20 de maio de 2014

Notas sobre senhoras e parceiros



A diferença, meu parceiro, é que ela ainda te ama. A diferença, a pequena diferença que distingue nossos dois mundos, é que ela ainda espera uma grande atitude sua em relação ao retorno, em relação à sua própria correção perante os erros cometidos, perante as merdas que você fez. E olhe que fizemos, ambos, merdas sem precedentes, mas quanto a isso pode ficar tranquilo, porque ela sempre te amou a esse nível: sempre soube que suas merdas eram sempre em função dela, eram sempre por estar fugindo do passado para alcançá-la, eram sempre pra tentar provar algo – que, convenhamos, você não precisava provar, porque seu eventual ato de respirar já era inteiramente designado àquela mulher. Ora, vamos, parceiro, admita: sempre houve uma esperança para você com a sua senhora, diferente de mim com a “minha”. Ah, e para efeito de explicação, que fique claro que não converso aqui com minha própria consciência ou com o meu lado bondoso, converso aqui com um bom camarada, um bom amigo que deveria ler isso e seguir meu conselho. E qual seria? Relaxe e continue a viver, porque ela irá voltar. Fim de papo. E eu fico feliz em saber que nesses longos sete, oito, nove, quiçá dez anos de jornada, vocês ainda são um do outro, pertencem somente a si mesmos apesar de todas as idas e vindas. Vocês dois são um bom casal, camarada, saiba disso. Saiba que ela ama o trapo que você é, ela ama o falho, porém bom homem que você sempre foi, voltado à ela e somente ela.
Já comigo? Ah, amigo, comigo o buraco sempre foi mais embaixo, abaixo das sombras dos pés, abaixo da sombra das sombras. Comigo o negócio sempre foi e para sempre será complicado, porque por mais que na minha cabeça eu tenha sido exatamente igual a você, por mais que talvez um dia ela tenha gerado um mínimo de afeto naquele peito de seios pequenos e lindos e de coração bondoso e introspectivo, não foi suficiente para encobrir rastros de merdas mal construídas e atitudes não feitas. A diferença entre nós, além, claro, do fato de você ter sorte e eu não, é que a minha senhora não estará disposta a voltar como a sua sempre esteve. A sua senhora, amigão, ainda tem a honra e preocupação de esquentar a cabeça com suas cagadas, mesmo hoje, mesmo depois de tanto tempo. Ela se preocupa porque ainda teme perder algo pelo qual planeja ganhar e conquistar, ainda existe algo pelo qual lutar - essa é a outra diferença. Jamais deseje que sua senhora o mostre uma música cujo refrão diz que “agora você é só alguém que eu costumava conhecer”, porque dói, parceiro, dói pra caralho.
E olha, já para aproveitar esse momento de confissão pública, porém diretamente particular, quero ressaltar que não sou um idiota que finge nunca ter errado, muito pelo contrário. As consequências foram consequências dos meus próprios atos, ou, se assim ela preferir corrigir, consequências da falta dos meus atos. É, que se encerre assim: que o mundo inteiro fique sabendo que a culpa foi e sempre será somente minha, eu pequei por esconder o que sentia, eu pequei por agir estranhamente o tempo inteiro, eu pequei por parecer misterioso e enigmático, quando na verdade por dentro não passava de um menininho eternamente apaixonado – e que ainda não superou isso. É, amigão. O que nos difere é isso: você ser um bom idiota e ter uma mulher que ainda está disposta a ficar contigo; e eu, por ter sido um péssimo idiota com uma mulher que há anos me superou e soube viver a própria vida, sutilmente me dispensando com uma indireta e uma letra – “e eu sequer preciso do seu amor”.
Por isso vá lá, parceiro, termine sua jornada e fique com sua senhora. Um brinde a nós e à nossa amizade, um brinde às mulheres que amamos, um brinde aos finais felizes. E um brinde a mim, é claro, e a todo o peso e à dor que a culpa pode trazer.
Tin-tin.


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