20 de maio de 2018

Reunião anual de peixes escritores





Passo pelas portas do auditório. Sou recepcionado pela imensa faixa que anuncia o evento literário, a reunião anual de novos e de experientes escritores contemporâneos. O papel que tenho nas mãos e que recebi na entrada traz consigo uma mensagem:
ESCREVA UMA PEQUENA BIOGRAFIA EM CINCO LINHAS.
Atrás de mim, uma fila com dezenas de pessoas é formada. Lá dentro, pouco a pouco o auditório vai se acumulando. Os convidados recolhem o papel na entrada, escrevem algo nele e o depositam em uma pequena urna que fica na mesa sobre o pequeno palco. Em seguida cumprimentam alguém que acabam de encontrar, permanecem em seus pequenos círculos de amizade ou simplesmente escolhem um dos lugares na plateia, aguardando ao início das honrarias, dos discursos e do bate-papo.
Vejo no pequeno mar de artistas uma sutil movimentação cinética – ondas, são ondas se movimentando, a princípio calmas e contidas, maresia lenta e harmoniosa que se mantém no aguardo de mostrar sua fúria, de revelar sua imponência. Elas estão pacíficas, sedentas pelo momento de tormenta, pelo momento em que se chocarão contra a proa do navio em golpes surdos, abafados e violentos, como tapas estalando nas bochechas quando a água sobe com violento vigor.
Entretanto, por ora, são todos eles (as ondas) somente sorrisos.
Conheço você da última palestra”.
Li sua coletânea”.
Oh, adorei o ensaio”.
Entre eles, há também os verdadeiramente pacíficos: criaturas agradáveis, de boa conversa e de boa aproximação, Escritores-e-escritoras-arraias-Jamanta que domam a língua, os discursos, os questionamentos, os debates e os rebates, mas são notoriamente amigáveis, sempre dispostas a nadar ao seu lado com igual respeito e igual graciosidade, se devidamente respeitados. São aqueles que não redigem abobrinhas existenciais sobre o ato artístico, nem sobre como criar é esfolar-se ou esfolar a quem merece. Eles são aqueles que preferem distância às guerras ou aos barulhos em público. São aqueles que o parabenizam pela conquista e enxergam em você um parceiro de nado, pois sabem que o mar é apenas um pequeno fragmento da imensidão azul que há para ser explorada. Todos esses, aos quais chamarei de Morcegos-do-Mar, arraias do tipo Jamanta, são os bons artistas que redigem palavras de exaltação à vida, de exaltação ao ato, à terra natal ou que redigem sobre narrativas fantásticas a respeito de monstros, assombrações e fantasmas de maneira polida, contida, sem chocar, sem enojar, sem números infinitos de metáforas sujas ou verbetes insanos, agressivos e ofensivos para compensar a falta de desenvoltura com o sensível. Todos eles são o tipo que consome o material que produz, mas que não tenta, em vida, imitá-lo.
São esses que cumprimento com fervoroso e sincero sorriso, que abraço, troco risadas, elogios e planejo parcerias. São eles, cada um deles, todos eles, que se aproximam e me estendem a mão, florindo gentileza e empatia.
O resto, é um grande mar de ondas violentamente dissimuladas, pacíficas à priori, mas brilhantes quando suas caudas e suas super-ondas atingem o auge. O resto, é apenas farinha vencida acumulada no mesmo saco de esquina. Pavões barulhentos. Esbanjadores da boa-poesia. Domadores do sexo. Exímios espadachins da sedução e da crítica diária, os bem-aventurados, almas selecionadas pelos deuses para modificarem a matéria poética e narrativa; almas selecionadas pelos deuses para serem heroínas destemidas, desapegadas, objetivas, imparciais e corretas, corretíssimas.
Pavões lindos.
Peixes-pavões.
Raras iguarias dos mais brabos e bravos mares.
Diante de meus olhos o papel permanece desafiador, como se caçoasse de maneira elementarmente astuta de minha dúvida, de meu estranho impasse:
ESCREVA UMA PEQUENA BIOGRAFIA EM CINCO LINHAS.
– Está muito difícil aí? – Alguém pergunta ao meu lado.
Agnes Ottelo é procuradora pública do Estado. Quase cinco décadas nas malas, três filhos e um marido quinze anos mais jovem, que até pouco tempo conversava comigo com uma habilidade notória de flutuar entre os assuntos da atual situação econômica do país, do problema de imigração na França e da ascensão do Rei Costello III da Ibária, na terceira temporada de nossa série fantástica favorita. Agnes, além do vozerio estrondoso, do parceiro-camarada e da família simpática, publicava também seu terceiro livro. Era do tipo Jamanta, uma típica Morcego-do-Mar, toda sorrisos e delicadezas. Tinha também um modo materno de lidar com as pessoas, sobretudo com as mais novas que ela. Tratava-me, respeitosamente, como um filho. E como ao lado da ternura de uma mãe, sentia-me acolhido.
– Muito. – Acabei sorrindo, ao perceber que se aproximara o suficiente para encarar minha indecisão com o papel na mão. – Eu deveria montar uma biografia padrão para momentos assim.
– Falar a respeito de nós mesmos é sempre difícil, não é?
Agnes mostrou-me o dela: nas linhas seguidas após a instrução, escrevera a profissão, em seguida a palavra “Mãe” e os títulos de suas três publicações anteriores.
– Todas as coisas que eu não tenho. – Estreitei os olhos, dramático. – Ou não sou.
Ela não tardou a gargalhar. Afagou-me os ombros e jogou finalmente um útil conselho:
– Diga apenas o que precisa ser dito. Nada mais, nada menos. – Não esperou que eu reagisse ou que a frase soasse impactante demais. Por isso, finalizou: – Serve para a vida, querido. E também para a escrita.
Antes de se afastar entregou-me uma caneta, em gesto encorajador.
