dores neuro-

lógicas de kiara que, francamente

(o mais amigável e compadecido de todos eles até agora),

diz que a doença (a causadora de todas as outras,

inclusive da primeira que iniciou estas linhas-versos) queimou todos os seus nervos por dentro, inclusive dos olhos.

kiara suspira.

não possui mais tempo para sentenças regulares ou letras maiúsculas após os pontos ou vírgulas devidamente posicionadas como aprendeu na infância, já que toda a infância futura e passada parece perdida. todas as noites agora os quartos ficam mais escuros, especialmente os quartos da casa dos avós e por isso tanto evita visitá-los e tanto evita passar longos dias e não-mais-belas-noites lá

com eles, embora nem sequer desconfiem da verdadeira razão, acham que kiara está fechada em si mesma nos últimos anos por conta de uma solidão crescente ou de uma mudança magnânima de todas aquelas coisas boas que um dia foi e pelas quais a família sempre se orgulhou, porém que agora não é mais. infelizmente ela não mais os visita com frequência porque tem medo dos dias (devem ser uns quatro a cinco por semana) em que acorda com todas as coisas escuras ou com os contornos da lajota piscando sob seus pés em um tom negro de um branco já perdido ou durante as noites quando não consegue enxergar as feições no rostinho da irmã de pele-jambo ou os próprios olhos ou o

próprio rosto na frente

do espelho.

mas se há algo que conforta a pequena kiara de olhos futuramente deficientes, cegos,
queimados, escuros e, talvez, muito provavelmente em seis meses ou menos, é que até com as piores coisas você se acostuma. kiara sabe disso porque hoje, nos dias em que acorda abrindo as janelas para a luz das setes horas iluminar o quarto, iluminar a visão e dar conforto diante das lajotas piscando e dos contornos indecifráveis, ela espera de trinta a quarenta minutos porque já sabe que em 1hora os olhos estarão quase-normais novamente e tudo,

tudo com certeza,

voltará ao normal. pelo menos por enquanto, quando ainda consegue enxergar os documentários do National

Geographic sobre Truques da Mente às oitoemeia contando como funciona o cérebro

– esta máquina incrível –

e como funcionam

a visão humana

e as córneas

e as retinas

e os nervos

que talvez,

com sorte,

não estejam queimados,

se você não for kiara

e se tiver mais
sorte ainda.


1 de março de 2018

Primeiro de Março




Um texto sem propósito.
Ou não.

Há exatos 50 anos, Johnny Cash e June Carter subiam ao altar, diante dos olhos de homens e de mulheres, diante das benções de Deus. June tornava-se Cash, embora fosse mais Carter que Cash até o dia de sua morte.
John Carter Cash, filho do casal, revelou em livro quase recente que o conto de fadas não fora exatamente um conto: ao longo dos anos, o pai continuou a lutar contra as drogas, as brigas vieram e June possuía um medo terrível daquilo que quase todos nós também tememos. As discussões continuaram e as promessas de rompimento também. Como um bom Peixe sob olhos e decisões das estrelas, Johnny não partia para a violência física durante e depois das brigas, mas se afastava – dias e dias consigo mesmo, dentro de si e envolto por milhas e milhas de distâncias daqueles que estavam centímetros ao seu lado.
O conto de fadas, como entoam as fotos e as histórias, pode não ter sido inteiramente um conto, mas quando há escolha, quando há aceitação e quando há o mínimo de devoção, talvez ainda haja algo. E foi isso (esse algo) que houve até o fim.
John Carter Cash diz que na infância, após uma briga de palavras violentas entre os pais, ele foi chamado à sala, tinham uma notícia importante a comunicá-lo. 
Qual?
A renovação dos votos.
Em 23 de Junho de 1994, em seu aniversário de 65 anos, June-mais-Carter-que-Cash recebeu uma carta de seu marido. A carta foi eleita como a mais romântica da história.
Já Johnny possuía uma lista de afazeres:

1.     Não fumar.
2.     Beijar June.
3.     Não beijar mais ninguém.
4.     Tossir.
5.     Mijar.
6.     Comer.
7.     Não comer demais.
8.     Preocupar-se.
9.     Ver mamãe.
10.    Praticar piano.

