2 de agosto de 2026

Saiu no Diário Oficial

 

 

Nesta cidade pequena de minúsculos fatos e pequeníssimas causas, qualquer notícia oficial é bomba a correr por teclados e vozes. Um sussurro dado a oeste é ouvido com retumbância a leste, já os agentes do norte são os protagonistas de antigas historietas do sul, enquanto os do sul ganham ao norte a alcunha de persona non grata. Nesta pequena cidade de atos minúsculos e banais fatos históricos, esquecida há muito tempo pelos grandes centros urbanos e cuspida dez vezes mais por eles, qualquer novidade há de ser proclamada com enérgico estardalhaço.

Pensando nisso, os mais velhos poetas regionais desta cidade (que nunca seriam chamados de nacionais, pois o cânone brasileiro jamais os consideraria merecedores de tamanha honra) criaram o Saiu no Diário Oficial. A princípio, um periódico dedicado a críticas políticas à oligarquia dos Carvalho ou ao poder avassalador do jornalismo dos Romana. Entretanto, o sucesso foi tamanho que com as décadas passou-se a divulgar vagas de emprego, anúncios de emplastos e até mesmo uma republicação do que de fato havia saído no verdadeiro Diário Oficial, acordo feito com as autoridades jurídicas estaduais que há época muito incomodadas ficaram com a anedota no título. De repente, o Saiu no Diário Oficial tornou-se o quarto mais popular jornal impresso da cidade, perdendo apenas para os veículos de seus concorrentes: um dos Carvalho e dois dos Romana. Afinal, como os grandes centros urbanos, esta pequena cidade de minúsculos acontecimentos não largou a mão de suas tradições coronelistas que tanto apeteciam ao povo e aos senhores que neles seguravam as correntes.

Pela primeira vez em minhas três décadas corridas de vida, eu estava ansioso pela publicação daquele dia. E não porque naquela data em específico, na página da republicação, os nomes de 1/16 da cidade sairiam impressos na lista do Diário Oficial (o oficial-oficial, não o oficial-chacota). Os nomes dos selecionados em dois concursos públicos, que já haviam sido divulgados no Oficial, então seriam republicados no Saiu, o que por si só significava uma dupla comemoração. Três pessoas de meu convívio próximo, mais duas de convívio longínquo foram nomeadas para cargos de funcionalismo público do Estado e isso, para quem luta & tem sorte & detém disciplina & finalmente é recompensado, era uma vitória a ser comemorada. As ruas estavam em polvorosa, quase como em dia de vestibular, faltando apenas a canção de Pinduca a alegrar os festejos populares.

No entanto, não era por tal nomeação que eu estava ansioso. Que tais vitórias ficassem para os mentalmente abastados, aqueles que tinham capacidade para vitórias de tal nível. As minhas vitórias, por outro lado, eram de outra ordem: sorrateiras e pejorativas, autoinfratoras, indulgentes, açoites orquestrados e coordenados. Não era na republicação do Diário Oficial, dentro do Saiu no Diário Oficial, que meu nome seria exposto, mas em uma coluna em poucas dezenas de linhas, num canto afastado da 7ª página, uma crônica confessória de meus erros e assinada com meu nome. Em casa, todos estavam ansiosos com a notícia de que, finalmente, eu teria um trabalho reconhecido no jornal. A colegas, amigos e desavenças, fiz questão de ampliar o alarde: uma grande divulgação seria feita, maior até mesmo que uma nomeação em cargo público. O intuito era que todos soubessem. O objetivo era que de ninguém minhas palavras passassem desapercebidas.

Ao jornaleiro de esquina, dirigi-me contente. Empolgado, perguntei:

– Tens aí o Saiu?

– Claro, meu patrão – ele buscou no fundo da pilha de papel, que no topo tinha apenas os jornais dos Carvalho e dos Romana. A julgar pelo meu sorriso, o bom homem desconfiou: – Teu nome saiu no Diário Oficial?

– Não, não – sorri de volta, convicto das minhas incompetências e preguiças para prestar quaisquer concursos públicos. – Meu nome saiu no Saiu.

– Hum – o homem fez, sem entender.

Ele me entregou o jornal e em suas mãos depositei os tostões necessários. Abri na sétima página e apontei para que me notasse:

– Aqui. Nesta coluna. Eu publiquei uma crônica. Olha, olha.

O homem meneou a cabeça e tentou disfarçar toda sua frustração. Os olhos disseram “que legal, grande coisa”, mas a boca assim disse:

– Égua, firme. Meus parabéns, meu patrão!

Estive prestes a responder qualquer coisa quando uma moça se aproximou. O sorriso e a felicidade estampavam seu rosto pequeno de traços nortistas. As mãos, trêmulas. Afoita, ela pediu:

  – Oi, bom dia! O senhor tem o Saiu?

– Mas é claro que tenho, minha querida – respondeu o homem, respeitoso. As palavras não soaram invasivas. Eram típicas de um cavalheiro nato, sem segundas intenções, sem maldades aparentes. Ele a entregou o jornal. – A senhorita quer uma água? Parece nervosa.

– Não, não precisa. Obrigada – e sorriu. – É que eu recebi uma mensagem que... ai, meu Deus... me disseram que meu nome saiu no Diário Oficial.

– Ô, glória! – Ele bateu palmas, animado. – Meus parabéns!

– Parabéns, moça! – Eu disse.

– Você passou em qual concurso, minha querida?

– Pra professora.

– Que maravilha! Deus seja louvado! – Ele ergueu as mãos ao alto.

– Érr... de língua portuguesa – completou ela, ainda incrédula.