E as águas mantinham-se calmas. Os mergulhos tornavam-se bons mergulhos graças a criaturas como aquelas, nadando ao meu redor com ternura, partilhando da visão privilegiada ali de baixo, nos espaços oceânicos onde habitavam.
Ainda havia, no entanto, a pesca ruim: rondava-me tanto quanto as Jamantas, e por vezes ainda mais que elas, o que inevitavelmente acabava por gerar a sensação de insegurança acompanhada da repulsa: que merda estou fazendo aqui?
Somente quando alguns dos peixes-pavões passam por mim, geralmente com os olhares altivos, os rabos balançando, o vento tempestivo soprando, é que finalmente o estalo surge, a saída para o conflito; finalmente a solução para o impasse do que inventar nas cinco linhas do papel a meu próprio respeito, quando eu era pouco, tão pouco.
Olhando mais atentamente em volta, em direção àqueles que ainda escreviam suas biografias, foi possível notar (contando o número de linhas) o excesso de palavras que colocavam no papel. O quanto absurdamente exaltavam suas qualidades, seus dotes linguísticos, a poesia na ponta do lápis, a lábia ondulando a língua. Tão domadores da arte de contar, da arte de montar linhas e palavras, somente naquele momento exibiam sua inadequação ao ofício: onde lia-se “ESCREVA UMA PEQUENA BIOGRAFIA EM CINCO LINHAS”, era possível enxergar seis, sete, oito delas; um parágrafo imenso com dez, onze e doze expondo a textura contida nas infinitas cores de seus rabos e o brilho que ofuscava a qualquer bobo quando o sol era refletido naquelas tão esplêndidas escamas. A miríade de cores, palhetas infinitas de azul e dourado, prateado crepuscular e alaranjado poente. Os elogios a si mesmos eram imensos, bem articulados. Escritores eram exímias criaturas baforentas quando falavam de si mesmos, criaturas roncadoras (“duas coisas há nos homens”, pregou padre Antônio Vieira, em 1654, também referindo-se aos peixes, “que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder”). Os peixes-pavões, neste caso, e tão cheios do saber, eram amantes de roncos. Cantavam sobre suas habilidades, seus feitos e suas conquistas. Poetas natos por Trágica e Clássica escolha deificada, brasileiros firmes, saídos da terra, ostentadores do verde, do amarelo e do azul de si mesmos, mais ligado à magnitude infinita dos céus do que às desconhecidas profundezas do oceano. Enquanto os Morcegos-do-Mar eram tão sucintamente breves em suas simplicidades, os peixes-pavões excediam-se em regozijo.
Um cardume de gozos.
Dentre os segredos que incomodavam aquele tipo, havia um magnificamente irritante: talvez excessivamente embriagados nas verdades postuladas por Barthes, talvez dissimuladamente defensores de Eliot, ao estamparem o discurso de que não acreditavam em talento instintivo e espiritual (dizendo, em todas as vezes, que o dom para a escrita não era dom, e sim um ato incansável de esforço, persistência e dedicação, embora acreditassem justamente no contrário: julgavam-se, lá no fundo, criaturas escolhidas a dedo pelas musas de Homero, inspiradoras do talento poético relegado somente àqueles que já nasciam com o Dom, com a Dádiva, com a dardejante destreza Divina).
Ainda em Barthes, frequentavam diariamente os funerais dos autores. Defendiam que o cadáver merecia ficar embaixo de vossos pés, sepultado no caixão e afundado nas catacumbas da terra. Acreditavam na Morte do Autor a todo o custo, ou pelo menos era este o discurso que tão belamente entoavam, quando na verdade, no âmago, glorificavam a voz criadora dentro deles e magicamente deliberavam moças, moços e cegos admiradores a deitarem em seus lábios, em suas camas e em seus afagos à noite, pois veneravam, mais que qualquer coisa, a síncope de serem idolatrados, queridos e admirados.
E muito além de todas essas facetas unificadas, havia a semelhança entre eles que dizia respeito aos escritores de amor, poetas apaixonados: detestavam todos. Mais que isso, teciam suas mais orquestradas críticas contra os tão tolos, tão pobres e tantas vezes malandros apaixonados. Possuíam (em 100% dos casos, unicamente homens) estranhas e ferrenhas críticas contra sujeitos que utilizavam o tema do amor para tecerem seus versos e seus romances de trezentas, quatrocentas, quinhentas páginas. E que pouco importasse a qualidade, pois na maioria das vezes, era o que menos havia nelas – no máximo um texto bem escrito e bem organizado. Esses artistas natos, falsos seguidores de Barthes e defensores extremistas da boa causa de Eliot, verdadeiramente não se importavam com a qualidade somente pela qualidade, mas sim pelo ato da conquista: detestavam o fato de escritores românticos, meia-boca, que tão empenhada e superficialmente falavam sobre os assuntos do coração, conseguissem escrever, publicar e brilhar com suas obras ditas “menores”, “marginais”, “rasas”. Sob os argumentos de defesa da técnica, todos esses peixes-pavões enfureciam-se pela vitória daqueles que não dedicavam o trabalho para fins metalinguísticos, pomposos, metafísicos, filosóficos.
A união de tantos elementos gerava a crítica pesada, o sarcasmo cortante, o rugir do público diante da polêmica – polêmica, aliás, era o único elemento na atmosfera que conseguiam respirar, pois viviam dela, fartavam-se nela. 