Notas:
            Não escrever notas.

São nas listas e nos pontos acima que residem os detalhes. São os detalhes que nos levam ao fim. São eles que nos fazem permanecer na união e na crença. São os detalhes que nos levam todo ano, há cinquenta anos, em cada primeiro de Março, a pensar nas pequenas grandes coisas – não necessariamente no ato, no compromisso ou no matrimônio; não nas grandes utopias ou no produto sentimental há séculos vendidos, mas nas pequenas coisas.
Nos detalhes minúsculos, desses que nos fazem acreditar nas coisas belas.



Carta:



Lista:




28 de fevereiro de 2018

Esperando pelo milagre





A reescrita de seus trechos favoritos é um exercício eficaz para a memorização e para o aprendizado de determinado estilo. Ed Myers, personagem de Petitclerc, diz a Hemingway que sabia escrever quando jovem, porém sem dominar as técnicas de grafia e de ortografia. Diz que isso era um problema no ramo jornalístico, no início de sua aventura pela profissão e em suas aspirações como escritor. Ed foi demitido do jornal, implorou pelo emprego de volta e teve sua segunda chance.
Ed era amante de Hemingway e crescera em suas páginas. Ao longo de duas semanas e por muito tempo mais, reescreveu os contos de Ernest: cada palavra, uma por uma. “Assim aprendi a escrever, aprendi a língua inglesa. Aprendi a grafia, aprendi a gramática, como escrever diálogos. Isso abriu meus olhos”, ele diz.
Ao fundo deste texto (ou melhor: desta cena mais retextualizada do que reescrita), ponho para tocar um cover de Faithfully, do Journey, na voz de Clem Snide. E ao fundo da cena a seguir, a princípio fraca, porém crescendo ao fundo até eclodir no fim do diálogo, Faithfully também toca.
Acontece assim:

