21 de abril de 2017

Complexo de Camilla



Abro uma pasta no computador. Material antigo, acumulado. Estou à procura de palavras que deixei passar e que na época não tive coragem de expor, que tive vergonha por pensar ou consideração em não pronunciar. Releio criações há muito esquecidas - criações de personagens e pseudônimos esquecidos. Palavras com anos de idade, palavras estranhamente mais antigas que os tornados que assolaram os prados da banda de cá.
Palavras que assustadoramente previam, detalhe por detalhe, um futuro que eu nem cogitava de fato se concretizar.
Acendo um cigarro - na época, eu detestava a menor menção à nicotina. Estou assustado comigo mesmo. Seria um dom divinatório ou uma capacidade extremamente aguçada de análise e observação?
Relações são matemáticas. Algumas, quando iniciadas desde cedo de forma violenta, forçada e abusiva, dão a você um resultado percentualmente esperado.
Aí você se contamina.
Preto vira branco, branco se torna sujo e tudo acinzenta.
No entanto, eu não sou matemático.
Muito menos profeta.
Como eu fiz aquilo?
Camilla Tavares esteve correta diante de suas observações.
Camilla que era eu e eu que fui Camilla, esta noite, sutilmente me aterroriza.
Disse ela já naqueles tempos que tudo terminaria em “sangue e guerra”.
Eis o complexo de Cassandra novamente.
Eu não quero que Camilla volte tão cedo.
 eu
não                  quero.
.


16 de abril de 2017

Frame congelado n.1




Quando eu penso naquela primeira noite ao ar livre, na mente me vem o teu sorriso.
Sei que em algum nível de compartilhamento, aquela noite foi nossa, tão minha quanto sua, mas desconfio que os conceitos de “nosso” ou “compartilhamento” não sejam iguais entre nós dois. Por essa razão, nestas linhas, sempre que eu citar os termos “nossa + noite”, partirá de mim um sentimento deveras especial, específico em força, intensidade e memória.
“Memória” talvez defina aquela noite.  
Poderia eu descrevê-la em centenas de palavras em um ímpeto criativo de suprema inspiração que, ainda assim, não representaria a sutileza da realidade que minha memória guarda ou as sensações exatas que naquele dia senti. Perfeição não é retratada, não é representada, não é reproduzida. Perfeição existe em um frame congelado, uma brisa gélida de noite chuvosa ou um grito aleatório de alguém feliz atrás de nós. Perfeição é aquilo que eu jamais conseguiria transportar para essas linhas ou criar em uma nova realidade inventada. Aprendi recentemente que “história” e “estória” já não se distinguem mais, de modo que você livremente pode escrever “história” ao mencionar um universo criado, sem o apego à realidade. A destruição dessa distinção baseia-se no fato de que, mesmo inventada, uma história fictícia é, em si, realidade – em algum plano, em algum nível, em alguma análise –, pois o real vai muito além do palpável ou do descrito em livros de História ou existentes na memória.
Veja, eu poderia escrever em um conto ou em um romance inteiro (como bem disse que poderia te escrever e como até bem já criei um título) a nossa experiência naquela noite chuvosa, a primeira verdadeiramente importante em público, ao ar livre. Ainda assim, não se compararia ao que restou de lembranças na minha cabeça ou de instantes carimbados no tempo. Pois aquele lugar nos pertenceu – aquele barco festivo, aquela chuva enjoada que nunca decide se vai embora ou se fica, aquelas latas de cerveja ou aqueles tragos de cigarro. Talvez a vida imite a arte, mas duvido que até mesmo Richard Linklater fizesse melhor. Por isso eu não ousaria reproduzir em palavras, representar em prosa ou desenhar em poema os eternos e inúmeros frames daquela noite. Não conseguiria reproduzir, representar ou desenhar aquele teu sorriso que se abre totalmente apenas com o canto da boca e soa meio sacana, mas que na verdade (se eu bem sou um observador teu), significa um nível de sinceridade e agradável desconcerto, desses sinais que me provam que consegui atravessar as linhas territoriais da tua indecisão e da tua autoproteção. Se daquela noite eu pudesse congelar um único frame, entre teu cabelo desarrumado, entre as divagações sobre o Universo e a vida lá fora, entre nossos beijos (atrasados, sim, mas muito bem aproveitados), eu certamente congelaria o teu sorriso meio aberto de ponta.
Porque (sem exagero algum de dramático prosador) aquilo para mim significou um nível particular de felicidade.
Um nível verdadeiro de singela perfeição.





Para A.T.