E assim criticavam, criticavam e criticavam. Para ganharem as palmas de suas beatas extremistas, os peixes-pavões (sempre homens), anunciavam com o poder de suas vozes e seus pequenos e ilusórios estrelatos, que tomassem cuidado: pois eram [os tipos românticos] os mais perigosos. E não que estivessem errados. E não que naquele auditório não houvesse uma dúzia inteira que construíam belos erotismos helenicamente montados com o intuito de atrair jovens e donzelas. A crítica não era inválida: o modo como e o porquê era utilizada configurava, decerto, a hermenêutica central, a raiz velada que poucos detectavam. Quase como uma ofensa pessoal, passavam a criticar os românticos, pois esses, com versos pobres de rimas previsíveis e metáforas porcas, conseguiam com muito pouco tudo aquilo que os peixes-pavões tanto se esforçavam para ter: afluentes e regiões estuarinas fartas de vaginas, suspiros e louvores.
E por isso vestiam as máscaras de críticos como num carnaval vitoriano em Veneza, prestes a empurrarem em genocídio todos os romancistas e poetas românticos que conseguissem – que Caronte os levasse todos! E por isso transcendiam a crítica nas páginas: levavam-nas ao modus operandi da vida real, transcendiam o trabalho em todos os holofotes, gritavam aos quatro ventos o quão defensores eram da segurança de suas beatas, o quão preocupados estavam com a integridade psicológica de cada uma delas (embora fosse apenas a integridade vaginal com a qual se importavam). Então cuspiam, berravam, esperneavam-se em praça pública que odiavam os peixes-amorosos, aqueles que ludibriavam meninas, que escreviam matéria de poesia desnutrida. Então enlouqueciam para que todos acreditassem neles. Então cantarolavam como galos. Estufavam o peito como pavões. Erguiam o rabo, esbanjavam o dégradé de suas belíssimas cores. Mostravam o quanto eram críticos, o quanto eram sensíveis às causas alheias para que ganhassem público, para que ganhassem fiéis na religião que secretamente fincavam no chão os alicerces de suas próprias igrejas.
Enchiam as cidades de avisos sobre o quanto estavam acima disso, sobre o quão preocupados estavam em defender as pobres moças, quando eles mesmos, no passado, chamaram suas amantes de putas, vadias e mentirosas; quando eles mesmos, no passado, seguraram-nas pelos pulsos, literal e metaforicamente, impedindo-as de sua paz interior, de seus direitos existenciais e de suas próprias vontades; quando eles mesmos, no passado, empurraram as antigas amantes da escada, chutaram-nas o útero, cuspiram no feto ensanguentado quando tudo o que elas pediam eram apoio, um instante apenas de ajuda; quando eles mesmos foram os causadores de Infernos na Terra; quando eles mesmos proclamavam que tanto decepcionaram-se com as pobres beatas enquanto seguravam suas mãos, mas tão pouco revelando a maneira como foram deuses paralelos para outras beatas, ao mesmo tempo, escondendo um da outra e outra da outra, em seus estratagemas diabólicos de dominação, de manipulação e de mentira.
Todos esses peixes-pavões dirão às plateias que os louvam, cedo ou tarde, que suas beatas mentiram, que tão exageradamente aumentaram as narrativas (como se eles mesmos, Os Grandes Mestres, já não o fizessem) e atribuirão culpa aos relacionamentos anteriores, no período em que estiveram neles, tão porcamente dobraram suas beatas dizendo que não acreditavam em relacionamentos, que eram apenas rótulos negativamente impostos pela sociedade, que detestavam atribuir sentido a algo que não deveria ser resignificado. E faziam com as outras. E com as outras. E também com todas aquelas que não conheciam a existência das primeiras ou que escutaram somente a versão errônea da história.
Ah, esses peixes-pavões: tão versados nas artes da lábia.
Eu conseguia contá-los nos dedos. Conseguia numerá-los com as duas mãos. E depois as reutilizava para contar de novo.
Os mentirosos. Os barulhentos. Os metidos a defensores. Os falsos seguidores de Barthes. Os que não acreditavam em Eliot. Cada um deles que tão severamente diziam odiar os poetas do amor, que relegavam simplicidade ao primeiro sinal da temática e que amassavam a folha antes de parar no último ponto do texto.
Tão pomposos.
Tão narigudos.
Tão justiceiros.
Críticos afoitos.
Tão charmosos enquanto nadavam, balançando a cauda como salmões orientais aos pés de Buda.
Tão lindos.
Tão críticos.
Tão...
- E aí, cara. Ainda tá na dúvida? – Hélio Tavernard perguntou ao meu lado. Era um tipo Mocergo-do-Mar. Sempre me enviando links de matérias sobre Stephen King, Lovecraft ou Horacio Quiroga.
Reli o papel: ESCREVA UMA PEQUENA BIOGRAFIA EM CINCO LINHAS.
– Eu não sou nada, Hélio. – Cocei a cabeça, indeciso.
– Se fosses um nada, um nada de verdade, nem estarias aqui. Foste convidado.
– E nem tenho nada nas estantes.
– Ninguém começa enchendo prateleiras. A gente sempre começa de algum lugar.
– Então me dá um conselho aí. To recolhendo quantos eu puder.
Hélio pensou antes de balançar a cabeça, feliz com a conclusão à qual chegara:
– O que te faz escritor não é a recompensa de ser notado. Publicação é apenas a consequência de um trabalho. – Balançou o papelzinho que tinha em mãos. Apenas três linhas estavam rabiscadas. Três vezes cinco era, no mínimo, toda a extensa obra de Hélio até o momento. – O que te faz escritor de verdade é unicamente o ato, cara. Só isso. – Então ele botou algo na boca, talvez um punhado de biscoitos, e depois um gole de café preto em copo descartável.
Hélio fez um sinal positivo e finalizou com os ombros balançando:
– Tu consegues, escreve qualquer coisa. Sei lá, dá uma de Chinaski.
Dá uma de Chinaski.
Com a caneta que Agnes me emprestara e com as palavras de Hélio pronunciadas com biscoito e café, escrevi a pequena biografia (dando uma de Chinaski, claro):

