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5 de março de 2023

meus últimos 20 chegaram



 

e não vêm com sabedoria elementar nem com uma bagagem de grandes sucessos. Miséria, miséria, três vezes miséria é uma citação que não sei se existe, se parafraseei ou se inventei. Só sei que uso. Uso-a aqui porque Social Distortion cantou que misery can be a heavy load.

Veja, não uso estas referências para galantear minha imagem ou para engrandecer minha estima. Até porque, se há algo que preciso dizer ao chegar nestes últimos 20, é que estou cansado de sujeitos que muito sabem e que sobre tudo conhecem. Estou cansado dos sujeitos muito ponderados que têm opinião sobre tudo, que sobre cada assunto dispõem de informação na manga – pedantes, abarrotam as esquinas e as salas de aula e os eventos culturais e eloquentes encharcam cada canto da cidade. Estou farto. Não os suporto. Pra mim, são todos uns cagalhões intelectuais pretensiosos. Engraçado, certa vez citei isso no distante conto sobre Ariadne. Patético. Agora estou me repetindo e me autorreferenciando. À época, compactuava da opinião, mas hoje eu a compreendo melhor, porque suporto menos esses sujeitos e porque eles sempre te olham de cima, sempre supõem que você não sabe. E mesmo que eu saiba, fico farto de alertar informação. Se eles se sentem garbosos por escutarem o som de suas próprias vozes explicando o óbvio, então eu é que não impedirei vossos ímpetos de auto apreciação.

Meus últimos 20 são marcados pelo silêncio. Estou cansado. Não de viver, nada disso. Pois se o desejo me faltasse, eu seria um suicida. E se suicida eu fosse, então vocês estariam em posse de minha reles obra-prima acompanhada de minha ausência. Neste momento, entretanto, estão em posse de um desabafo acompanhado de minha mais enfadonha presença. Estou cansado mesmo é de conversar. Dos diálogos. Da necessidade de sempre ter algo a dizer sobre qualquer que seja a coisa, qualquer coisa. Sou dado a silêncios, sobretudo ao lado dos que muito sabem, dos que são exímios detentores do conhecimento do universo, os sujeitos deveras ponderados, sempre muito educados, sempre muito polidos, que falam para que você julgue que eles te estimam, quando na verdade estimam os elogios que recebem, as comparações que a eles fazem, e no fundo, no fundo mesmo, não conseguem esconder as intenções por detrás do tom de voz, do olhar. Nos últimos 20, uma coisa que não mais me escapa é o olhar. Olhares ainda entregam tudo. Coisa que nem o mais dissimulado dos pilantras consegue esconder. Aliás, pilantras dissimulados possuem o olhar mais transparente do mundo. É o que me faz desgostar deles. Sobretudo quando tentam ser ponderados.

Mas isso aqui foi um longo devaneio. Estou cansado de tanta coisa nestes últimos 20 que quase fiz disso uma lista. Perdoem-me. Não estou cansado de aprender, de descobrir, embora não tenha sede insaciável pela descoberta nem pelo aprendizado – até tal estereótipo me irrita, trinca-me os dentes. Tenho, na verdade, é preguiça. No entanto, quando ambas as coisas me batem à porta, acolho-as com extremo carinho. De referências, gosto de me encher. Recentemente, assisti meu mais novo filme favorito da vida: Chungking Express. Ainda dá pra conhecer coisas novas à margem do último dos 20. Mas sobre o filme nada tenho a falar no momento, que fique para outro texto, para outro dia. Pois isto não é um ensaio intelectualizado a respeito da agonia psicológica na jovem-sociedade-contemporânea, é apenas um

desabafo.