10 de abril de 2017

Com Jordana, Blues. ou uma referência a Caio F.



Novamente ela falou sobre minha eterna, compulsiva mania e apreço para com as palavras tristes.
É a quinta ou décima vez que Jordana me diz isso.
O modo como ela chegou até mim é parecido com o modo como todas as outras antes dela também chegaram: sem as artimanhas que o mundo julga que utilizo com vilanesca e premeditada presunção. Alguns dizem que utilizo de minhas palavras para conquistar mulheres como Jordana, quando mal sabe o mundo que as palavras acabam por se tornar muito mais consequência do que causa. Fico em demasiado orgulhoso ao saber que não sou como os bons galãs de ultimamente, com seus cabelos longos e hidratados, sorrisos de dentes bem compostos, violão no colo, suavidade na voz e “poesia pura” na alma. Uma fórmula bonita, bela, eficaz: você tem um harém diante de si.  Fico em demasiado orgulhoso ao saber que não apelei para este tipo de poesia barata e oportunista, estampada por poetas-canalhas destes fluxos boêmios da noite belenense. Um poema bem composto aqui; um violão sob a mangueira ali; coque arrumado, sapato engraxado com a bermuda dobrada sobre os joelhos.
Voilà. “Poesia pura”, baby, diriam eles.
“Poesia pura” e oportunista para ao fim da noite conquistar o que todos nós, homens, somos treinados para alcançar desde os primeiros passos. E assim os bons e verdadeiro intentos que cercam a construção da mais sincera e pura poesia (dessa vez a poesia pura sem aspas, independente da forma como vá se materializar) torna-se, nos superficiais gozos da madrugada, puro objeto de manobra, de ego inflado e de sexo garantido. Os rapazes da faculdade debatem-se para saber como o pirralho conseguiu a atenção da moça de cabelo Chanel negro que, até o presente momento destas palavras, ainda não aceitou o vigésimo convite na caixa de solicitação. Abarrotam-se eles como macacos Bonobos desalmados, sempre comentando, cochichando e dizendo coisas que, de tanto a vida inteira escutar, servem-me mais como material para piadas sádicas e autodegradativas do que ofensas de fato. A velha história acontecendo de novo, repito comigo sempre que Jordana me diz “passa aqui”, então lá eu passo e espero plantado tão devotamente que qualquer dia desses levo um bouquet com rosas de plástico. Ainda bem, pensei após a sétima ou nona vez que Jordana tocava no assunto, que nunca usei premeditadamente minhas palavras para conquistar qualquer uma delas.
Na verdade, acabo por sempre usar ingenuamente minhas palavras para perder cada uma delas.  
Jordana outra vez pergunta por que minhas palavras de cunho tão tristonho são compostas e eu, novamente, deitado na cama a contemplar o teto, dou de ombros sem muito saber a resposta que já deveria ter na ponta da língua a essa altura.
“Suas histórias são tristes e seus finais também”.
Que sorte, querida. Ela era a primeira em muito tempo que lia algum final de história feita por mim, porque geralmente nunca sou de finalizar coisa alguma. Ela vinha acompanhando nos últimos meses minha produção com o bastardo e o britânico e leu em meus planos ambiciosos o recente fim que dei aos dois. O recente fim que algumas coisas por aqui necessitam ganhar. Jordana se dobra em meu colo enquanto faz a pergunta que eu nunca sei responder, porque acha ela que minhas palavras estão tristes, quando no fundo ouso discordar: elas nunca estiveram no auge e nunca antes tão afastadas do niilismo e do decadentismo pelos quais fiquei tão falado nas bocas alheias e tão odiado nos corações de outrora. Jordana não sabe, mas quando ela se dobra assim sobre mim e pergunta (acho que na boca dela já virou piada e talvez apenas eu não tenha percebido) sobre o teor tristonho de minhas palavras, mal percebe ela, quando sento aqui para tecer alinhamentos a seu respeito, que elas andam muito mais pacíficas e calmas de um modo que jamais julguei que estariam um dia.
Jordana é a primeira que me pede para escrever sobre ela e a quem o pedido atendo com prazer, ao invés de encarar com desdém pela aparente petulância. Acho que é o horóscopo: andei sabendo que felinos como ela são típicos e desgraçados narcisistas. Tudo bem, eu topo o desafio – porque o cafuné após cada um desses arranjos de palavras escritas, entregues e expostas é, sumária e maravilhosamente muito bem recompensado.
Jordana mais uma vez pergunta sobre o teor tristonho de minhas palavras.
Acho que há aí um pouco de piada, já não tão sério quanto achei que fosse ou talvez ela não se incomode de verdade através daquela implicância e daquele sorrisinho sacana que faz questão de exibir.  
Por hoje, fico apenas com este arranjo meio sem sentido e em suma metalinguístico, referenciando Caio Fernando Abreu no título e transformando a menção de um texto triste feito por ele em composição de um texto esperançoso, feito por mim.
Porque Caio tinha Ana e depois nem isso.
Já eu, tenho Jordana, Blues.
E depois nem sei.