“Meu nome. Minha idade. Escritor iniciante e fodidamente intimidado com a presença de vocês. Escrevo sobre coisas tristes e sombrias, sobre chifres, sangue e morte. Ah, também escrevo sobre amor”.

Pus o papelzinho na urna e sentei no meio da plateia, num dos bancos do auditório. Essa iria especialmente aos grandes amigos escritores-pavões: a todos eles que tanto detestavam “amor”. Vê-los se remexendo em seus lugares enquanto escutavam aquilo seria, no mínimo, engraçado. Uma piada e tanto.
Então que assim o fosse.
Que todos eles aguentassem a porra do meu amor.

 

17 de maio de 2018

Suco de caju tem sabor de conforto




Kiara está bêbada.

Há quem diga que o maior sinal de embriaguez seja a falta de sensibilidade no nariz, mas no caso dela é a sensação ainda mais incômoda de inchar o rosto, a carnezinha sobre as pálpebras intensificando a cara já tão natural e caçoada de sono – para alguns, um charme, para outros, uma piada.
Então ela volta para casa, tira as panelas da geladeira e esquenta a comida. Em algum ponto da noite, cai no sono. Na manhã seguinte, quando o celular desperta antes das seis horas, desce as escadas e descobre que as panelas foram estocadas e organizadas na geladeira, indicando que conseguiu guardá-las de volta: bêbada responsável. Ela vai ao banheiro, esvazia a bexiga quase estourando. Volta à geladeira e pega a garrafa com gelo – um litro de água gelada, um litro de água bebida. Mas só isso não resolve, pois a sede não é de ressaca. Ela conhece vários tipos de sede, sabe a textura seca da língua e do céu da boca, sabe como a garganta ressaca quando anda por tempo demais sob sol forte ou como os lábios racham quando passa três dias inteiros sem hidratar corretamente o recipiente ao qual chama de corpo.

Este tipo de sede, o tipo de agora, no entanto, é o mais frequente.