Foi depois do jantar.
Foi depois das verdades inconvenientes, aquelas que todos sabem, mas que por pena, cuidado e carinho, ninguém ousa dizer; aquelas que os envolvidos não precisam escutar, porque conhecem bem demais as melodias de seus acordes e a posição da letra cravada no papel, o desenho dos versos e o esquema das rimas.
Ele ama um ideal, ama uma memória passada.
Claire sabe disso agora.
Algumas verdades não precisam ser ditas. Ainda assim, após a conclusão fatídica que finalmente fora alcançada, Claire solta uma exclamação, em alarde. Discute com ele, diz a ele verdades e nele cospe aquelas inconveniências que não precisavam ser verbalizadas: a culpa... essa que todos sabem a quem pertence, não era de fato dela – não, não de Claire. A culpa era dele, no fim das contas, embora até aquele momento ela achasse o contrário. O errado era ele e O errado estava nele.
Ele era o perdedor.
Ele não tinha nada, o único naquela mesa a não possuir nada, a catar migalhas, a correr atrás do próprio rabo. Por falar em rabos, inclusive, Claire gritou que ele comera o dela – que dera tudo, tudo, a ele; que engolira até o esperma, mas que pior de tudo: engolira as merdas dele. E não importava o quanto ele racionalizasse e tornasse tudo mais objetivo ao dizer que sempre fora sincero (neste momento Claire já estava de pé e afastada da mesa enquanto o silêncio constrangedor seguido de suas palavras aplacava a todos na mesa), ainda assim os atos dele foram um roubo.
Claire deu as costas e foi embora.
Todos se entreolharam.
E ele bebera um bom e longo gole de vinho, os maxilares tensos, a verdade efervescendo e fervendo como uma rodela alaranjada de remédio contra gripe na amarga taça.
Ele está lá fora – Hank, o pobre Hank.
Fuma um cigarro. O jantar acabou.
Karen abre a porta e sai de casa, caminha até ele. Hank levanta a mão.
– Você está bem? – ela pergunta.
– Lambendo as feridas.
– Marcy e Stu podem te dar uma carona. – Ela sugere com um notório tom de preocupação. Quando ele balança a mão negando o pedindo, ela continua: – Ou pode passar a noite com a gente.
– Acho que prefiro me suicidar.
– Que vergonha. Sentiríamos sua falta.
– Ela acabou comigo, não foi?
– Sim, ela te pegou bem feio. Me fez lembrar de alguns dos nossos “Maiores sucessos”.
– Oh, como sinto falta das nossas brigas de mentira. – Minimamente Hank sorri, saudoso.
– Oh, como eu não sinto.
Hank aproxima-se. Fica ao lado de Karen.
– Quando você e Bates ficaram juntos, fiquei feliz, porque pensei: “É loucura, não vai dar certo”. Mas tem dado certo. Eu acho.
– Tem sido bom, de certa maneira. – Ela admite, sorridente e satisfeita. – Não ter que ver você se apaixonar por outra pessoa. Mas não quero que fique sozinho.
Ele reclama, levando o cigarro à boca:
– Tsc. Não sou solitário.
– Sim, você é. Você é como um garotinho perdido. Não deu certo entre nós e você faz cara feia. Pegou sua bola, correu para casa e nunca, nunca mais quis brincar com ninguém.
– Acho que estar em Nova York me ajuda a esquecer que ainda te amo pra caralho, Karen. – Hank se satisfaz com o sorriso tímido a brotar no rosto dela. – Sim, nossa. Falei em voz alta, não foi?
– E daí? Eu ainda amo você. Sempre amarei, até o dia que eu morrer. Mas em algum ponto, tive que escolher a felicidade. Tive que fazer disso uma prioridade. E agora estou com alguém que entende que nunca vou deixar de te amar. E isso me faz mais feliz do que jamais fui.
– Que bom. – Ele gargalha. – Fantástico.
– Ela tem razão, você é incrível. Você é. E quando as mulheres o conhecem, claro que querem mais. Mas é cruel fazer elas pensarem que podem ter, quando não passa de um holograma.
– Ao contrário do que pensam, não quero magoar ninguém, Karen.
– Eu sei. Mas por que acha que Becca está sofrendo? Algum cara, bom ou mau, ganhou o coração dela e é óbvio que ela quer mais.
– Está dizendo que... Que eu dei a ela um terrível complexo de pai?
– Não, não se preocupe com ela. Estou falando de você, preocupe-se com você. Porque se sua vida for apenas a porra de uma série de... de casos sem sentido e de uma versão idealizada da “Nossa história de amor”... então fico muito triste por você. Porque eu sei do que você é capaz.
– É, e se estiver errada? E se for só isso? E se eu estou destinado a sentar e esperar a banda voltar?
Karen, com aqueles imensos, intensos e tristes olhos verdes, olha para Hank.
– Então você estará esperando pelo milagre. – Ela diz, fitando-o por uma última vez antes de voltar para casa.  
Hank se afasta. Leva o cigarro à boca. Dá um trago profundo.
Fim do episódio, fim da cena.

Certo dia, vi por aí uma dedicatória de casal apaixonado – aniversário de namoro, talvez. Muito provavelmente. Recordei da cena e do diálogo transcritos. Seguida das palavras apaixonadas do rapaz, havia a letra da canção do Journey, algo que me fez pensar que
é, cara, é verdade”,
você ainda consegue encontrar as coisas bonitas por aí, de vez em quando, acontecendo na vida sem que ninguém perceba ou sem que ninguém conheça Faithfully, apesar de completamente possível e plausível. É uma canção bonita, destas que trazem lágrimas à garganta e nós aos olhos.
Às vezes, por aí, embora não acredite neles, você até vê alguns milagres pela janela.
Bacana.

E Faithfully continua a tocar.