Ela agradeceu com um aceno de cabeça e tratou logo de abrir o jornal. Usou o dedo indicador para buscar o próprio nome e quase teve um troço quando se viu ali estampada na edição.

– Passei! Passei!

O homem & eu aplaudimos.

Tamanha foi a alegria da moça que ela se despediu sem pagar, o que verdadeiramente não pareceu incomodar o jornaleiro de esquina.

– Deve ser tão, tão bom ler o próprio nome no Diário Oficial, não é? – Refletiu ele, aéreo pela alegria da nova concursada.

– É, acho que sim – sinalizei com as mãos e me afastei.

Quando cheguei em casa, por sorte sozinho e sem ninguém em volta, respirei aliviado e abri na 7ª página. Vi ali meu texto e nome publicados. O texto e o nome que todos, nesta cidade pequena de minúsculos fatos e pequeníssimas causas, estariam também prestes a ler:

 

 

Crônica do dia

“Sobre homens & homens”

Por Felipe Santiago

 

De todos estes homens, sou só mais um. Cometi os mesmos erros. Saí nas mesmas ocasiões sob as mesmíssimas pretensões. Alguns o fizeram há muito tempo. Muitos o fazem com recorrência. Fiz só recentemente, mas contra minha imagem de bom-moço, é preciso divulgar derradeira verdade: um evento único – pois a constatação de uma hipocrisia precisa ser exposta. Eis-me aqui! Como Simão Bacamarte recorrendo à matraca para inflar a notícia pelas praças da cidade, embora, graças aos deuses, já tenhamos a imprensa para divulgar ao povoado a novidade. A reunião de tais conclusões, ou pelo menos a concretização da epístola destas, abateu-me nos dias que se sucederam àquela noite: quando ela me disse, enquanto caminhávamos pela rua, após minha confissão de preferir jogar videogames a ser escritor (porque escrever não me traz a nada, enquanto os jogos, bem, eles me distraem deste mundo), assim ela disse: você está se tornando um homem comum. Nas entrelinhas, o que ela também confessou, em frustração, foi: quando te conheci, não eras um homem comum. Eras desses que escreviam & liam & possuíam um coração bom & tinham algum potencial artístico que aos meus olhos eram belos, que significavam alguma coisa mínima, uma pequena ponta de salvação, de exceção. Mas não é culpa dela. Esta crônica existe, aliás, para ressaltar que a culpa não é dela. Nem antes nem depois de minha sucessão de falhas de homem comum, não após a sucessão de conselhos das sábias mulheres que a rodeiam e que também perdem seus tempos com homens comuns, todos eles sentados no sofá debatendo as políticas do mundo & os direitos das mulheres & opinando sobre suas roupas & se afogando em pornografia & desfrutando dos hobbies de suas esposas apenas quando lhes são apresentados por colegas de trabalho mais atraentes e mais promissoras, todas elas afundadas nos dilemas causados pelos mesmos homens-comuns que abarrotam lares e esquinas, embora aleguem superar tais dilemas com infrutíferas terapias. Aliás, a culpa também não é delas. A única culpa que a ela atribuo é a culpa de enxergar em mim algo que valha a pena, algo que seja qualquer coisa além daquilo que tantas vozes já a alertaram o contrário, até as cartas, algo que não está presente em homens comuns, como o comum-homem que sou. Vejam: isto é uma autorrevelação, tais palavras não têm o intuito da ironia ou da falsa modéstia como estiveram expostas quando este veneno escrevi. Agora, é constatação do ordinário e de sua adjetivação mais vil. Por isso esta crônica existe, assim como todas aquelas que fui capaz de escrever, em um parágrafo apenas, desde 16 anos atrás. O dinheiro que gastei com prazeres passageiros e o dinheiro que torrei em noites de raiva em eletrônicos desprezíveis, o dinheiro que fui incapaz de investir na materialização da união. As selfies que tirei quando o sabido crachá temporário pendia em meu peito e os erros após promessas recentes e a impaciência com a intromissão de plateias como se estas fizessem parte do assunto só por terem ouvido fragmentos dele. O porco escroto que fui ontem, hoje e serei amanhã, em menor ou em igual grau. As ameaças que fiz uma década atrás a outras mulheres e as traições de outas almas que julguei ser vítima, muito embora iguais já houvesse cometido antes. A traição da indiferença. A traição da covardia. A traição da apatia – “o que tenho em mim é um estado chamado de ATARAXIA”, ousei dizê-lo a uma antiga namorada, pois conheci o conceito em um filme com Bruce Willis e julguei cool, julguei que isso fazia parte de mim, quando só não possuía coragem nem decência de confessar imaturidade, irresponsabilidade, machismo e escrotidão. A traição do ser, a traição do não-ser, do não-fazer, do não-estar e do não-notar, muito maiores que a traição do adultério. O porco escroto e minúsculo covarde-hipócrita que anseio que todos saibam que fui e berro para que todos saibam que ainda sou, ao invés de ouvir estas mesmas verdades de bocas que desprezo, que sempre antipatizei, muito embora houvesse fingido em todos esses anos, dissimulado e sonso por nascimento astrológico, ter cultivado qualquer simpatia. Que a verdade saia de minha boca ou de meus dedos, mas jamais, em hipótese alguma, das bocas ou dos dedos daqueles que detém minha antipatia, pois se a eles pertencem minhas histórias, então a mim igualmente pertencerão algumas que sobre eles tenho em mãos. Que a verdade, a verdade a meu respeito e o desvelo desta máscara sejam proferidos e escritos por mim. Que saiam de meus dedos e de minha boca. Que o escroto seja aqui admitido e revelado: eu, eu, em um único parágrafo, apenas eu.