Kiara apanha a insulina, aplica na coxa. Em uma hora, talvez uma hora e meia, a sede terá cessado e o açúcar que entope as veias, que degrada nervos e que a consome as córneas terá diminuído, e com ele a sede também. Até lá, a moça enche outro copo e desce mais um litro de água gelada. Regressa ao quarto e cai na cama. Duas horas depois, o celular desperta. Levanta, a sede já quase inteiramente sanada, a bexiga cheia de novo. Vai ao banheiro, senta, batuca os pés descalços na lajota branca. anômala, apática, une os joelhos, espreme as juntas e tira a água do meio das pernas. Limpa-se, embola o papel num amontado desengonçado, joga no lixo. Desce as escadas, prepara o café. Sobe as escadas, separa a roupa, liga o ferro, passa a roupa, desliga o ferro. Banheiro. Chuveiro. Outra mijada. Coloca a roupa, penteia os cabelos. Antitranspirante Dove (ou o que resta dele). Calça, perfume e calcinha – não exatamente nessa ordem. Desce as escadas, torra um pão, coloca o café na xícara. Liga o celular, música alta. A primeira é Felipe Ricotta, depois troca para The Smiths. The Smiths duas, três e cinco vezes – a mesma porra de música: as mesmas duas garotas dentro de um carro que se esmigalha contra um ônibus.

– Tá pensando nela, né? – Kiara pergunta forte em desmedido, alto e bom som entre as paredes solitárias da cozinha. – Isso, vai: começa o dia desse jeitinho, sua pau no cu do cacete.

Xingar-se é hábito, rotina diária. Sumariamente receitado pelos psicólogos de esquina.

As instruções que segue nesta manhã (segundo o passo-a-passo impresso no papel pregado na geladeira) dizem que ela só deve comer até as oito horas. São sete e cinquenta e nove quando engole o último pedaço de pão. Penteia o cabelo uma vez mais e em seguida bagunça de novo. Sai de casa e pega carona com o bom e velho tio Edgar. Ao chegar à clínica chique, em prédio futurista no centro da cidade, com pessoas bem-educadas e de sorrisos intensos, ela descobre que o médico chegará somente dali a três horas. Três horas. Ainda são oito e ela não pode comer nada, e pior: não pode sequer beber  nada, muito menos água. Kiara ainda está desidratada, mas por sorte a insulina resolveu algo, o mínimo que seja – a pele está menos quente, a sensação de falsa febre por causa da hiperglicemia agora menor, o coração menos acelerado e a respiração já controlada. O problema é que com o passar das horas sem comer nada a insulina faz efeito demais, e é a hipoglicemia quem começa a dominar o jogo. Tio Edgar está há horas ao lado da sobrinha, mas ela não pode avisá-lo sobre a tragédia que o corpo anuncia neste momento, pois seria um desperdício de tempo, de viagem, de ticket de estacionamento e de paciência cosmológica. Ela levanta da cadeira, embora não deva. Não deve gastar a energia que o corpo tão pouco dispõe, mas teimosa, dá uma volta. Precisa aliviar o tédio, a ânsia, o desespero. Na clínica não há revistas: nem Veja, nem Istoé, nem Caras, nem Recreio, mas há A Arte da Guerra e O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
A atual professora de Literatura Portuguesa Moderna de Kiara, adiantando as cenas da próxima disciplina, fala a respeito de Saramago a todo instante: Saramago, Saramago e Saramago. Saramago isso, Saramago aquilo. Saramago que tão bem conhecemos por um de seus romances mais espetaculares:

Ensaio

sobre

a cegueira.

Internamente, Kiara está rindo.

Externamente, a boca da paciente se retorce num espasmo de ironia. 
Se pudesse xingar a si mesma, Kiara o faria.

O que faz, no entanto, é se sentar de volta. Alguém a chama pelo nome – um rapaz vai até ela com um colírio e pede para que não abra mais os olhos após pingá-lo. A moça obedece, comenta duas vezes com o tio, entredentes, que seu maior problema agora é não dormir (mas não menciona a hipoglicemia e o quanto precisa comer e repor as energias). Por mais três vezes o rapaz retorna e coloca o colírio que (todos sabem) dilatará as pupilas – ela já fez isso antes, todo mundo pelo menos uma vez na vida já fez isso antes, a questão enigmática é que neste momento ela não sabe o que realmente a aguarda do outro lado da sala e nem o porquê o médico exaltara a palavra “complexidade” enquanto rabiscava a guia dos exames para mandá-la até ali, ali, naquele lugar, naquele exato instante.

Então pensa que se dane, e dá de ombros. Tem dado de ombros há muito tempo na vida. Paralelamente, monta uma série de piadinhas para caso a verdade que se anuncia realmente se mostre fatídica. Uma delas é a respeito da fantasia de Demolidor (a). Há uma edição em que Matt Murdock vai fantasiado de Demolidor a uma festa de Halloween, isso sim é piada (Kiara viu a cena na timeline Dela, a mulher de rosto borrado em pixels que povoa sua memóriaporque Ela gosta dessas coisas e obrigou Kiara a assistir a série do herói na Netflix, aquela com o ator fofinho e cabeçudo).