(Baseado no conto "Sem Ana, Blues", de Caio Fernando Abreu)

5 de abril de 2017

Explodiram São Petersburgo



Explodiram São Petersburgo.
Teu gato será uma das mais fortes lembranças que vou ter em longo tempo sobre tua existência; teu gato se chamava Raskolnikov e era taciturno demais, quase traiçoeiro. Pouquíssimos eram os felinos que não gostavam de mim, o gordo Rod era um deles. Eu não lembro exatamente a última vez que o vi ou que tentei exaustivamente brincar com ele, essas lembranças são retalhos indefinidos e inacessíveis que eu gostaria de ter guardado nas gavetas mais acima, aquelas fáceis de se alcançar, mas ao que tudo indica coloquei todos as notas mentais, fragmentos e frames congelados nas gavetas de baixo, aquelas que minhas mãos não chegam. Por essa infeliz razão, eu não lembro de meu último contato com o gordo Rod. Lembro, contudo, da vez em que você disse que ele não miava daquele jeito para mais ninguém, aquele jeito raro que os bichanos miam logo depois do petisco, quando entrelaçam-se, ronronando, entre suas pernas quase em forma de agradecimento. O que há salvo nas minhas gavetas de cima, neste momento, é você deitada no sofá com a cabeça sobre meu colo, comentando essa supracitada forma que o Raskolnikov miava para mim – porque aquele miado implorando por comida, típico deles, ele até esbanjava para todo mundo; o miado pós-petisco, não; era apenas meu. “É a terceira ou quarta vez que ele faz isso pra ti”, você falou. Essa memória eu guardei – e talvez até tenha arquivado a memória desse tão particular e especial miado do Rod, embora permaneça intacta minha opinião a respeito das verdadeiras intenções dele para comigo.
O gordo gato me desdenhava.
Quando eu saí por aquela porta, confesso que não reparei se Rod veio atrás de mim, creio que não. Quando passei por aquela porta e sua priminha, a Teresa, falou comigo com aquele sorrisinho banguela e eu fiz um carinho na cabeça dela, embaraçando aqueles cabelos de um castanho sutilmente queimado, também não reparei muito no bichano. Ela me perguntou se eu ficaria para assistir Titio Avô com ela e eu disse que não, mas dei um “BOM DIA” enérgico e caricato. Ela me respondeu da mesma forma. Sua prima Teresa eu guardei nas gavetas de cima, porque eu olhei para trás e confesso não ter reparado no Rod, mas reparei que você estava ali, ao longe, engolindo aquele choro desgraçado que me dava vontade de voltar atrás, mas eu tinha um orgulho a manter, mas eu tinha que firmar um orgulho que não tivera nos últimos três anos, dois meses e dezesseis dias. Eu contei. Eu sou bom com datas, lembro de cada uma, creio que seja instinto adquirido de algum lado da minha família: Você Possui os Genes Para Lembrar de Datas Importantes. Lembro de nosso dia, lembro qual dia da semana passei por aquela porta e qual o número dele – lembro da Teresa, lembro do “BOM DIA”, lembro do seu olhar contendo o choro e implorando para ficar. Eu não fiquei. Lembro de não ter ficado, também. Sou bom com datas, acho que está no sangue.
Três de Abril de Dois Mil e Dezessete.
Explodiram São Petersburgo.   
Falei com seu pai na saída. Homens são bobos, desatentos aos detalhes mais escancarados. Sua mãe, no entanto, notou a sutileza. Eu amava o café com leite que ela fazia todas as manhãs antes de vestir-se naquelas roupas alinhadas, saltos elegantes e pegar as chaves do carro para mais um dia no Fórum de Belém. O café era glorioso, bebida dos deuses. Havia algo nele de especial que até hoje tento desvendar, que até hoje me condeno por não mais saborear. Sua mãe notou a sutileza, sobretudo por não termos descido à mesa e por eu negar, por três vezes, quando ela insistiu para que dele eu tomasse antes de sair para o que quer que fosse “tão urgente e exigisse minha atenção”. Ela te conhecia há dezenove anos, dezesseis a mais que eu e portanto sabia, mais do que ninguém, que aquilo o que você prendia na garganta era choro, não alergia ao pelo do Rod. Guardei nas gavetas de cima a imagem e o rosto dos seus pais, porque você geralmente tende a guardar a última imagem que mentalmente fotografa de pessoas amadas. Guardei a deles. Aquela foi a última vez que falei com sua mãe.
Não olhei para trás outra vez, porque tudo estava acabado e você faria qualquer para insistir no contrário – tudo bem, qualquer um em são desespero faria o mesmo. Eu faria o mesmo, no seu lugar. Eu faria um escândalo. Eu não me deixaria partir para evitar a tortura futura de ter de partir também. Se fosse eu mais esperto, não teria partido. Se fosse você mais esperta, não teria entrado naquele metrô.
Recordo também o dia de seu voo. Você nunca vai saber agora, mas eu fui ao aeroporto e te vi de longe. Não foi tão dramático como nos filmes, mas me saí bem em não revelar minha presença – naquela época, eu me saí muito bem em não revelar coisa alguma. Cê sabe, eu poderia ser um gelo desgraçado quando bem desejasse. E assim desejei. Eu te vi embarcar, eu vi seu avião decolar. Eu nunca fui te abraçar, nunca te dei a chance de mudar de ideia e parar antes do check-in. Nos últimos meses eu havia escrito uma centena de textos sobre esse dia, fantasiando uma versão alternativa onde eu vou ao teu encontro com aqueles costumeiros abraços de Coala. Eu te apertava forte e você a mim e então você desistia de seus sonhos para ficar comigo, o que oficialmente seria dito aos seus pais que “não estou preparada ainda, posso ir ano que vem?” e assim eles aceitariam porque seus pais são feitos de suprema ternura e compaixão – não é de me admirar de onde você herdou tudo isso. Escrevi há três semanas alguns parágrafos e dois contos, todos dentro do aeroporto; todos com a voz de Bob Dylan ao fundo cantando