Pois não gosto de mim. Não gosto de quem eu sou. Sou a voz da crítica. Quem tem que gostar de mim são os outros e agradeço por haverem outros. Mas essa auto-antipatia me consome e me revolta. E quanto mais revoltado, mais enlouqueço. Quanto mais louco, mais me torno eu mesmo pra que me odeiem, pra que não gostem de mim, pra que de mim nada esperem senão risadas e piedade. Não quero ser visto pelos vossos filtros. Quero ser visto pelo meu. É autopunição. Estou me autopunindo por ser eu mesmo. Insuportável. Patético. Gozado. Pouco merecedor das poucas coisas que tenho. No último dos 20, você já sabe quem é, você já se conhece. Não há muito o que mudar. Vai se tornar o quê? Começar tudo de novo? Em uma nova cidade no interior de sua persona? Arriscar uma nova vida no subconsciente como as inverossímeis tramas hollywoodianas? Tudo isso para que, ao fim da noite, o passado te bata à porta após a mera exposição no espelho? Balela. No máximo, uma máscara. Um personagem. Um falso reflexo pra esconder o bastidor da piada, a chacota por trás da chacota. No último dos 20, você não é mais interessante, não é mais novo. Tudo o que queria ser era alguém como “Mais bicho que fruta”, escrito por uma Cassiana Maranha. Queria me enxergar sob aquele filtro. Queria me ver através daquela poesia, mas temos todos

caminhos diferentes

e olhos diferentes

e visões diferentes

e retinas

e filtros

e últimos 20 diferentes.

No último dos 20, você não passa de uma prosa-pouco-poética de um Felipe-qualquer. Quem é esse? O que ele fez? O que construiu? O quanto cresceu? O que se tornou? Vai saber. A plateia urra em risadas. À sua volta, apenas a saturação. Aqueles que te amam escolheram ficar por hábito ou por que se sentem obrigados? Por favor, o questionamento é retórico. Não responda. Lentamente, estão aqui e daqui talvez partam. Se até tu te cansas de ti, é natural que os outros também o façam. Vai só te sobrar o sangue e esta jaula que te é o corpo, a casca obsoleta, sem atrativos. Nem através da beleza a futilidade existe. A futilidade seria um alento, um refúgio, o vazio dos corpos, da burrice, da mera casca bonita. Até pela beleza fui vilipendiado. E da saúde fui expulso. Os médicos chamam de suicídio passivo o que a população de terceira idade, com o tempo, escolhe fazer quando a solidão e o cansaço batem à porta. Escolhem deixar de tomar o remédio regular. Uma consulta esquecida. Um tratamento ignorado. Um fim premeditado com a sorte do certeiro acaso. Optam por, lentamente, não anunciarem as dores, deixam de se importar com o autocuidado. Certo dia, um rim que para de funcionar sem solução para a cura ou, ocasionalmente, um ataque fulminante. É isso o que estou, conscientemente, fazendo desde os 12 anos de idade, não é? Quando aquele avião-UTI atravessou uma baía para me buscar, como se minha vida valesse a pena. Quando uma criança precisou crescer ouvindo que se não fizesse isso e não comesse aquilo e não agisse dessa forma e não seguisse todos aqueles passos indicados por médico 01, 02 e 03, então conseguiria viver uma vida longa e próspera, sem pensar no rim que falharia, nos olhos que se cegariam e toda a sorte de males que uma criança não deveria escutar. Foi isso o que estivemos fazendo em todos esses anos? Ignorando e cuspindo e negligenciando esses enfadonhos conselhos de saúde? Foi isso o que fizemos? Esse suicídio passivo? Foi isso o que meu velho avô fez? Meu velho avô que até ano passado comigo compartilhava essa data e que este ano comigo não mais estará? Foi isso? Ou foi só a mais pura e imbecil teimosia masculina (em mim igualmente existente) de ignorar especialistas, tratamentos, consultas e todo aquele blablablá médico? Não o culpo por isso. Aliás, só o respeito. É preciso coragem para viver assim e lidar com as consequências. A perda. A insuficiência. A ineficiência. A ausência. As possibilidades perdidas. O terror da intubação e o assombro da cama de hospital. E o próximo dia 06 com um dos lados sozinho, sem o outro, sem o par que gostava de festas e de presentes e de bolos e de palmas e se alegrava com as ligações recebidas e disputava quem ganharia mais presentes.

Olha só, vô. Não sei quando nem como entraste neste texto, embora ele tenha propositadamente nascido por tua causa. Estas palavras escolho aqui depositar pois aqui poucos me conhecem, só algum admirador desvairado ou admiradora sem jeito que acha que sabe o que sou, quem sou, que me vê apenas através do filtro da idealização, fingindo, forçando, nada genuíno. Até isso é ofensivo, a falta de sinceridade – não que dela eu precise agora.  O curioso é que até isto aqui ficou obsoleto, este depósito mesquinho para palavras ordinárias, não lidas. Isto aqui que me era um refúgio. Uma distração para os dias ruins. Para o cansaço dos outros lugares onde todos sabem quem eu sou, como eu sou: uma pilha de frustrações, de revoltas, de chatices, de palavrões e de um amontoado de verbetes sobre os quais ninguém mais liga, ninguém dá a mínima. Até os que me conheciam se foram, estão indo. Os que ficam, são os que valem. É outra coisa que você ganha no último dos 20: caso não tenha sucesso, terá os que valem a pena. Poucos, bem poucos. Exceto, é claro, se seus olhos forem os olhos de pilantras dissimulados. Então, neste caso, estarás cercado por uma infinidade de gente. É o que chamam de sucesso no último dos 20.

Parabéns.

Qualquer dia desses até daqui vou sumir – e não se preocupem, nunca fui partidário a ameaças, já avisei no início que isto seria um desabafo, não minha reles obra-prima. Odeio, por exemplo, falsos suicidas. Eles mancham a causa. Com as pílulas, foi assim: primeiro fiz. O comunicado da tentativa fracassada veio depois. Qualquer dia desses, até daqui vou sumir – não é uma ameaça, é só uma metáfora. Com um aceno, sem um aceno ou (na pior das hipóteses) na apatia do cotidiano, na covardia da sobrevivência, na morte lamentável que é a aceitação da vida. No marasmo. Na modorra.

Chego ao último dos 20 meio aquém, meio sei lá. Dez anos atrás, meu peito clamava por amor, por romance. Agora que o tenho, meu peito clama por ser alguém, por ser alguma coisa, por ser algo melhor para merecer o que possuo, para merecê-lo, para não parecer nem ser ingrato. Porém tenho sido vacilante como as boas histórias românticas raramente nos mostram. O desânimo do eu, o desânimo de mim. O aprendizado que se esvai, os hábitos que se empilham, que te cegam, que te tornam gradativamente desinteressante, apático, sem atrativos, sem graça, o-sujeito-que-deveria-agir-que-nem-o-outro-sujeito-pois-o-outro-sujeito-é-um-sujeito-bacana – até os livros paraste de ler e até aquela veia artística deixaste morrer. É o silêncio do cansaço que te toma quando os sujeitos muito ponderados e sabedores de tudo começam a falar a falar a falar e a tomar conta do mundo e diante de ti são comparados e louvados e adorados e tudo isso de novo.

Tudo vai piorando

no último dos 20,

caso não tenhas olhos de pilantra dissimulado e caso não tenhas, ainda, alcançado sucesso e emprego e um pedaço de papel que digam palmas e parabéns,

finalmente

és alguém!

Até as nuvens na pele, por exemplo, estão piorando. Sabias? Estão no couro cabeludo, nas costas, onde meus olhos e o reflexo da vergonha não alcançam. Nos cotovelos e nas extremidades das extremidades, nos ossos dos pés e nos joanetes não crescidos. Mais que isso, nem sei como andam as retinas, que anos atrás, no auge do desespero da cegueira, até me renderam bons textos sobre kiara. Nem sei como andam os rins. Nem sei como caminha este pâncreas inútil. Ruim nascer defeituoso. Pior que isso é não saber lidar com os próprios defeitos e ter de viver a todo instante com as mazelas deste Destino piegas. Destino foi um ótimo feito. Não um dos meus favoritos, mas um dos meus mais bem tecidos.

Chego ao último dos 20 cheio de lamentos. Sem conquistas. Sem vitórias. Sem sequer a chance de produzir herdeiros – não que eu os queira, pois assim como Brás Cubas, de minha miséria tenho consciência e minha miséria não ousarei transmitir. Chego ao último dos 20 sem o único sujeito que me fazia enxergar alegria nesta data. Mas vale lembrar que, apesar das derrotas que moldam esta psique em frangalhos, foram os melhores vinte e oito anos que pude ter, e agora serão vinte e oito próximos anos esquisitos, solitários sempre nos dias 06, sem o par da dupla que adorava bolos e refrigerantes e palmas e parabéns e assoprar velas e disputar quem ganhava mais presentes. Vai ser só solitário, vô. Porém só mais um tranco no caminho, certo?

Só

mais

um.

Que miséria de data. Que carga pesada a se carregar. Juro que esta será a última vez que sobre isto escrevo, pois será a última vez que recordarão desta data. E só para cumprir com o prazer da contradição, e só para ser essa eterna incongruência discursiva, citarei, sim, Chungking Express:

 

“Na verdade, nasci às 6:00 da manhã. Então eu realmente terei 25 anos daqui a dois minutos. Em outras palavras, já passei um quarto de século neste planeta. Para celebrar esse momento histórico, decido ir correr. Me livrando do excesso de água no meu corpo. É uma sensação boa. Ao deixar a pista, eu decido me livrar do meu pager. Porque eu sei que ninguém vai me ligar hoje”.

 

Mas até em Chungking Express há um desfecho satisfatório, meio minuto depois. Os desfechos satisfatórios ainda podem vir. Aliás, não são os desfechos. São as realidades boas o que me mantêm e manterão aqui pelos próximos 29 anos – os pouquíssimos amigos, o amor, o círculo e também o fodido orgulho de não ser um cagalhão intelectual pretensioso de olhar dissimulado. A tudo isso dedico um pequeno parágrafo de seisepoucas linhas, porém é o que aqui me segura. É o que faz valer a pena.

E por fim, se este texto for uma comparação, então tais palavras são como suor. Todos os escritores suam para que as lágrimas não caiam. Se todos chorassem ao invés de escreverem, seria um mundo mais triste e menos poético. Não que isto seja poesia. Não que eu seja um escritor – só um sujeito se valendo de coesão para formar alguma vil coerência. Qualquer um é capaz de escrever um texto bem alinhado e bem arrumadinho.

Até porque isso não é arte.

É só desabafo.



E só pra nunca esquecer:

parabéns, vô.

 

 

[...] 

essas mentes constipadas que buscam

sentidos mais amplos

serão despachadas com o resto

do lixo.

para fora.

se houver luz

ela o

encontrará.


(quanto mais você tenta, B.)

 

23 de novembro de 2022

a verdade sobre o desaparecimento da srta. Finch ou Criaturas Noturnas ou um texto sobre ficção

Arte de Michael Zulli para "Facts in the Case of the Departure of Miss Finch", Neil Gaiman.

 


Leio a verdade sobre o desaparecimento da srta. Finch. É a penúltima adaptação do encadernado. Comprei a edição há mais de um ano. Li as três primeiras narrativas há mais de um ano. A segunda, lembro bem, foi na varanda. Criaturas da Noite: sobre um gato preto protetor que todas as noites se engalfinha com o Diabo – um touro, um minotauro, uma mulher, um gato selvagem odioso – para proteger a casa e a família, subvertendo a folclórica imagem dos bichanos pretos que trazem azar. Enquanto eu lia, haviam dois gatos de rua perto de mim naquela tarde. Fiz um vídeo. Naquela varanda eu nem desconfiava do futuro. Naquela varanda fizemos história. Você fez história. Dormiu demais. Sonhou demais. Confraternizou demais. Brincou, riu, ralhou, viveu demais. Contou-me histórias, quando deitávamos na rede e nos embalávamos. Eu, muito pequeno, cabia embaixo dos teus braços. Até hoje, lembro de uma história que inventei e que você parecia tão atento e interessado: a do macaco-folha. Era um macaquinho assombroso que tinha asas debaixo dos braços, quais folhas, e ele se camuflava no topo das árvores, igual àquela que tinha num terreno do outro lado da rua, gigante, que um dia durante uma tempestade foi atingida por um raio, tombou por sobre o muro e caiu na rua. Virou reportagem, dessas que não se encontra na internet porque isso foi muito, muito antes da internet e dos smartphones. Até seu Antônio, vizinho fofoqueiro e que não dá muito as caras hoje em dia por conta da idade, deu entrevista. RBA. O Liberal. Foi o maior hit de sucesso que a rua Esperanto conheceu. Era naquela árvore que vivia o macaco-folha. Com a árvore, foi-se o macaco. Com os anos, foram-se as folhas. O terreno foi adquirido tempos depois. Virou um residencial que hoje toma quase todo um quarteirão. As coisas mudam, mas nem todas. Eu ainda invento histórias. Ainda tenho certa predileção por contá-las. Não são as melhores. Nem são contadas da melhor maneira nem lidas por muita gente. Irrelevantes. Esquecidas. A gente faz o que pode. Leio a verdade sobre o desaparecimento da srta. Finch agora. No momento desta sentença, ainda não a terminei – o público acabou de entrar nas galerias subterrâneas de Londres, recentemente apresentada ao Teatro dos Sonhos Noturnos. Se eu disser que leio este encadernado sem sentimentos ruins, estaria mentindo. Tem sido uma tortura. Caso contrário, estas palavras nem se fariam existentes. Lembro que a edição chegou pelos Correios naquela pausa de quase 8 meses em que estivemos na sua casa. Foi uma bagunça. Foi uma confusão. Mas sempre cabia a todos nós, hóspedes temporários: quatro pessoas e duas gatas, as nossas. Mas cabíamos. Com esforço, caberíamos de um jeito ou de outro, porque você nunca diria não e estaria sempre sorridente, alegre por nos ver ali, por nos ter por perto de novo. A reforma aqui de casa foi demorada, e, portanto, nossa estadia na sua casa também.  Ainda bem. Foi a minha última extensa morada ali, meu último extenso tempo contigo – mas ninguém sabia de nenhuma dessas coisas, porque se alguém disse que o amor é um cão dos diabos, é porque não parou pra pensar sobre o futuro. A gente olha sempre pra trás com uma sapiência inútil. Acho que Deus é esse grande sujeito que a tudo pode, mas pouco sabe e vice-versa. Porque quando Ele sabe, não pode. E quando pode, já passou. Passou. Li Criaturas da Noite naquela varanda há mais de um ano. Disso me lembro tão bem. Naquela varanda em que fizemos história, em que nossa família fez história. Agora, continuar a ler este encadernado é penoso. Embora, materialmente, uma coisa nada tenha a ver com a outra, apenas o meu costumeiro hábito de abandonar pela metade todas as leituras que dou início. Difícil pensar que quando comecei a ler, você estava ali. Agora que termino, você já se foi há meses. Por que machuca tanto? Lembrar. Pensar. Vincular um fato aleatório a uma época específica. Por quê? Naquela varanda onde você enfrentou o assaltante e escapou de um tiro e se safou de morrer, onde esteve por diversas vezes sentado, falando a meu respeito e sobre como eu havia publicado mais um livro – embora meu nome só estivesse espremido no meio de tantos outros autores e embora o livro nem fosse meu nem necessariamente só meu – enquanto eu fingia não escutar, porque sempre tive vergonha de ser exageradamente louvado, admirado, exaltado. Terminar esta leitura vai ser penoso. Tem sido doloroso. Pensar que a comecei naquela varanda, onde moramos por 25 anos e, agora, quase 5 meses pra cá, a casa nem é mais nossa, nem te tem mais nela nem a nós, nossa família ou nossas cores ou nossas vozes. Tudo porque você não está mais lá nem nunca mais estará. Tudo porque a vida é um sopro, não de rápida ou de irrelevante, mas de inconstante: hoje estamos aqui, amanhã, com sorte, talvez. Muito talvez. Terminar esta leitura tem sido um fardo que me traz a estas linhas talvez desconexas, sem muito sentido, sem muita coesão, sem muitos parágrafos, sem métricas, sem atenções, sem acabamentos. Leio a verdade sobre o desaparecimento da srta. Finch, mas isto é só ficção. Divertida. Interessante. Passageira. Não me ajuda a lidar com o teu desaparecimento físico. Ajuda? Só me faz lembrar de um ano atrás. De mim sentado na varanda. Lendo sobre o gato protetor que todas as noites lutava contra o Diabo para proteger a família e a casa à beira da estrada. Só me faz lembrar daquele dia em que a vida era mais fácil porque a tua ausência ainda não existia. Gatos podem nos proteger do mau e até a srta. Finch pode desaparecer em uma câmara subterrânea nos abismos de Londres para realizar seu improvável sonho de biogeóloga. Tudo isso a ficção possibilita. A ficção pode tudo. As histórias são capazes de mudar o que há aqui dentro, mas são incapazes de trazer o passado real de volta. A realidade, tão precária e deficiente, não possibilita o retorno real da carne desfalecida ou das cinzas consumadas. Por isso contamos histórias, por isso macacos-folha existem, por isso "o consumo de ficção independentemente da mídia tem um papel muito mais importante do que somos capazes de perceber. É verdade, não somos médicos e não salvamos vidas, mas talvez salvemos sonhos, fantasias, sentimentos", diz o prefácio que nunca teve a intenção de se encaixar no teor destas palavras, mas ironicamente o faz. A realidade, falha, tão falha, não possibilita o dom de voltar, de congelar o relógio, de lá confraternizar ou de ali pra sempre ficar quando você ainda existia. Quando você ainda estava. Quando a casa ainda era nossa – e a varanda e as memórias e as histórias. Quando a vida era menos vazia e o luto não havia. Porra. Que Inferno. Que saudade. Outro dia, muito depois deste texto finalizado, e que agora mais uma vez o altero (acho que finalmente cheguei à versão final), sonhei contigo. Um sonho certamente influenciado pela construção destas palavras e pelo martírio deste sentimento. No sonho, eu te abraçava. Confessava angústia. E te perguntava qual o sentido disso? Qual o sentido da saudade? E você, sorridente, me respondia que significava que valeu a pena. A vida e o que foi feito dela valeram pena. A ficção me ensinou, em um diálogo banal de blockbuster de verão, que o luto é senão o amor que perdura. Acho que é verdade. A realidade massacra. Ela dói e traz angústia. Mas o que são os sonhos senão a representação ideal da realidade? O que são os sonhos senão a nossa forma particular de fazer ficção, de contar histórias, de vivê-las, de relembrá-las e de senti-las? Acho que agora entendi, embora a dor ainda esteja aqui. Entendi aquele seu passeio aqui nos meus sonhos. Aquele abraço macio. Aquele sorriso imortal. A ficção pode tudo. Ela combate a saudade, luta contra o luto. Torna o amor eterno. E se os sonhos são ficção, então a ficção é eterna. Esse é o melhor final que eu posso dar a este texto. Me desculpa. E obrigado.