Kiara consegue ouvi-la dizer, lá no fundo da memória enquanto comia um prato de frango assado com arroz, farofa e um copo gelado de água:
Sua maldita comida preferida, né, filha da puta linda?

– Ele é muito cabeçudo. – Rindo, a comida pulava sem querer para fora da boca. – Mas também é fofinho.
Às vezes Kiara também gosta de xingar quem muito deseja odiar, porém tão pouco odeia. Ajudava a lidar com as coisas.  
Novamente o mesmo rapaz a chama pelo nome e a moça é conduzida pelo braço à outra sala. Uma senhora de falso sorriso acolhedor aplica nela uma substância.

– É contraste – avisa a senhora. 
Kiara fica surpresa que não esteja falando sobre o recurso fotográfico ou de edição de fotos (isso foi outra piadinha).

Ela também avisa que sua urina ficará extremamente amarela, já que o organismo começará a expelir aquela merda feito um desgraçado, e que talvez as veias até fiquem roxas. 
– Mas não é hepatite. – A senhora ressalta, abrindo um sorriso. 
(Uma semana depois, Kiara continuará mijando uma substância amarela demais que quase tem certeza de não ser urina).
Novamente a conduzem à outra sala, dessa vez uma cheia de equipamentos estranhos. é quando a moça finalmente compreende: isso é uma abdução alienígena, 
A mulher na memória adoraria saber que vim parar aqui, Ela, a mulher borrada, o eco na cabeça; Ela com certeza me ajudaria com uma piadinha nova. Mas Kiara está divagando outra vez, escapando para longe demais da realidade numa reação defensiva e saudosista, sobretudo saudosista.

O médico (que finalmente chegou às onze em ponto) dita um bocado de regras e ordens, sempre com um sorriso agora verdadeiramente acolhedor: sente-se em na cadeira, Kiara. Posicione o queixo. Isso. Olhe para a luz vermelha. Flash. Olhe para baixo. Flash. Para a esquerda. Flash. Para a direita. Flash. Olhe de novo. Flash. Já fez algo com laser alguma vez? Flash. Tem uma marca de laser aqui. Flash. Não dilatou direito, preciso fazer outra vez. Flash. Outra vez. Flash. Mais uma. Flash. Isso, Kiara, já vai terminar. Flash. Olhe para a luz vermelha. Flash. Abra os olhos. Flash. Abra bem os olhos. Flash. Pronto, tudo certo. Pode ir.

Ao final do exame e com a visão completamente vermelha, Kiara se sente o próprio Ciclope em pessoa: um Ciclope sem Jean, um Ciclope com a Jean que olha para o Wolverine que também olha para a Jean, uma Jean que não está olhando para o Ciclope, que nunca olha para o Ciclope. Ela (aquela desgraça linda de silhueta fodida e de rosto intencionalmente borrado em pixels na mente de Kiara) também gostava dos X-Men. Recordando agora, havia um fragmento sobre o assunto:

– Esse filme é um lixo. – Ela diz dentro do eco perdido que há na cabeça de Kiara. – Mas o Ciclope é fofinho.

Divaga.

Tem divagado demais ultimamente.

Uma vez mais guiada pelos braços, a paciente senta em uma cadeira. A enfermeira de falso sorriso acolhedor tira a agulha de seu braço. Aperte aqui. Ela aperta. Uma funcionária agradável pergunta se deseja suco de Caju. Ela aceita, por pouco esquecendo completamente da própria hipoglicemia. Ela aceitaria qualquer coisa que pudesse engolir e que cortasse aquele mal-estar, exceto alguns fluídos humanos (sobretudo de procedência masculina). A funcionária agradável traz um copinho de suco de caju e um pacotinho de Clube Social. Kiara está desesperada de fome, as mãos trêmulas. O médico passa com um técnico ao lado. Outro técnico passa por ela, todos eles estão com aquele olhar estranho, o mesmo que os dois médicos antes daquele exame direcionaram a ela quando tiveram de repetir a palavra “edema”. O mesmo olhar que todos eles direcionam a ela quando repetem a palavra "edema".

Fodam-se todos.

Kiara dá de ombros – já mencionou a moça o quanto tem feito isso ultimamente?

Pelo menos estou bolando piadinhas.

Então ela se pergunta se o suquinho é procedimento padrão enquanto se preparam para dar as notícias. Teria o suco de caju propriedades acalentadoras como todo bom, grande e engelhado maracujá? Teria o suco de caju sabor de conforto? Seria o suco de caju uma espécie de colchão inflável usado com dublês de cinema para te proteger das quedas? De qualquer forma, diante da fome que a devora, sucos de caju são a melhor coisa da vida. Ela começa a achar que o suquinho de caju talvez seja a forma mais profissional e psicologicamente elaborada (prevista em todos os manuais médicos) que têm de anunciar as más notícias.