One more cup of coffee for the road,
one more cup of coffee for I go
to the valley below

enquanto nos desfazíamos em lágrimas e desistíamos de seu embarque.
Em partes, isso aconteceu – a canção de Dylan, porém não a intervenção no aeroporto. Essa foi a última música que ouvimos juntos, naquela época em que, adolescentes, ainda partilhávamos o mesmo fone de ouvido. Ter escutado Bob Dylan com você, naquela noite em meio às brigas, aos socos surdos, às lágrimas, às palavras tortas, torpes e tortuosas, pedidos de perdão e releituras das tragédias foi, com demasiada certeza, a mais dolorosa memória engavetada que pude guardar nas gavetas de cima – bem pior do que o frame de seu avião decolando, porque nesse momento eu soube que já não havia mais volta.
E nunca houve.
Eu sou bom com datas, sabia?
Três de Abril de Dois Mil e Dezessete.
Eu estava prestes a dormir quando peguei o celular e li as palavras de desespero de nossos amigos e de sua maneiríssima tia Jaque, a mãe da Teresa. Essa madrugada foi um terror para todos nós, meu amor. Essa madrugada foi um terror para mim, porque nunca consegui te contar que estive no aeroporto naquele dia. E graças às crenças materialistas que possuo ou, em outras palavras, graças à falta de crenças que tenho, inconformo-me ao saber que você jamais saberá. Porque não está você em lugar algum além desta vida e do buraco naquela terra para que saiba, com amplitude, o quanto estive no aeroporto naquele derradeiro Sábado de Julho.
Explodiram um metrô.
Explodiram um metrô em São Petersburgo, meu amor.
E eu nunca mais vou te ver.



