Quem se sobressai é o monstro,
É a soma de coisas ruins:
As francas falhas que foste.
Quem se sobressai
Depois que morre o afeto
E padece o fraterno
É o monstro:
As minúcias diárias,
As pequenas nuances,
As rachaduras invisíveis
No meio da santidade.
No funeral da parceria
O ode não é à memória
Nem aos grandes feitos,
Senão aos defeitos:
À vida que cercava o defunto,
Ao sangue composto
Na história do morto.
As usurárias vozes que
Um dia perderam o pódio
Velarão o corpo deteriorado
Ao lado de viúvas ou viúvos
Com a pústula ânsia de dizer:
"Eu era melhor",
Embora esses abutres
profanadores
Não o sejam
Nem nunca o tenham sido.
Estarão de mãos dadas,
Risadas, triunfos e Ave Marias
Para dizer aos órfãos-amantes
Que a tonalidade e a classe
Não enganam: "a razão nos cabia!"
Embora nem tanto.
Pois dos mortos o que fica
É o que deles dizem:
Não o que nas juras,
Não o que nos laços,
Não o que nas vidas,
Não o que nos atos
Privados o foram.
Quem se sobressai é o monstro,
É o preço que o amor
Haverá de cobrar.
(Felipe Santiago)