No fim, enquanto Kiara lentamente dá um passo após o outro fingindo que enxerga o caminho, fingindo que está bem; no fim, do mesmo jeito que fazia na noite anterior fingindo sobriedade, a recepcionista avisa:

– Venha buscar o resultado em três dias úteis, mas venha acompanhada.

Seria um aviso?
Seria um alerta para vir preparada para as notícias ruins?
– Darão mais suco de caju? – Rebate com um sorrisinho tão dúbio que faz até corar o rosto maquiado da recepcionista. Um corar estranho. Um corar que todos gostam de receber de volta. Vitoriosa, Kiara sorri:  – Nesse caso, eu venho.

No caminho de volta, o bom tio Edgar se mantém calado, rindo pouco das piadas feitas pela sobrinha ou pouco mantendo a atenção nelas. Há um silêncio constrangedor enquanto ele se reveza entre risadas perdidas e trocas silenciosas na embreagem. A moça olha para o lado de fora e fecha os olhos tão afetados pelo clarão exacerbado da dilatação e do sol fodido de Belém.

Tá tudo bem. Diz a si mesma, internamente. Tu sabes, mana, é como dizem: o que os olhos não veem, o coração não sente.

Ela dá um sorrisinho. Está ficando cada vez melhor nisso.

Ba dum tss.







18 de abril de 2018

Das canções de ninar






Descobri Lullaby, do Low, não muito tempo talvez após Jordana ir embora. Descobri, como muito bem talvez já soubesse, que nada, absolutamente tão pouco, sabia a respeito de música – e continuo não sabendo. Do que sei, entretanto, e do pouco que absurdamente tenho alguma certeza, é que o que sei resume-se não à música ou ao caráter técnico e artístico dela, mas o que essa harmonia (no sentido mais metafórico da palavra) causa em mim – é disso o que sei e é sobre isso o que entendo: o que os aspectos anteriormente citados, todos, bailando juntos e entrelaçando-se helicoidal e figurativamente, causam em mim.
Foi nessa época que descobri Lullaby, do Low. Foi na época logo após Jordana partir, Jordana, a mesma Jordana que ensinou-me sobre as estrelas, sobre cada astro e sobre cada ângulo astronômico, sobre filósofas russas e pensadoras escandinavas, sobre libertadoras do pensamento hermético do leste europeu na época em que judeus morriam ou em que bombas nucleares eram tão euforicamente prometidas para explodirem.
Foi na época em que meus cafés da manhã resumiam-se a café preto requentado e ovos fritos (os últimos dois na porta da geladeira). Foi na época dos tantos cigarros, deitado no sofá e como descobri o quanto a nicotina faz mal à minha doença-crônica-autoimune-diagnosticada-na-infância. Foi na época do declínio que
aprendi
sobre a sensação que Lullaby, do Low, causa aqui pelo meu meio, no centro secreto, quando coloco duas abas do Youtube para tocar – porém com um segredo, com um truque transcendental que é o trunfo e que me traz aqui, neste texto: duas abas abertas, porém com um intervalo de dois ou três segundos entre si. A canção, de harmonia tão lenta e mágica, causa uma espiral empírica fantástica, com ecos que acalentavam-me a alma e entorpeciam-me os olhos. E por isso tão ativamente espalho o truque, o tão sagrado segredo desta música, para o mundo:
Quero que sintam a estranha e espiritual sensação; quero que sintam a música. E quero, acima de tudo, que sintam os truques necessários para se saber viver ou, pelo menos, saber-se tentar sobreviver com a ausência de Jordana, logo após ela falar sobre amor e fazê-lo compreender que nem tudo que ama ou que é amado necessariamente pousa em você para ficar. Nem todas as coisas que nascem para te amar ou que nascem para serem amadas por você (por um breve momento, apenas), permanecerão ao seu lado.
Algumas coisas permanecem por um minuto apenas.
Algumas coisas fixam-se por um significado apenas.
E nunca mais vão embora.
Jordana foi uma delas, e graças a ela, aprendi sobre Lullaby, do Low – e como duas abas abertas, com intervalo de dois ou três segundos entre si, causam a sonolenta sensação de paz e ao mesmo tempo sonolenta sensação de ausência, de não-significado e de solidão.
A sensação do desamparo de saber que ela está lá fora.
E eu estou aqui: nas noites, insone, tentando, em vão, adormecer.