31 de março de 2017

Esquinas improváveis



Talvez esteja eu fazendo um tutorial, um caminho incerto para a felicidade passageira que em uma noite chuvosa de Dezembro encontrei. Acontece que se você subir com passos cautelosos, bêbados e animados pela Frutuoso Guimarães, esperar por um minuto ou um minuto e meio enquanto seus camaradas, desesperados, procuram um poste para despejar a urina e negar todos seus anos gloriosos de refinamento intelectual e desconstrução social, vai encontrar o que eu encontrei em uma noite improvável. Tenho uma garrafa gordinha e quase vazia da bebida dos deuses profanos na mão, estou seguindo quieto, rindo com as piadas que contam atrás de mim e abestalhado com o perfume que exalam os cabelos negros e curtos à minha frente. Jordana me olha vez ou outra, garantido que eu ainda esteja ali – ou ao menos é dessa forma que, admirado demais, interpreto. Ela até diz "já tamo chegando” e eu balanço a cabeça, como se nada estivesse errado – e nada realmente está.
Cai uma fina garoa.
As ruelas estão vazias.
A casa de Jornada também.
Somos jovens demais, impetuosos demais, invencíveis demais, corajosos demais e capazes de enfrentar qualquer ameaça que surja na madrugada. Raquel (que obviamente não se chama Raquel a não ser nestas linhas), com seus cabelos raspados à máquina um, olhos verdes e sardinhas no nariz, me olha e dá uma gargalhada, trôpega demais, jamais esquecendo a piadinha que fiz horas atrás sobre aquele programa de tv com o João Kléber e a esposa que revela o segredo de ter se apaixonado pelo Papai Noel do shopping. Parece tudo mais engraçado quando se está bêbado. A Frutuoso Guimarães parecia muito menos perigosa com tanto álcool em nossas cabeças. Mas estou apenas zonzo, a sobriedade vagarosamente retornando – talvez por isso eu questione o ímpeto corajoso que alcoolicamente nos atinge. Os camaradas gritam atrás de nós, parecem ter retrocedido no tempo, àquela época em que nós rapazes éramos em totalidade aficionados por atitudes infantis (não que este impulso uma hora morra completamente). As meninas, guerreiras verdadeiramente valentes, seguem na vanguarda sob piadas, risadinhas e certas que serão elas a nos defender, não o contrário.
E não discordo.
Dou um gole na Catuaba já quente e aperto os passos. Agora estou ao lado dela, sutilmente reparando no modo como a ponta do cabelo balança em contraste com a pele alva do pescoço. Jordana tem uma camiseta listrada, “sou uma zebra”, havia dito com aquela risadinha meio sacana, meio sem graça. Desbravadores e barulhentos, vibramos quando ela avisa que chegamos, apontando para a esquina com a Gen. Gurjão e provando-nos que realmente mora em uma casa rosa. “Um contraste e tanto”, ironizou mais cedo, quando sugerira a ideia de alongar a noite.
São em noites assim, quando uma fina garoa cai e que ruelas desertas da Campina não nos assustam, que encontramos estranhas primaveras. Ou verões, decerto. Eu caio no sofá e fecho os olhos, sentindo o peso da gordinha bebida dos deuses profanos e bocejando o que parece ser seu efeito de praxe. Os camaradas continuam a bebedeira, as outras meninas acendem seus fumos artesanais. A música toca relativamente alta, uma mistura de baladinha-anos-oitenta me parece distante demais para identificar – eu realmente sou um ignorante musical.
Aí Jordana senta ao meu lado, desabando com sua roupinha de zebra.
(Acho que nestas linhas a chamarei de Jordana, por causa daquela webcomic pela qual você disse ter se apaixonado na primeira vez que conversamos).
Jordana está perto demais e me oferece um cigarro que eu aceito de imediato. “Como chegamos aqui vivos?”, pergunto. Ela me despeja aquela gargalhada gostosa herdada da mãe e diz “eu também não sei”. É nessa noite que ambos rimos da insanidade e na cara do perigo, é nessa noite que trocamos alguns tragos, é nessa noite que gritamos em coro para que Raquel tenha cuidado com a mesa de vidro no centro da sala. É nessa noite que um dos camaradas quebra uma tulipa e Jordana só abana a mão obrigando-os a limpar, é nessa noite que liga a Netflix e me mostra seu filme favorito do Cameron Crowe (já que Elizabethtown me pertencia).
É nessa noite que nos beijamos pela primeira vez. É nessa noite que ela entrega a mim o primeiro passe livre àquela esquina improvável. Três dias depois, ela jura que eu não lembro de nada que acontecera ali – as trapalhadas de Raquel, a tulipa quebrada, a roupa da zebra e sua preferência por Say Anything, já que Elizabethtown me pertencia. Duas semanas depois, estou ali de volta por causa dos cabelos que beijam seus ombros e implorando para que seja uma zebra novamente. Vinte e cinco dias depois, sou apresentado ao churrasco de seu pai e escuto a recitação de sua mãe. Trinta e dois dias depois, volto àquela esquina improvável para aplacar o inevitável.
Dois meses depois, provo nestas linhas que lembro cada detalhe a respeito daquela noite de Dezembro naquela esquina tão improvável.
Dois meses depois, provo o quanto ela estava errada.
Coisa que, aliás, Jordana admiravelmente odeia estar.