2 de janeiro de 2026

Obrigada pelo veneno

 



 

Sister, I'm not much a poet, but a criminal

And you never had a chance

 

Tenho pensado sobre o que meus ídolos caídos, tortos e decadentes um dia escreveram ou por aí insistem em cantar. Do jovem fúnebre Álvares de Azevedo, por exemplo, relembro os célebres versos:

 

Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

 

Não de hoje assalta-me um pensamento constante, vez ou outra retorna, dá um passeio zombeteiro, e não da maneira triste ou crônica de outrora, mas de forma lógica e inevitável: penso sobre o meu funeral, nos ritos católicos que, embora eu desaprove, minha família fará questão de praticar: os cantos, as rezas, as palavras de carinho, como se eu houvesse sequer sido merecedor de tais benevolências ou nelas enxergasse alguma espiritual utilidade.

 

Não fui poeta.

Não sonhei.

E quando na vida amei,

amei e amo de todo errado, como uma rosa mais tomada por espinhos do que por pétalas: com abraços de espetos, perfurando e colhendo antipatias, desafetos e mágoas.

Lera Lynn cantou waking up is harder than it seems ao passo que Warren Zevon, décadas antes, também proferiu algo parecido: You wake up every day and you start to cry.

Vidas atrás, uma fiel amiga a quem perdi por pura consequência de minhas destruições, talvez (muito talvez) encantada pela ilusão que em mim enxergava, comparou-me à canção de Cássia Eller: “eu sou poeta e não aprendi a amar”.

Ora, mas que infernos, eu não sou poeta.  No máximo, e nem dos melhores, um prosista. Considero-me mais isso do que prosador. Prosador é respeitoso. Já o prosista tende ao escárnio do ofício, mira a piada do tema. O prosista beija o pejorativo, porque o é em essência, bem como, em essência, não sou belo nem admirável nem encantador nem fofo nem todas essas falácias das quais as pessoas insistem em acreditar, mesmo eu não querendo sê-las na mais vil intenção desmedida.

Só quem sabe disso – as detentoras da verdade –, são as pessoas a quem esmigalhei: amizades perdidas em separações de bens, amizades vilipendiadas na imaturidade das escolhas, sujeitos hipócritas que cruzaram meu caminho em funerais, senhorinhas de sangue que a estranhos messias escolheram seguir, fiéis ouvintes das amantes em quem pisei e, acima de tudo, estas últimas, as próprias amantes. São essas as pessoas detentoras da minha verdade, aquelas que, também, em torno delas, séculos atrás me alcunharam de homem horrendo & macho escroto ou que atualmente, e bem apropriadamente, enxergam em mim um Jurandir – embora, em outras instâncias, doar afeto a aspiradores de pó e conservar carícias e favores secretos a viciados fardados não seja digno de concedê-los tais honrarias... Pois, ora, vejam, de novo, constatem: nocivo acima de tudo. Guiado pela raiva, pela inveja e pelos preconceitos. Todas as pessoas que realmente me conheceram o sabem bem. Aquelas que ousam ainda me admirar possuem apenas a sorte da ilusão ou do não confronto direto, caso contrário encontrariam o homem-médio-nada-além-do-comum que aqui habita. 

 

You're evil as the demons that haunt you

forgetting what it was that they taught you

and now there's no one left to stop you

or to catch you when you drop.

 

E neste vislumbre passageiro, o de imaginar minha morte e as poucas pessoas que a meu corpo decrépito em vida (e finalmente em morte) talvez velarão, desconfio que não sejam as boas lembranças que ficarão, mas as péssimas: a do sujeito descontrolado, instável e péssimo com palavras faladas ou sentimentos ditos; as de mais um Jurandir de única faceta, não de camadas, não de outros vieses, mas um fácil, um único, a moeda de um impostor cujas faces possuem uma só, e que aos montes cai das mangueiras desta cidade e que perambula pelas esquinas, desprovido de bons atributos ou incapaz de salientá-los, pois

as péssimas coisas,

as coisas deploráveis,

as sucessivas & repetitivas escolhas,

as mesmas ações de novo & de novo,

são essas as verdadeiras “nuances” que compõem um homem-médio, um Jurandir. Bem recentemente soprou-me uma pessoa próxima que ainda, com unhas e dentes de desespero materno, luta pelo seu próprio homem-menos-pior: “não existem homens melhores, existem apenas homens menos piores”. E para fundir todas estas citações, quase como se esta fosse uma constatação acadêmica da análise psicológica da perdição dos Jurandis, muito sabiamente disse o vil Xaro Xhoan Daxos: “Um homem é aquilo o que dizem dele”. E sobre este homem, eu mesmo vos digo: cuidado e tomem distância. A única versão dele é a versão verdadeira, e a versão verdadeira ecoa em poucas bocas e é negada a iludidos ouvidos: ele não passa de uns bons punhados de covardia e de vastas ofertas de ironias (é só o que tem).

E se alguma camada nele habita, então é esta:

Não é por mal.

Nunca foi.

Estas palavras só existem porque, ora, há incômodo, há discordância, porém pouca força para discordar e muita impaciência para provar qualquer ponto contrário, sobretudo aqueles sussurrados por bocas que sempre o suportaram com elegante e terna dissimulação. E porque, acima de tudo, passei a acreditar nas histórias que sobre mim são contadas, sobretudo aquelas narradas por lábios queridos que já se encontram calejados e desgastados pela bile na minha saliva e pela peçonha de minh’alma.

Não, irmã. Eu não sou um poeta.

Eu sou somente aquilo que o que dizem sobre mim.