10 de março de 2018

queimados, kiara




  
A doença evolui muito rapidamente, diz a endocrinologista. Em seis meses talvez (ênfase no talvez), muito provável, ela tenha evoluído bastante, diz o doutor que é o especialista destas retinas, mas também há outro doutor que trata as dores neuro-

lógicas de kiara que, francamente

(o mais amigável e compadecido de todos eles até agora),

diz que a doença (a causadora de todas as outras,

inclusive da primeira que iniciou estas linhas-versos) queimou todos os seus nervos por dentro, inclusive dos olhos.

kiara suspira.

não possui mais tempo para sentenças regulares ou letras maiúsculas após os pontos ou vírgulas devidamente posicionadas como aprendeu na infância, já que toda a infância futura e passada parece perdida. todas as noites agora os quartos ficam mais escuros, especialmente os quartos da casa dos avós e por isso tanto evita visitá-los e tanto evita passar longos dias e não-mais-belas-noites lá

com eles, embora nem sequer desconfiem da verdadeira razão, acham que kiara está fechada em si mesma nos últimos anos por conta de uma solidão crescente ou de uma mudança magnânima de todas aquelas coisas boas que um dia foi e pelas quais a família sempre se orgulhou, porém que agora não é mais. infelizmente ela não mais os visita com frequência porque tem medo dos dias (devem ser uns quatro a cinco por semana) em que acorda com todas as coisas escuras ou com os contornos da lajota piscando sob seus pés em um tom negro de um branco já perdido ou durante as noites quando não consegue enxergar as feições no rostinho da irmã de pele-jambo ou os próprios olhos ou o

próprio rosto na frente

do espelho.

mas se há algo que conforta a pequena kiara de olhos futuramente deficientes, cegos,
queimados, escuros e, talvez, muito provavelmente em seis meses ou menos, é que até com as piores coisas você se acostuma. kiara sabe disso porque hoje, nos dias em que acorda abrindo as janelas para a luz das setes horas iluminar o quarto, iluminar a visão e dar conforto diante das lajotas piscando e dos contornos indecifráveis, ela espera de trinta a quarenta minutos porque já sabe que em 1hora os olhos estarão quase-normais novamente e tudo,

tudo com certeza,

voltará ao normal. pelo menos por enquanto, quando ainda consegue enxergar os documentários do National

Geographic sobre Truques da Mente às oitoemeia contando como funciona o cérebro

– esta máquina incrível –

e como funcionam

a visão humana

e as córneas

e as retinas

e os nervos

que talvez,

com sorte,

não estejam queimados,

se você não for kiara

e se tiver mais
sorte ainda.


1 de março de 2018

Primeiro de Março




Um texto sem propósito.
Ou não.

Há exatos 50 anos, Johnny Cash e June Carter subiam ao altar, diante dos olhos de homens e de mulheres, diante das benções de Deus. June tornava-se Cash, embora fosse mais Carter que Cash até o dia de sua morte.
John Carter Cash, filho do casal, revelou em livro quase recente que o conto de fadas não fora exatamente um conto: ao longo dos anos, o pai continuou a lutar contra as drogas, as brigas vieram e June possuía um medo terrível daquilo que quase todos nós também tememos. As discussões continuaram e as promessas de rompimento também. Como um bom Peixe sob olhos e decisões das estrelas, Johnny não partia para a violência física durante e depois das brigas, mas se afastava – dias e dias consigo mesmo, dentro de si e envolto por milhas e milhas de distâncias daqueles que estavam centímetros ao seu lado.
O conto de fadas, como entoam as fotos e as histórias, pode não ter sido inteiramente um conto, mas quando há escolha, quando há aceitação e quando há o mínimo de devoção, talvez ainda haja algo. E foi isso (esse algo) que houve até o fim.
John Carter Cash diz que na infância, após uma briga de palavras violentas entre os pais, ele foi chamado à sala, tinham uma notícia importante a comunicá-lo. 
Qual?
A renovação dos votos.
Em 23 de Junho de 1994, em seu aniversário de 65 anos, June-mais-Carter-que-Cash recebeu uma carta de seu marido. A carta foi eleita como a mais romântica da história.
Já Johnny possuía uma lista de afazeres:

1.     Não fumar.
2.     Beijar June.
3.     Não beijar mais ninguém.
4.     Tossir.
5.     Mijar.
6.     Comer.
7.     Não comer demais.
8.     Preocupar-se.
9.     Ver mamãe.
10.    Praticar piano.

Notas:
            Não escrever notas.

São nas listas e nos pontos acima que residem os detalhes. São os detalhes que nos levam ao fim. São eles que nos fazem permanecer na união e na crença. São os detalhes que nos levam todo ano, há cinquenta anos, em cada primeiro de Março, a pensar nas pequenas grandes coisas – não necessariamente no ato, no compromisso ou no matrimônio; não nas grandes utopias ou no produto sentimental há séculos vendidos, mas nas pequenas coisas.
Nos detalhes minúsculos, desses que nos fazem acreditar nas coisas belas.



Carta:



Lista: